O Voz do Nicéia conversa com a psicóloga Roseli de Oliveira Leão sobre o isolamento social e seus reflexos na saúde mental
Por Mariana Nicastro

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Como está sua saúde mental durante a pandemia? Você sabe como identificar que um amigo ou parente está precisando de ajuda?
O mês de setembro é o escolhido para representar a importância de dialogar sobre questões psicológicas. Essa pauta torna-se ainda mais relevante em tempos tão complexos, como os que estamos enfrentando atualmente com a pandemia de covid-19. O Setembro Amarelo é uma campanha que surgiu no Brasil em 2015. Ela é promovida pelo Centro de Valorização da Vida (CVV), pela Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) e pelo Conselho Federal de Medicina (CFM).
Esse movimento visa, principalmente, a prevenção contra o suicídio, que tem como data oficial o dia 10 de setembro. No entanto, quando se trata desse assunto, também é necessário abordar alguns transtornos que afligem e angustiam psicologicamente muitos brasileiros, como a ansiedade e a depressão. De acordo com o relatório Suicide Worldwide, publicado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em junho de 2021, o país registrou, até 2019, aproximadamente 13 mil casos de suicídio por ano.
Esse alto número reflete a necessidade de combater as suas causas mais comuns através da informação, conscientização e do tratamento de distúrbios psicológicos. Para isso, o Voz do Nicéia entrevistou Roseli de Oliveira Leão, psicóloga de São José dos Campos/SP, a fim de tirar dúvidas recorrentes sobre a saúde mental e a pandemia. Roseli é psicóloga clínica pós graduada em Terapia Cognitivo Comportamental e graduanda em Psicologia Infantil.
Entrevista com Roseli Leão
Quais são as principais questões nos dias de hoje que desencadeiam transtornos psicológicos em crianças e jovens? O isolamento social e as redes sociais são, de fato, agravantes?
Roseli Leão: Bom, os fatores são diversos, mas com certeza a pandemia afetou a rotina dos consultórios. Tenho uma demanda maior por conta do isolamento social. Já as redes sociais, são assunto desde antes da pandemia. As crianças chegam agitadas pelo excesso do uso, e, os jovens, deprimidos e ansiosos devido a comparações geradas pelas redes sociais.
Por vezes acreditamos que, por estarmos deprimidos, ou nos sentindo angustiados e estressados, temos ansiedade ou depressão. Como saber se esse é realmente o caso?
Roseli Leão: Quando os sintomas persistem por mais de 6 meses e gera danos nas atividades normais do dia a dia. Mas quem poderá avaliar é sempre o profissional psicólogo ou psiquiatra.
Nem sempre os indícios de que uma pessoa está passando por problemas psicológicos são evidentes. Como é possível identificar que alguém de nosso convívio social está precisando de ajuda?
Roseli Leão: Essa é uma pergunta difícil, porque cada pessoa pode apresentar um sintoma diferente. Mas se você é muito próxima de uma pessoa e perceber algum comportamento fora do comum, deve aconselhá-la a buscar ajuda. Em geral, podemos observar alguns sintomas como falta de apetite, insônia, apatia e afastamento dos amigos e familiares.
E, sabendo disso, como orientar um parente ou amigo a buscar um psicólogo ou psiquiatra? Já que muitas pessoas têm receio, ou alguma dificuldade para buscar esse auxílio, que sabemos que é fundamental.
Roseli Leão: Sim, é verdade. A saúde mental é um tema relativamente novo na saúde, não é conhecido para muitas pessoas. Muito deste receio deve-se ao histórico onde associamos saúde mental com a loucura e internações em hospitais psiquiátricos. Hoje sabemos que a mente precisa de cuidados como qualquer outra parte do corpo. Converse com esta pessoa para procurar ajuda de um psicólogo ou psiquiatra, ou dos dois, o que é melhor ainda. Já que o médico psiquiatra pode medicar, mas será o psicólogo que vai acompanhar semanalmente para tratar a causa, e não os sintomas.
Como lidar com o atendimento psicológico para diferentes gerações? Já que, muitas vezes, os mais velhos podem ter uma resistência maior em buscar ajuda psicológica.
Roseli Leão: Sempre respeitando os seus costumes, sua cultura, seus princípios. Na psicoterapia, nenhum fato pessoal é ignorado, tudo o que o paciente acredita é levado em consideração, até mesmo a resistência ao tratamento, que é o que pode acontecer com algumas pessoas de gerações em que a saúde mental não foi abordada durante seus desenvolvimentos. É preciso ter uma postura acolhedora para que esta pessoa se comprometa com a psicoterapia.
Na sua opinião, o que pode contribuir para aumentar o bem-estar e reduzir o estresse psicológico nesse período que estamos vivendo?
Roseli Leão: Bom, além do básico que a gente já conhece como boa alimentação e exercício físico (sim, eles são extremamente necessários para uma boa saúde mental, visto que eles são responsáveis pela liberação de hormônios que agem em nosso cérebro), evitar gatilhos que te deixam mal. Nesse caso, a observação pessoal para perceber esse gatilho é fundamental. Mas percebo que falar, ler e assistir, em excesso, as notícias da pandemia são gatilhos para a maioria das pessoas, então, se possível, diminua ou evite.
Como você acredita que será o futuro, após a pandemia? Acha que ela mudou definitivamente a forma como encaramos problemas psicológicos e a maneira como olhamos para o próximo?
Roseli Leão: Acredito que as pessoas estão mais conscientes sobre saúde mental. A pandemia trouxe uma desaceleração das nossas funções e com isso tivemos a chance de olhar para nós mesmos e corrigir os nossos problemas internos. Com este assunto em evidência, o tabu sobre saúde mental vem diminuindo, o que possibilita ajudar o próximo, seja com atitudes, ou simplesmente não tendo preconceito com quem precisa de ajuda.
Vale ressaltar que o CVV realiza apoio emocional 24 horas, todos os dias. Para isso, você pode acessar o site e conversar pelo chat, mandar um e-mail ou ligar no número 188. O CVV também contava com postos de atendimento presenciais, que estão suspensos durante a pandemia. Além dele, o CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) também oferece auxílio em horários comerciais e está disponível em diversos municípios através do SUS. Basta ter um cartão do Sistema Único de Saúde, procurar a unidade de saúde mais próxima e fazer o pedido.
Da mesma forma, muitas universidades públicas e privadas atendem a população gratuitamente. Para mais informações sobre atendimentos psicológicos gratuitos, mais próximos de você, é só clicar aqui ou aqui, que você encontrará os principais endereços e telefones.
