Perfil: Dona Benê

Figura notável do bairro, Dona Benê é a personificação do povo brasileiro: não se deixa ser vencida diante de grandes dificuldades e, com o sorriso esperançoso no rosto e o usual bom humor, mantém-se batalhando em busca de uma vida melhor. Viúva, mãe de dois filhos e com a carteira de trabalho aposentada, Benê trabalha como faxineira e vive sem a aposentadoria do marido – que atuava em empregos informais e faleceu sem contribuir para a previdência social, o INSS. Sozinha, criou o casal de filhos, hoje adultos e também moradores do bairro. Prestou serviços de limpezas para famílias da cidade durante anos e, querida por sua amistosa e amável personalidade, manteve ótimas relações com elas. “Eu tive patroa que foi a mesma coisa de ser minha irmã”, conta. Além das famílias, Benê também foi requisitada por repúblicas de estudantes, em especial os da UNESP, e aceitou “trabalhar com a molecada”, como relembra.

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Imagem: Laura Almeida

Porém, a rotina de trabalho de Benê sofreu alterações graças ao descaso das autoridades públicas com as promessas feitas em relação à pavimentação das ruas do Niceia. Dona Benê já encontrava dificuldades para trabalhar, por conta de um primeiro acidente, no qual pisou em falso na rua em que mora, graças às dezenas de fendas que são encontradas no local, caiu e machucou um braço. Semanas mais tarde, sofreu um novo acidente nas esburacadas ruas do bairro e acabou por quebrar o outro braço. O trabalho ficou inviável para ela. Apenas com o dinheiro de sua aposentadoria, a aquisição de produtos alimentícios e de limpeza se tornou uma dificuldade. A porta do banheiro de sua casa, que necessita de consertos há tempos, permanece quebrada. Os medicamentos necessários para sua recuperação não são fornecido gratuitamente pelo SUS e, entre eles, o mais caro custeia R$150,00 reais.

Esburacadas, desniveladas e, quando sob chuva, cobertas de lama, as ruas do Niceia permanecem sem a pavimentação prometida há muito pelas autoridades públicas da cidade. Ainda que a nova gestão, chefiada pelo prefeito Clodoaldo Gazzetta, tenha se comprometido a solucionar o problema da ausência de asfalto no bairro durante o ano passado, como noticiado na edição de janeiro deste ano, as ruas se mantêm sem pavimento até o presente momento.

Mesmo com as barreiras impostas, Dona Benê, determinada, mantém seu espírito guerreiro. Sem o auxílio de parentes ou conhecidos, mas “acompanhada por Deus”, como comenta, encontra dificuldades para se locomover até o Hospital de Base de Bauru (HBB), localizado a cinco quilômetros de sua residência, durante semanas para a realização de seu tratamento. Para chegar ao hospital, Benê se vê obrigada a subir uma ladeira que liga seu bairro ao trajeto em que percorre o ônibus que deseja e só então toma sua condução. Não se trata de uma tarefa simples para uma senhora com as lesões físicas que ela atualmente enfrenta.

Apesar do revés, Dona Benê aguarda ansiosamente pela liberação médica, motivada pela fé em sua recuperação rápida. O desejo de voltar a trabalhar pelas residências da cidade é o que desperta sua esperança. “Eu quero é trabalhar, sabe?”, desabafa a faxineira. Esse sentimento também é compartilhado pelos clientes de Benê, que anseiam para que ela volte a trabalhar com toda sua competência e amabilidade, características marcante dessa ilustre moradora do Jardim Niceia.

Diego Taketsugu

Heytor Campezzi

Laura Almeida

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