Cerrado em Bauru: há relação entre a crise hídrica e a conservação dos biomas?

Entenda como o desmatamento e o desequilíbrio ambiental podem afetar a escassez de água de todo o país

Por Carolina Vignali e Gabriel Gatti

Lagoa de captação do rio Batalha, que abastece 40% da cidade de Bauru, tem passado por problemas de escassez (Foto/Reprodução: DAE-Bauru/Divulgação/Estadão)

Nos últimos meses, o Brasil enfrenta uma crise hídrica que ameaça todos os Estados. O principal motivo do problema é a falta de chuva, que resulta na escassez de água para a população, de modo geral. Além disso, a redução dos índices pluviométricos acarreta no aumento da conta de energia elétrica do país que tem as hidrelétricas como principal fonte energética. Ainda que as chuvas estejam previstas a curto prazo, o solo seco também dificulta o acúmulo de água nos reservatórios nacionais.

A principal razão para as crises no sistema hídrico e elétrico é a ação humana, como o desmatamento e as queimadas, que modificam a condição natural dos biomas e prejudicam os padrões de umidade. No caso do Cerrado, recorrente na cidade de Bauru, a importância da conservação é ainda maior. Isso porque o bioma é essencial para a distribuição de água pelo país, tanto para consumo quanto para geração de energia.

O equilíbrio entre os biomas

O professor titular do departamento de Física e Meteorologia da Faculdade de Ciências da Unesp em Bauru, Carlos Graeff, explica que os biomas mantêm um equilíbrio entre si e possuem uma interação complexa com a umidade do ar do planeta. Como sistema em equilíbrio, se não chover, os rios secam e dificultam a captação de água para o abastecimento, uma vez que mais de 60% da matriz energética brasileira é dependente das hidrelétricas que captam água da chuva para a geração de energia.

No entanto, para que esse fenômeno climático essencial ocorra, é necessária a umidade atmosférica, presente grande parte em decorrência da densidade vegetativa dispersa pelo Brasil. Segundo o biólogo Osmar Cavassan, professor aposentado adjunto da Unesp, um bioma abarca um conjunto de ecossistemas presentes em uma determinada área, e todos os biomas presentes em território nacional influenciam no microclima local, estando, de alguma forma, relacionados entre si.

A Amazônia, por exemplo, é formada por um conjunto de componentes bióticos, sendo esses: os animais e plantas presentes na região e o clima úmido de altas temperaturas com baixa variação. Devido a elevada densidade vegetativa, a Floresta Amazônica apresenta uma grande precipitação na atmosfera, soprada para o Oeste em direção ao Oceano Pacífico.

Porém, a Cordilheira dos Andes barra os chamados “rios voadores”, direcionando a umidade para a região Sudeste, o que propicia a chuva. Sem a densidade vegetativa amazônica, há menos umidade e, consequentemente, menos chuva. Esse fator afeta todos os outros biomas brasileiros que estão harmoniosamente entrelaçados.

Bioma cerrado e a cidade de Bauru

No caso do Cerrado, a presença de árvores é um pouco menos robusta, vez que é marcado por traços savânicos. Disposto em grande parte do território nacional, o bioma apresenta algumas variações de região para região, sendo chamado de Cerradão o tipo vegetativo presente em Bauru. A cidade apresenta, ainda, formações de florestas estacionais semideciduais e vegetação de florestas de transição.

Segundo o professor Carlos Graeff, Bauru se enquadra como uma floresta de transição, e caso a tendência de redução da umidade e pluviosidade avance, o bioma da cidade tende a ganhar características de Cerrado. Ele aponta que, no Estado de São Paulo, a cidade de Bauru possui uma floresta razoavelmente bem preservada, o que pode se dever à terra considerada “menos fértil”.

Uma característica comum do Cerrado é o solo arenoso e profundo, com grande capacidade de absorção de água. Por esse motivo, o bioma é capaz de armazenar água e formar aquíferos ou nascentes, caso a reserva de água fique exposta. Essa característica permite que o bioma tenha interferência no abastecimento hídrico de oito das doze regiões do Brasil, além de ser responsável por 50% da vazão da região do Paraná que abastece a hidrelétrica de Itaipu.

Devido ao equilíbrio dos biomas, o desmatamento da Amazônia interfere na chuva do Cerrado, enquanto o desmatamento do Cerrado afeta o ciclo das chuvas no país. Sem o escoamento de água no solo do Cerrado, não há precipitação e, consequentemente, não haverá chuva. Dessa forma, as chuvas regulares e em quantidade no bioma Cerrado são decisivas quanto à situação da falta de água no Brasil.

“Cerrado: o berço das águas brasileiras” (Foto/Reprodução: Arthur Almeida/Prefeitura de Bauru)

Consequências do desmatamento

A exploração de biomas, interferências na cobertura vegetativa e a não preservação de nascentes dos rios dá origem às secas e à redução dos índices pluviais que, por sua vez, trazem problemas de abastecimento em regiões específicas do país. Em solo nacional, a falta de água tem como consequência tanto a crise hídrica quanto a crise elétrica.

No ano de 2021, o Brasil registrou a pior crise hidrológica em 90 anos. A saída para os baixos níveis dos reservatórios das hidrelétricas foi a ativação das usinas termelétricas para obtenção de energia adicional. No entanto, as termelétricas não só encarecem o preço da energia elétrica, como também são poluentes e prejudiciais à saúde humana.

É importante lembrar que especialistas e órgãos internacionais alertam para os riscos de seca e falta de água há anos. Embora nem todos os efeitos climáticos tenham sido propiciados pela ação humana, grande parte dos danos ambientais são provocados pelo desmatamento e pelas queimadas, que cresceram no Brasil durante o governo Bolsonaro.

O relatório divulgado pelo Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) da ONU em agosto deste ano aponta com clareza a contribuição do homem sobre o aquecimento global e também a irreversibilidade de parte dos efeitos das mudanças climáticas. O documento prevê aquecimento do planeta, aumento de secas, incêndios florestais, inundações de áreas costeiras e chuvas mais intensas, além de um maior número de “eventos extremos” em magnitude e frequência.

Como amenizar as crises ambientais?

Em meio às projeções catastróficas, um dos caminhos para contornar esse problema ambiental e social é o incentivo governamental para a conscientização da população quanto à crise climática. As esferas federal, estadual e municipal são responsáveis por patrocinar campanhas de conscientização para a economia de água e a preservação dos biomas. Quanto ao nível individual, o também doutor em Ciências Carlos Graeff fala da problemática do uso leviano da água tratada, excessivamente desperdiçada com as mangueiras, por exemplo.

O professor aponta para o risco do agronegócio não levar em consideração as questões ambientais, e ressalta a necessidade de fiscalização da legislação ambiental e do uso de tecnologias que otimizem o uso da água. Fontes de energia renováveis são vantajosas em diversos sentidos, desde a redução da poluição até a possibilidade de proximidade do consumidor e consequente redução das perdas de energia em sua transmissão.

Deixe um comentário