No mês da Conscientização, o Voz do Nicéia ouviu o relato da
família Percides e o saber do geriatra Alessandro Ferrari Jacinto
Por Carolina Vignali

Em meio ao amarelo, outra cor busca ser lembrada neste mês. Setembro Roxo ou Lilás é uma campanha originada do dia 21 de setembro, data instituída como Dia Mundial da Doença de Alzheimer pela Associação Internacional do Alzheimer. No Brasil, o dia nacional da conscientização foi sancionado em 2008 e tem o objetivo de lembrar da “importância da participação de familiares e amigos nos cuidados dispensados aos portadores da doença”.
O Alzheimer é a causa mais frequente de Síndrome Demencial e acomete, em sua maioria, pessoas com mais de 60 anos. Segundo dados do IBGE, são mais de 28 milhões de brasileiros nessa faixa etária. E acompanhando a tendência mundial de envelhecimento populacional, o percentual de quase 15% de idosos no país tende a dobrar nas próximas décadas, indica a Projeção da População divulgada pelo Instituto em 2018.
A doença de Alzheimer (DA) é neurodegenerativa, ou seja, altera o funcionamento das células do sistema nervoso central. A superfície do cérebro é chamada de córtex, e dentro dele, o hipocampo é a região mais gravemente afetada pela doença. O hipocampo, porém, é responsável pela fixação de informações novas e pela formação de lembranças, e seu acometimento coloca em perigo o armazenamento das memórias construídas ao longo da vida.
A perda da memória foi um dos primeiros sintomas do Alzheimer notado há 4 anos pela família de Dona Vicentina Augusta Ferreira Percides, de 74 anos. Denise Aparecida Percides e seu filho Murilo Percides, graduando em Educação Física pela Unesp de Bauru, se revezam para cuidar de Vicentina – que agora mora com a família por conta da doença. Filha e neto relatam confusão mental em relação aos dias e horários, alucinações e esquecimentos. “Muitas vezes ela não sabe onde tá, fala que precisa voltar para casa dela, confunde os cômodos da casa”, contou Denise.
O médico geriatra Dr. Alessandro Ferrari Jacinto explica que a neurodegeneração causa a morte dos neurônios e, consequentemente, a queda do número de impulsos nervosos. Duas alterações são responsáveis por afetar as funções do tecido com Alzheimer: as placas senis e os emaranhados neurofibrilares, formações que resultam do acúmulo de proteínas beta-amiloide e tau, respectivamente. Além disso, a DA também causa a perda de tecido do cérebro, o que resulta na diminuição do órgão e afeta suas demais funções.

Vez que atinge o hipocampo, o Alzheimer geralmente é percebido pelos familiares em sua fase inicial e leve, na qual são notados os esquecimento de fatos recentes. Segundo o Dr. Alessandro, especialista nas áreas de Geriatria e Gerontologia, a evolução da DA implica em alterações clínicas não só cognitivas, mas também funcionais, de forma a dificultar atividades como cálculo, a atenção, as habilidades visuoespaciais e as funções executivas. Assim, são afetadas a memória, a fala, o raciocínio, a noção de espaço e tempo e a deglutição.
A danificação da capacidade mental também pode desenvolver alucinações e delírios no paciente, e, embora o acometimento pela doença avance de forma rápida, ele também é gradual. Segundo Murilo, neto de Vicentina, esse é o caso da avó, que antes tinha alucinações e confusões esporádicas: “agora é bem frequente, a toda hora e a todo momento”. A família Percides relatou, ainda, problemas de mobilidade, coordenação e alimentação, seguido pela perda de peso.
Denise e Murilo afirmam que o desenvolvimento do Alzheimer levou consigo a independência de Dona Vicentina. “Ela era completamente independente, em todos os sentidos. Ela sempre resolveu as coisas dela sozinha. Por isso, foi muito difícil assumir a frente de tudo e ela depender de mim para fazer as coisas dela”, explica Denise sobre a mãe, que hoje necessita de ajuda para se locomover, se alimentar, trocar as roupas e tomar banho.
O neto Murilo também ressalta que “antes, ela conseguia socializar com as pessoas. Agora, tem hora que não tem como manter um diálogo, ela não sabe o que está acontecendo ao redor”. Hoje em dia, as visitas da avó se resumem aos médicos, e atividades que a entretinham – como a programação da televisão e a leitura da Bíblia – deixaram de fazer parte da rotina. “Nem a TV interessa mais ela, eu acho que ela não consegue interpretar o que está acontecendo. Às vezes, a gente liga a TV e ela acha que o som é de pessoa falando, briga na rua”, diz.
Mudanças e sintomas comportamentais como apatia, perambulação e agressividade também são comuns em portadores da doença. Na fase mais avançada, o idoso acometido em suas capacidades cognitivas e funcionais se torna dependente para as atividades diárias. A Doença de Alzheimer não tem cura até o momento, é progressiva e irreversível. Para o tratamento, existem quatro fármacos usados com o objetivo de retardar o processo de demência e amenizar seus sintomas.
A causa da DA ainda é estudada e se caracteriza como multifatorial. Por isso, o geriatra Jacinto fala da prevenção dos “fatores de risco modificáveis”, isto é, prestar atenção às causas que podem estar relacionadas ao risco de ter a doença ao longo dos anos. A maioria dos fatores modificáveis envolve o estilo de vida do indivíduo, sendo que o maior fator de risco é a idade avançada.
Outros fatores são: escolaridade, isolamento social, atividades físicas, colesterol alto, pressão alta, diabetes, audição comprometida, poluição do ar, tabagismo e traumas no crânio. Um estudo de cientistas da Universidade da Califórnia publicado na revista The Lancet indica que a redução de 25% dos fatores d e risco pode evitar até 3 milhões de casos mundiais da DA.
Murilo Percides destacou o progresso da doença da avó, sobretudo durante a pandemia: “Do estágio que ela estava pra em quatro anos ficar assim é absurdo, ela fazia tudo”. Desde então, a rotina de sua família mudou completamente. Com a adaptação da Unesp para o ensino remoto, Murilo ficou em casa e pôde ajudar Denise com os cuidados de Vicentina, vez que sua mãe se divide entre o trabalho dentro e fora de casa.
Os comportamentos e a agitação do paciente de Alzheimer são muitas vezes instáveis, sendo comum a existência de dias bons e dias ruins. E embora, agora, Dona Vicentina passe a maior parte do tempo deitada, “nos dias em que ela tá melhorzinha, ela quer fazer as atividades da casa, quer lavar roupa, lavar a louça”. Vicentina tem dificuldades quanto à coordenação motora grossa e fina, mas o neto Murilo confessa que “eu até deixo um pouquinho, mas só pra descontrair a mente dela, porque ela não consegue mais fazer essas tarefas”.
O neto defende que não haja um bloqueio quanto às atividades que a avó se dispõe a realizar nessas situações, e contou que a família foi orientada pelos profissionais da saúde a não conflitar as ideias da avó e tentar contornar a situação. Denise Percides diz tratar-se de um processo de aprendizagem diário e constante: “Hoje está bem melhor do que antes, eu procuro ter mais paciência, entender e respeitar”.
O médico Alessandro pontua que o Alzheimer também se reflete em quem cuida da pessoa doente. De acordo com o IBGE, junto do envelhecimento da população brasileira, entre 2016 e 2019, o número de familiares que cuidam de idosos cresceu 38%. As atividades mais demandadas pela terceira idade são monitoramento e companhia dentro do domicílio e auxílio nos cuidados pessoais.
“Assistir ao seu familiar perder gradativamente sua identidade gera intenso sofrimento e impotência”, coloca em seu site a Associação Brasileira de Alzheimer sobre os cuidados com o familiar-cuidador. A Abraz indica que as adaptações e aceitações se constroem aos poucos, e que os familiares-cuidadores devem estar bem amparados no processo, para que convivam com a doença e com a pessoa com Alzheimer com qualidade e serenidade.
“A gente nunca espera, mas tentamos lidar com a situação, fazer o que for preciso”, explica Murilo Percides sobre quando descobriram a DA da avó. Hoje, Murilo e Denise destacam que os maiores desafios estão em ajudar na vida cotidiana de Vicentina e em lidar com os momentos em que a agitação e as alucinações são frequentes. Para a filha de Dona Vicentina, o apoio, amor, carinho e atenção da família ao idoso são os pilares que fazem a diferença na vida do paciente.
O graduando havia se deparado brevemente com a doença nas aulas da Educação Física, e, aos poucos, os parentes foram descobrindo mais sobre o Alzheimer, trocando experiências com outras pessoas e obtendo informação por meio dos médicos, da internet, e do “boca a boca”. Para as famílias, o Dr. Alessandro Ferrari Jacinto sugere a busca por grupos de apoio, profissionais e associações – como a Abraz. Segundo o médico geriatra, “informação é tudo, os familiares não estão sozinhos e existem diversas dicas para cuidar de pessoas com Alzheimer”.
Murilo e Denise Percides também deixaram suas sugestões ao Voz do Nicéia. Para a família, esse é o momento de retribuir os cuidados dos pais e avós. “Sejam pacientes, porque eles voltam a ser umas crianças. Hoje, é ele que está precisando desse suporte, amanhã pode ser você”, aconselha Denise. O neto de Vicentina estimula o cuidado, a atenção e as pesquisas para conhecer tanto a doença quanto as melhores maneiras de intervir nos sintomas. De consenso entre familiares e médicos, quando a memória de uma vida inteira falha: suporte e carinho, para Dona Vicentina e toda a população idosa.

Denise, Vicentina e Denilson (Foto: Arquivo Pessoal)
