O filho de Tatiana aponta uma casa ao longe. “Minha mãe trabalha lá”. Nós vamos. Todos os dias, ela desce a Rua 5, de bicicleta, e atravessa a passarela sobre a rodovia para cuidar de uma casa. Depois, não volta para sua casa: tem outro apartamento para limpar.

Aos 40 anos, ela segue sempre com alguma preocupação. Às vezes com os filhos, outras com o próprio Nicéia e, muitas vezes, com os jovens. Sempre assim. “Vou por aí: conversando com os meus pensamentos”.
Quando chegamos, ela ficou um pouco confusa. É quase hora de ir para o próximo trabalho, mas, gentilmente, nos recebe. Fazemos a entrevista na cozinha da casa de estudantes em que trabalha. Ali já passaram outras gerações de moradores. Os estudantes se formam, vão embora, mas Tatiana continua. “Os pais me ligam, pedindo pra cuidar dos seus filhos”, conta.
Em 2008, pouco depois de chegar ao Jardim Nicéia, Tatiana tinha dificuldades para terminar a construção de sua casa. Quando chovia, a água do barranco dos fundos descia e invadia o cômodo que ela dividia com o marido e três filhos.
Os meninos da república em que trabalhava organizaram uma festa, em segredo, e conseguiram dinheiro para terminar a construção. Aquilo deu esperança. Tatiana agora só pensava em melhorar a vida dos filhos.
Quando falamos da infância, os sentimentos se misturam e as lágrimas enchem os olhos. Ela lembra de quando era pequena, dos tempos em que as diversões eram simples. “Vamos brincar na chuva”, ela dizia para o irmão.
Tatiana teme pelo futuro dos jovens do bairro: “não tem nenhuma atividade para eles, ficam sem nada pra fazer”. Tatiana fez o ENEM. Quer o diploma do ensino médio. Na adolescência, casou-se e não continuou estudando. Ainda assim, com o pouco tempo de escola, ela se dedicou a ensinar crianças do bairro. Passava o bê-á-bá como nos tempos antigos: as crianças juntavam as letras e aprendiam. Quem fizesse tudo direitinho, ganhava cachorro-quente. “Estudar assim é mais legal. Foi como eu aprendi”.
Houve um momento em que não era mais possível dar aulas, por conta do trabalho. E ela cobra as autoridades. “Eu não sei como ensinar direito”, explica. Ela sente que esqueceram da juventude.
Quando o assunto são os próprios sonhos, Tatiana é tímida, por conta das responsabilidades com a família. “Meu sonho era ser enfermeira”. Há um ano, se tornou avó. Sem os cuidados do pai da criança, ela e a filha se dividem na criação. A menina cuida em casa, Tatiana sai todo dia para poder trazer o que comer. Com a dificuldade do marido para conseguir trabalho, a renda de Tatiana se torna indispensável.
Tatiana espera que, em breve, a mais velha entre na faculdade e que a mais nova volte a estudar. Faz promessas a Deus, acreditando sempre que as coisas vão dar certo. Nos despedimos com a certeza de que ali vive a força de um Brasil inteiro de sonhadoras.
Vitor Soares
