Brechó pode gerar renda e sustentabilidade no Jardim Nicéia

Voluntários criam ‘Brechó do Nicéia’ e levam a ideia de empreendedorismo e consumo consciente aos moradores

Por Camila Martins, Nathália Mendes e Beatriz Oliveira 

Impossível não paquerar a arara de roupa de um brechó (Imagem: Becca McHaffie/Unsplash)

Voluntários que dão apoio ao Jardim Nicéia montaram um brechó dentro do bairro para promover o trabalho coletivo como fonte de renda alternativa. Através de doações, o brechó consegue roupas de qualidade e as vende por preços acessíveis, o que estimula os moradores a comprar. Em conjunto com a Associação de Moradores e o Grupo Amigos do Nicéia, o projeto funciona de forma online e presencial desde maio de 2021. 

Nas tardes de sábado, o brechó expõe roupas e acessórios no parque do Jardim Nicéia, ou as leva de porta em porta pelo bairro, oferecendo aos moradores três peças por 10 reais. No modo online, a venda acontece pelo Facebook, Instagram e WhatsApp; após as peças serem selecionadas, lavadas e fotografadas para entrarem nas redes, qualquer pessoa pode comprar por mensagem. 

A iniciativa se deu com uma primeira doação de peças de roupa, levando Vanessa Isabella Ramos, assistente social do Minha Casa Minha Vida com experiência em brechós comunitários e voluntária dos projetos do Nicéia, a criar o brechó para o bairro. Desde o início, o propósito era montar o projeto no parque, valorizando e incentivando os moradores a utilizarem o espaço com outras vendas, como comida e artesanato. No entanto, o agravamento da pandemia dificultou a continuidade no formato presencial, o que induziu o grupo a criar redes sociais para o brechó.

A partir de então, os organizadores conduzem o projeto como uma oportunidade de valorizar o bairro e incentivar o empreendedorismo sustentável. Inspirados nos brechós da capital paulista, o objetivo é torná-lo um atrativo aos moradores e proporcionar a experiência de compra em uma loja comum, seja ela física ou virtual. Além disso, o valor arrecadado será investido em outros projetos, como na compra de sementes para a horta comunitária, por exemplo, até que os próprios moradores assumam o bazar.

Em entrevista, Tânia Macerit, uma das organizadoras, relatou: “É uma possibilidade comercial, inclusive como geração de renda para as pessoas que estão ali. E a gente tinha essa vontade de que ele tivesse uma forma de se apresentar à população não como uma coisa depreciativa”. Ela também conta que envolver os moradores é um processo de longo prazo e um trabalho coletivo, até que a população esteja unida e na liderança dos projetos.

A alternativa para dar continuidade ao brechó foi sua criação online, lugar assumido pela Caroline Turolla, estudante de Arquitetura e Urbanismo da Unesp Bauru e voluntária de diversos trabalhos no Jardim Nicéia. Ela foi a responsável por criar uma marca e organizar a venda nas redes sociais, da edição das fotos até a estrutura de códigos nas peças, para que nada se perdesse. Assim, as redes coexistem com o trabalho da Vanessa e de outros membros em agendar encontros aos fins de semana no parque, avisar os moradores e levar as peças do brechó para vender durante a pandemia. 

Apesar da intenção em vender os itens para os próprios moradores, o brechó sofre percalços. Segundo as voluntárias, há dificuldade de que a mensagem chegue àquela população de forma online, fato que demonstra ainda mais a necessidade de que o brechó seja físico. Essa é a via ideal para conseguir acesso de todo o bairro, e consequentemente, engajá-los na possibilidade da moda sustentável e geradora de renda. 

Peças do brechó do Nicéia expostas na praça do bairro (Imagem: Vanessa Isabella/ Voz do Nicéia) 

Izabella Betiol, estilista graduanda em Design de Moda, reforça a importância da moda sustentável e do consumo consciente para os dias atuais e o futuro do planeta. Segundo ela, é preciso entender os impactos que a própria confecção de roupas gera sobre o meio ambiente e também sobre a sociedade, envolvendo pessoas que trabalham em condições indignas. Para Izabella, este é um lado obscuro da moda que a grande maioria das pessoas não conhece e, por isso, os brechós podem ser vistos como uma forma de consumir produtos conscientemente, já que são encontradas peças de qualidade por um preço muito mais baixo do que o convencional. 

A profissional também acredita que um brechó comunitário, como o do Jardim Nicéia, pode contribuir para a geração de renda, além de abrir portas até mesmo para artistas locais e costureiras. É muito mais fácil conscientizar uma população através da vivência e das experiências de cada um, seja ajudando o meio ambiente ou a comunidade. Tudo funciona como uma forma de ressignificar estereótipos a respeito dos brechós e unir as pessoas através da moda. 

Para o futuro, o Brechó do Jardim Nicéia deve tomar maior forma. O plano é de que as peças sejam expostas quinzenalmente na praça, e que isso atraia os moradores tanto para o brechó, quanto para outras vendas. Dessa forma, e aos poucos, a população assumirá e liderará seus projetos. 

Aqueles que se interessarem pela iniciativa e quiserem colaborar com a organização, podem entrar em contato com os membros da Associação de Moradores do Jardim Nicéia. Aos demais que desejarem os itens disponíveis no brechó, podem acessar a página no Facebook Brechó do Nicéia e o Instagram @brechodoniceia.

Deixe um comentário