Formalizado, o trabalho com recicláveis pode dar autonomia e estabilidade
Transformar lixo em sustento é o trabalho do morador da Rua 6, Narciso da Silva, conhecido como Baixinho, há 17 anos. A venda de material reciclável é difícil e depende de seu principal combustível, o lixo reciclável. Baixinho reclama que seu ferro-velho não tem tanto movimento por falta de recicláveis, mas já vislumbra uma solução que pode ajudar não só ele, como muitos outros moradores do Nicéia.
Baixinho sonha criar uma cooperativa de reciclagem, uma associação profissional de pessoas que desempenham em conjunto determinada atividade.

Ouça essa reportagem clicando aqui.
O morador conhece muitos catadores de lixo do bairro que trabalham de forma independente e o objetivo da cooperativa seria integrar esses trabalhadores em uma associação. Hoje, o ferro-velho não tem muito movimento, “mas se juntássemos mais gente, teríamos um volume maior de materiais e poderíamos investir em equipamentos para preparar o material para a venda”, explica Baixinho.
O morador planeja fazer uma parceria com o outro ferro-velho da Rua 6 para conseguir um terreno maior e fornecer carrinhos aos catadores. Baixinho acredita que com uma cooperativa a situação iria melhorar muito, “todo mundo vai trabalhar unido e o lucro seria divido igualmente. Um ajuda o outro”, idealiza o morador.
Seu Adão, da Rua 2, é aposentado, mas recolhe recicláveis para se ocupar. Ele concorda com a iniciativa do amigo Baixinho: “A cooperativa ia dar serviço para o pessoal que está parado, é uma ótima ideia”. Seu Adão acredita que a venda de recicláveis pode ajudar muito na renda familiar.

Promessa é dívida!
O morador Baixinho contou que durante a campanha política o prefeito Clodoaldo Gazzetta prometeu uma cooperativa para o bairro; “o Gazzetta disse que poderia ajudar, mas depois não voltou mais”, reclama. Em resposta, a Assessoria de Imprensa da prefeitura afirmou que o prefeito é favorável à criação da cooperativa no bairro e está estudando formas de incrementar as cooperativas que já existem em outros bairros.
Deu certo no Ferradura
No Ferradura Mirim, bairro que como o Nicéia foi formado por ocupações, existe uma cooperativa de reciclagem há 4 anos, a Coopeco. A presidente da cooperativa, Gisele Moretti, conta que a iniciativa começou quando muitos catadores do bairro foram contemplados com o programa “Minha Casa, Minha Vida” e, então, ficaram sem espaço para guardar o material reciclável.
Em busca de espaço e mais trabalho, Gisele procurou o prefeito da época, Rodrigo Agostinho, e conseguiu-se um barracão para começar a cooperativa. Então, o ex-prefeito aceitou mandar um caminhão de recicláveis para o Ferradura, como um teste e a Coopeco começou seus trabalhos.
Havia grande demanda de recicláveis e apenas uma cooperativa em Bauru. Assim, a iniciativa foi bem recebida pelos que dependiam dos recicláveis para viver e pelo poder público.

A Coopeco funciona em sistema do corporativismo. “A cooperativa é dona do próprio dinheiro, pagamos as contas e dividimos o que sobra”, explica a presidente. Para a cooperativa ser reconhecida pela prefeitura, deve ter no mínimo 20 cooperados. Caso contrário, não pode receber verba e nem assinar convênios, inviabilizando seu funcionamento.
“Para entrar no corporativismo precisa conhecer bem as leis, a Política Nacional de Resíduos Sólidos e a Política de Recicláveis de Bauru”, ensina Gisele.
Incubadora de sonhos
A professora Raquel Cabral, da Unesp, coordena a Incubadora de Cooperativas Populares, a INCOP. Esse projeto busca formalizar as iniciativas de criação de cooperativas populares para geração de renda e protagonismo das pessoas de determinado grupo.
“O projeto parte do princípio do corporativismo como alternativa para projetos solidários, que vão na contramão de negócios empresariais”, explica Raquel. “Formalizar uma cooperativa é valorizar o conhecimento local e as intencionalidades do grupo que pretende transformar sua própria realidade”, acrescenta.
Para saber mais
Dois órgãos de Bauru informam sobre cooperativismo. A Secretaria do Meio Ambiente de Bauru (SEMMA) fica na Av. Alfredo Maia, 1-10, na Vila Falcão. Os telefones são 3239-2766 ou 3234-6849. O Sebrae, apoio a pequenas empresas, fica na Av. Duque de Caxias, 16-82, Higienópolis.
Felipe Lamellas
