Mulheres do Nicéia contam suas lutas diárias em Bauru

Números e relatos revelam desigualdade dentro e fora de casa

Andreia falou à reportagem sobre a discriminação enfrentada pela população feminina (Imagem: Júlia Paschoalino)

Na último dia 30 de abril foi celebrado o Dia Nacional da Mulher Brasileira. A data, pouco conhecida, lembra o nascimento de Jerônima Mesquista, uma importante líder feminista no país. Além disso, o momento foca a importância da mulher pelas lutas e conquistas de direitos em busca de um espaço mais igualitário em uma sociedade dominada pelos homens.

A representatividade desse dia para as mulheres do Nicéia

Nas ruas do Jardim Nicéia, a reportagem encontrou poucas pessoas que conheciam a data. A maior lembrança costuma ser em relação ao Dia Internacional da Mulher, que ocorre no dia 8 de março. Por outro lado, algumas mulheres apontaram pontos positivos em relação ao significado deste dia. “Representa tudo! Mulher é vitoriosa, cuidadosa”, comentou Teresa Alves da Silva, moradora da Rua 1.

Teresa, à esquerda, ao lado de sua amiga, Cícera (Imagem: Júlia Paschoalino)

Houve também quem cobrasse mais liberdade para as mulheres. Na visão de Andréia, “é bom ser mulher, mas a sociedade discrimina e oprime muito, conquistamos muitos espaços, mas ainda não temos liberdade total”.

A dupla jornada de trabalho que parece infinita

No Nicéia, muitas mulheres trabalham dentro e fora de casa. Tem o cuidado dos filhos, do marido e ainda a batalha para garantir o próprio dinheiro. A busca por independência acaba ficando de lado para grande parte das mulheres.

Na maioria das vezes, falta tempo para o cuidado individual de cada uma dessas trabalhadoras. É o que revela a rotina de Cícera, moradora da Rua 1. “Faço chinelinhos para não ficar parada e ajudo meu esposo que só tem um salário de aposentadoria, ele reforma móveis e recolhemos reciclagem”, conta ela.

A moradora Juliana, da Rua 5, reconheceu como é dura a rotina de uma mulher em meio à dupla jornada de trabalho: “Dona de casa, mãe e mulher. É difícil conciliar”.

A dupla jornada de trabalho é um grande desafio imposto às mulheres na visão de Juliana (Imagem: Júlia Paschoalino)

Os números confirmam as opiniões de Cícera e Juliana. De acordo com o estudo Retrato das Desigualdades de Gênero e Raça, divulgado em março de 2017 pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), as mulheres trabalham, em média, 7,5 horas a mais que os homens por semana. Mais de 90% das mulheres afirmam fazer atividades domésticas, enquanto os homens estão em apenas 50%.

A desigualdade de gênero ainda permanece em casa e no trabalho

As mulheres do Niceia mostraram que mesmo após tantos anos de luta nós ainda sofremos com a desigualdade de gênero, principalmente dentro de casa. Dona Teresa, citada anteriormente, conta que precisou largar um emprego onde trabalhava há oito anos para cuidar do marido. “Na época, ele ganhava menos e eu ganhava mais. Ele achava que não era para eu ganhar mais, era uma disputa. Porque eu trabalhava na fundação, tinha roupa para lavar, dava marmitex e nas férias eu trabalhava para os estudantes”, relata Dona Teresa. Aos 65 anos, ela declara que que desigualdade entre homens e mulheres não mudou nada ao longo de sua vida.

Para esclarecer melhor sobre a desigualdade que ocorre no espaço profissional, conversamos com pesquisadora Veronica Deviá, que estuda o crescimento econômico dos países a partir da entrada de mulheres no mercado de trabalho. Ela acredita que a forma como as mulheres chegam ao emprego é influenciada pela divisão do trabalho dentro de casa, no dia-a-dia. “O machismo em geral implica que as mulheres vão para algumas profissões e não para outras, que elas ganham menos pelo tipo de profissão que escolhem, mas também pelas coisas que elas sofrem durante a carreira por serem mães ou por reforço negativo de estereótipos”

Esta é a Nicole, uma jovem moradora do Nicéia (Imagem: Júlia Paschoalino)

Políticas públicas voltadas para as mulheres de Bauru

A realidade dos direitos das mulheres fica exposta na escassez de políticas públicas voltadas ao público feminino na cidade. Muitas das moradoras do Niceia não conhecem um órgão que seja responsável por representá-las ou subsidiá-las quando necessário. Andreia avaliou que os órgãos públicos femininos são “muita teoria”. “Mulher não tem assistência nem do governo nem de quem está ali para proteger”, denunciou

“Mulher não tem assistência nem do governo nem de quem está ali para proteger”, denunciou

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Em entrevista ao Voz do Niceia, Laura Croce, representante do coletivo feminista Resiste, explicou que a organização tem como objetivo unir as mulheres de Bauru e região para discutir a situação da mulher, quais os direitos e possibilidades, e ajudar a melhorar a perspectiva feminina.

Papel da mulher na sociedade brasileira

No dia nacional da mulher é necessário discutir qual papel ela exerce na sociedade brasileira. Em meio aos padrões de ser mãe, avó e doméstica, muitas enxergam que sua parte vai muito além disso. Andreia declarou: “A mulher é vista como mãe e esposa, vista como escrava doméstica, mas ela é muito mais, ela sustenta uma família”.

Sujeitas à dupla jornada de trabalho, chefes do lar e muitas vezes vítimas de violência doméstica, as mulheres brasileiras precisam alcançar seu espaço e ter seus direitos garantidos, que deveriam ser reconhecidos e sempre lembrados por todas e todos.

EMPODERE-SE MULHER!

Mulheres empoderadas, empoderam outras também! É importante nos ajudarmos a crescer, para alcançarmos independência e ganharmos um espaço de voz na sociedade. Seja a protagonista que você quer ver no mundo, aceite-se, ame-se!

Eu me sinto mulher quando…

Tatiane: “Quando estou bem arrumada, quando faço meu papel de mãe, quando posso ajudar o próximo”

Andreia, moradora do Geisel: “faço papel de mulher, estou ao lado dos meus filhos”

Maria Aparecida, moradora da rua 5: “ultimamente tá difícil, mas quando estou realizada como mulher e como vó”

Maria, moradora da rua 4: “Tenho saúde e estou feliz”

Teresa: “em todo sentido, principalmente quando ajudo a todos”

Cícera, moradora da rua 1: “Me sinto mulher desde quando eu nasci, porque eu cresci e já fui trabalhar na roça, já trabalhei que nem homem na roça desde os 7 anos e já fiz muito, até hoje”

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