A inflação dos preços e a carência de políticas públicas obrigam brasileiros a arriscarem sua saúde na cozinha
Por Bianca Penteado, Giovana Cerantola e Rebeca Lajarin
Com mais de 500 mil vidas ceifadas, a pandemia, que se perpetua no país desde março do ano passado, também afeta outros milhares em uma crise social e econômica sem precedentes. No primeiro trimestre de 2021, já são 14,8 milhões de brasileiros desempregados. A informação é fornecida pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua, e é o maior número registrado desde 2012.
Em Bauru, o desemprego e a falta de renda são preocupantes. De acordo com Ana Salles, secretária do Bem-Estar Social (Sebes), em uma audiência pública realizada em abril, existem cerca de 10.102 bauruenses vivendo em extrema pobreza (com renda mensal de até R$151,00) e outros 3.093 na linha da pobreza.
O auxílio emergencial, benefício financeiro concedido pelo Governo Federal a trabalhadores informais e desempregados, ajuda, mas não é muito eficaz. Apesar de criado para ser uma proteção emergencial contra a crise no período da pandemia, o auxílio não contempla a todos e vem desvalorizando. Esse ano, ele fornece em média apenas R$250,00 mensais, um grande problema para quem precisa do dinheiro para comprar comida e gás, além de pagar as contas.
Em contrapartida à redução do benefício, o preço dos alimentos e do botijão de gás (GLP 13kg) inflaciona. Segundo o último levantamento feito pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustível (ANP), em abril, o preço do gás chegou a R$80,00 no estado de São Paulo.
Diante desse cenário, muitos brasileiros viram-se obrigados a escolher combustíveis mais baratos, como o álcool e a lenha, para conseguir cozinhar seus alimentos no dia-a-dia. Uma troca perigosa, principalmente para aqueles que não têm o conhecimento de como manusear o material.
Segundo Jairo Pedroso, bombeiro da reserva pelo Corpo de Bombeiros da cidade de Avaré/SP, apesar do GLP também oferecer contratempos, o fogão a lenha, utilizado sem estrutura adequada, apresenta-se como um grande risco à saúde. De acordo com Jairo, a presença de uma fumaça tóxica advinda da queima da lenha pode causar muito mais dano que o fogo em si, como problemas pulmonares sérios – principalmente a aqueles expostos por mais tempo.
O álcool, por sua vez, é destacado como perigoso pela possibilidade de provocar uma explosão ao acender o fogo. “O álcool vai evaporar, assim como a gasolina e outros combustíveis líquidos. Com essa evaporação, na hora em que a pessoa for acender a chama ali dentro, isso vai causar uma explosão”, esclarece Jairo.
Sobre os riscos, o entrevistado explica que, atualmente, as improvisações são as maiores causadoras de acidentes envolvendo o fogão e outras formas de cozinhar. E para isso, a solução a curto prazo é saber o que fazer.
“Quando uma pessoa estiver manuseando, quer seja o fogão a lenha ou a gás, se ele não tem conhecimento nenhum, é um risco. Sempre digo que para tudo existe um manual, e se nós não tivermos conhecimento de um pouquinho do que estamos fazendo, é um risco”, diz o entrevistado.
Na escassez de políticas públicas sobre o tema, no dia 17 de junho, o governo de São Paulo finalmente lançou o programa Vale Gás, uma iniciativa que busca garantir a proteção social e a segurança alimentar das famílias em maior fragilidade. O plano, que pretende amparar cerca de 500 mil pessoas no estado, funcionará a partir da transferência de renda destinada à compra do botijão de gás de cozinha.
Os moradores de Bauru, assim como nos outros 81 municípios que abrangem o programa, terão acesso a três parcelas de R$100,00 que serão pagas a cada dois meses, entre julho e dezembro. Para ter direito ao auxílio, é necessário que a família esteja inscrita no Cadastro Único, que não receba Bolsa Família e que disponha de uma renda mensal de até R$178,00 por pessoa.
A fim de consultar seu acesso ao programa, é necessário que o cidadão entre no site disponibilizado pelo governo do estado, e preencha o campo indicado com o número do NIS. Caso não possua acesso a internet, procure o Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) mais próximo.
