Moradores denunciam falta de transporte, de estrutura e de professores em novo modelo de ensino

“Algumas mães já tiraram as crianças da escola porque estão acontecendo muitas coisas. As crianças vão estudar e acabam não entrando, ficam jogadas na
rua”, lamenta Martinha, moradora da rua 2, que teve seus dois filhos transferidos para a E.E. Professor Ernesto Monti.
A mudança, obrigatória, ocorreu após a aprovação de um projeto do Governo do Estado de São
Paulo que torna integral o ensino da E. E. Christino Cabral, onde a maioria dos jovens do Nicéia estudava até o fim do ano passado.
A medida adotada pelo governo estadual afetou o funcionamento das duas escolas. Com a mudança na carga horária da Christino Cabral, salas de aula foram fechadas, e mais de 900 alunos tiveram que ser realocados para a escola mais próxima, a E.E. Ernesto Monti.
“Tem muitas mães que não estão mandando seus filhos”, revela Martinha em referência à falta de estrutura da escola atual para receber estudantes.
Os alunos relatam que, após a transferência, muitas vezes não têm aula por falta de professores. Os pais desses alunos também estão preocupados com a falta de cuidado da escola com as crianças e os jovens que estão sem professor. Muitas vezes, os estudantes ficam sem a supervisão de um responsável. “Eles transferiram as crianças, mas não aumentaram o número de funcionários”, relata outra mãe indignada com a situação.
Apreensivos com o desamparo de seus filhos na escola, os pais estão tentando a transferência para outras instituições mais próximas e, enquanto não conseguem, por falta de novas vagas ou de trans- porte, seus filhos deixam de estudar.
“Não tem como você ficar obrigando o seu filho a ir, porque eles chegam e ficam abandonados, então é melhor largar em casa, pelo menos lá a gente fica observando”, avalia uma mãe que não quis ser identificada.
Tauan Mateus, Conselheiro Regional da Associação dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (APEOSP), explica que a E.E. Ernesto Monti realmente não tinha estrutura para receber tantos alunos. “Faltam professores, funcionários e materiais”, explica. Ele acredita que o trabalho exigido atu- almente da escola é maior do que se pode oferecer. E completa dizendo que a melhoria do atendimento aos alunos não depende somente dos funcionários e professores. Cabe ao governo, na visão do professor, fornecer a estrutura necessária para o bom andamento do ano letivo.
Como estudar é um
direito, Tauan diz que a
APEOESP pode tentar aju-
dar quando procurada. A sede da associação em Bauru fica na Rua Gérson França, 70-08, Centro.
União
O descontentamento levou mães do Jardim Ni- céia a se reunirem no último dia 12 de maio, na Pra- ça Central, para discutir o problema. Para elas, a melhor solução seria transferir os estudantes do Jardim Nicéia para a E. E. Doutor Luiz Zuiani, que é a mais próxima do bairro. Para
isso, seria necessário um meio de transporte oferecido gratuitamente pelo estado que pudesse levar os estudantes para a escola. “A gente não tem condições de pagar um ônibus todos os dias”, lamenta Paula, também moradora da rua 2, que está liderando a organização de um abaixo-assinado para mudar as crianças de escola.

Os estudantes e seus responsáveis aguardam aflitos o desenrolar dessa história. A Secretaria de Educação do Município e o Conselho Municipal de Educação não quiseram se posicionar sobre esse problema.
A reorganização
No ano passado, o Governo do Estado de São Paulo, em parceria com o Ministério da Educação, lançou um projeto pelo qual algumas escolas da rede pública estadual funcionarão em tempo integral. A Christino Cabral foi incluída no projeto após indicação da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo.
Para que o projeto fosse aprovado, o texto deveria passar pelo Conselho da Escola, formado por pais, alunos e funcionários. No dia 10 de agosto de 2017, o Conselho votou a favor do período integral. Na versão dos professores membros do sindicato, não houve um convite formal para que os pais se apresentassem para a votação. Os alunos, por outro lado, votaram a favor do projeto, mas num contexto de falta de informações.
Inconformados, pais, alunos e professores formaram um comitê contrário à aprovação. Eles alegaram pressa e desorganização na decisão. A velocidade do processo, inclusive, impediu que pais, alunos e professores se organizassem no fim do ano passado. À época, membros da APEOESP foram até o Jardim Nicéia para mobilizar os moradores. Novamente consulta-
dos, os estudantes se disseram contra a implantação do ensino integral. As partes chegaram a assinar um abaixo-assinado, pedindo maior diálogo sobre a proposta de ensino integral,
mas o documento não surtiu efeito.
Os afetados alegam muitas desvantagens nessa proposta de reorganização. Alunos que trabalhamnão podem estudar em pe- ríodo integral, mais de 900 alunos foram realocados sem ajustes no transporte e a falta estrutura para suportar esses estudantes é evidente na E.E. Ernesto Monti.
As famílias contam ainda que houve, no processo de reorganização, uma perda do vínculo criado com a escola ao longo dos anos. Além disso, houve a redução do número de professores, que passa agora de 50 para 15 profissionais. Isso significa que 35 professores perderam seus empregos ou foram transferidos para outros colégios, também de forma
arbitrária. Já os que ficaram, tiveram até aumento de 75% no salário.
O povo contra
Para o governo, a criação de escolas em tempo integral visa renovar a cara do ensino brasileiro. Pretende-se ampliar o tempo de permanência dos alunos na escola com a justificativa de que, assim, os estudantes estarão mais envol-
vidos com as propostas de ensino. O que não está claro, porém, é se o Brasil oferece estrutura adequada para que os estudantes fiquem tanto tempo na escola.

Em Bauru, manifestações de pais, mães, estudantes e professores marcaram o fim do ano passado. Os números dão
conta de que 519 estudantes foram transferidos, arbitrariamente, para a Ernesto Monti. Onde hoje é uma escola de tempo integral, a Christino Cabral, existem 1500 vagas, mas que não podem ser ocupadas por alunos que traba- lham durante o dia.
Beatriz Maxima
Gabrielle Gonçalves
Maria Clara Silva
Marina Semensato
