A importância da leitura para as crianças e os desafios da alfabetização nos dias atuais

Especialistas comentam sobre o papel do livro na infância e como incentivar seu consumo

Por Laís David De Souza e Mariana Bedeschi Nicastro

Entre as aventuras envolventes da Turma da Mônica, as trapalhadas do Menino Maluquinho, os universos cativantes de Duna e Harry Potter e o realismo de Machado de Assis, a leitura faz parte da história de todas as pessoas. Desde o início da vida escolar, o ato de ler um livro estimula o conhecimento e abre portas para mundos infinitos.  

No início do Ensino Fundamental, sílabas, cruzadinhas, imagens e brinquedos ajudam crianças na alfabetização e na formação de palavras. Com o auxílio dos professores, dos responsáveis e dos colegas, as crianças conseguem aprender a ler.

Todavia, a alfabetização começa antes mesmo dos estudos. Em entrevista para o Voz do Nicéia, a pedagoga Regiane Morais detalha que os processos da alfabetização se iniciam ainda no berçário: “Nas creches, a partir dos 4 meses, fornecemos livros de banho e de tecidos com sons que chamam a atenção dos bebês”.

Após a apresentação desses livros, a voz toma o papel principal do interesse das crianças. “Já familiarizados, começamos a  ler as histórias, caprichando na entonação, para que eles fiquem curiosos. Depois, é só continuarmos, fazendo da leitura uma vivência cotidiana”, afirmou a professora.

Responsável também pelo projeto “Literatura Fantástica” na cidade de Caçapava (SP), Regiane acredita no papel ativo do professor no processo da leitura: “Que a leitura é importante todos já sabemos. Que trabalha a imaginação, a criatividade, a emoção, também. Precisamos fazer com que todos esses benefícios cheguem para as crianças”.

Uma das profissionais que também destaca a importância da leitura na alfabetização é a professora e pedagoga em formação Poliana Soares. Ao desenvolver a sua monografia intitulada “A influência da Literatura no desenvolvimento infantil”, Poliana notou a importância dos livros no comportamento de seus alunos: “Quando comecei a estagiar na área da educação infantil, eu percebi o quanto as histórias influenciam nas atitudes das crianças. A partir disso, eu fui desenvolvendo meu tema’’.

Ao detalhar a ligação entre a leitura e o desenvolvimento infantil, Poliana ressalta o benefício social dessa atividade: “Na minha opinião, a maior ligação está no desenvolvimento afetivo e social de uma criança. A partir de uma história, ela experimenta novas vivências, novos sentimentos, novas ideias, novos pontos de vista’’.

A leitura então desenvolve conhecimentos e explora universos na mente infantil. “Muitos acreditam que a leitura só serve para aprender a escrever e isso não é real. A leitura desperta na criança a vontade de experimentar algo novo, a criatividade, a empatia, a escuta, novos momentos e novas vivências”, finaliza a professora.

Por mais que pesquisas confirmam que a leitura é essencial para a formação social, nem todas as crianças são beneficiadas com essa atividade. Dados do Instituto Ayrton Senna detalham que o nível socioeconômico, a raça e a região em que a criança se encontra são fatores decisivos na duração de sua alfabetização. Além disso, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) também revela que mais de 11 milhões de pessoas são analfabetas no Brasil.

A desigualdade na alfabetização desestimula milhões de crianças na hora da leitura. Sem essa atividade, também se perde seus benefícios, como a evolução do vocabulário, o senso crítico e a atenção.

De acordo com Poliana, essa desigualdade é um dos verdadeiros desafios do ensino: “Crianças que vivem na margem social não são ensinadas a ler e a escrever, pois não vivem isso em casa. Muitas são filhas de pais analfabetos, então elas não têm essa noção da leitura, do ato de escrever e ler, ela não vivencia a leitura como prática social. A desigualdade social é um dos maiores obstáculos da alfabetização, e essas crianças são deixadas de lado pela educação brasileira”.

Por mais que a educação seja um direito constitucional, as pesquisas revelam que a alfabetização não atinge todos os brasileiros. Uma das alternativas dos educadores é optar por projetos alternativos que supram a demanda de alfabetização e incentivem as crianças a lerem. “Vi muitos projetos de leitura coletiva, onde todos os alunos liam. Também existem muitos projetos de escrita. Alguns professores fazem bingos de palavras, e outros transformam histórias em teatros”, afirma Poliana.

Entrevista com Andréia Gusmão 

Para conversar sobre a importância da leitura para as crianças e contar um pouco sobre suas inspirações e seu processo de desenvolvimento de uma história infantil, o Voz do Nicéia também entrevistou Andréia Gusmão de Carvalho. Andréia é professora de inglês em São José dos Campos e autora do livro infantil “Lina e o Troco”.

O desafio para incentivo é ensinar as crianças a gostarem do livro, as presenteando com livros, mostrando desde cedo que eles têm valor” (Foto: Andréia Gusmão)

Estamos sempre enfatizando a importância da leitura, no geral. Por que você acha que, mesmo assim, as crianças leem pouco?

Andréia: “Eu acho que as crianças leem pouco porque falta incentivo da família. A criança segue o exemplo do pai, da mãe ou dos irmãos, né? As pessoas estão muito no celular hoje, acho que também falta o livro físico, penso muito nisso. No ambiente escolar existe um incentivo, mas em casa por vezes não têm esse exemplo.” 

Quais você acha que são os maiores desafios em relação ao acesso e ao incentivo à leitura hoje?

Andréia: “Há um desafio quanto à valorização. A gente sabe que livro não é tão barato assim, mas às vezes pelo preço de um livro se compra um brinquedo, por exemplo. Fora que não precisamos ir até uma livraria no shopping, o que geralmente é mais caro, existem sebos, a internet. Acho que falta o conhecimento desses outros meios. O desafio é tentar mudar a valorização do livro, mostrar sua importância e o que têm por trás do processo de produção também. O desafio para incentivo é ensinar as crianças a gostarem do livro, as presenteando com livros, mostrando desde cedo que eles têm valor”

Como professora, além de autora, como você enxerga que os hábitos de leitura podem transformar o ensino e o aprendizado infantil?

Andréia: “Acho que a criança desenvolve muito o raciocínio, a criatividade, a imaginação, o aumento de vocabulário, comunicação oral e escrita, o conhecimento… Os hábitos de leitura contribuem muito para a sua fase de desenvolvimento. A criança usa muito a lógica e a imaginação. Isso já pertence a ela e permite que ela entre no universo dos livros.”

Lina e o troco faz um caminho interessante para mostrar alguns valores que, certamente o leitor vai descobrir” (Foto: Andréia Gusmão/Ilustração: Tuca Iralah)

Como despertar o gosto pela leitura? Ainda mais em tempos tão tecnológicos como os atuais.

Andréia: “Eu acredito muito em uma rotina. As crianças podem ter um horário para usar a internet, para suas atividades durante o dia. Mas nesse sentido, é legal também colocar um horário para a criança ler um livro. Negar a internet, a tecnologia, é ruim. O ideal é conciliar as duas coisas dentro da rotina da criança.”

De quais formas você acha que é possível para educadores utilizarem o livro em sala de aula?

Andréia: “Eu acredito muito que as escolas estão fazendo um trabalho muito bonito com os livros. As crianças podem escolher, existem vários autores… Hoje em dia a gente percebe nas escolas as bibliotecas cheias, também. Mas acabamos vendo que o acesso ainda depende muito de onde as pessoas moram. Como podemos falar de acesso ao livro em casos em que às vezes as coisas são precárias e a criança sai de casa sem se alimentar? Mas acredito muito no que a escola pode fazer nesses casos. Dar esse acesso ao livro, pesquisar sobre autores, utilizar os livros em formato de teatro, trabalhar vocabulário, imaginação… Cabe muito ao educador ter essa criatividade, essa boa vontade para despertar a imaginação da criança.” 

Como escolher um livro para compartilhar com os alunos? E o seu livro? Como escolheu qual seria o tema a retratar com as crianças?

Andréia: “É importante investigar o universo de cada criança e, assim, perceber qual livro pode ser utilizado para trabalhar um determinado tema com ela. É muito importante conhecer seus alunos. Mesmo que alguns temas não sejam tão agradáveis, a forma como você os passa pode despertar o interesse do aluno. Quanto ao meu livro, Lina é uma homenagem a minha mãe, que é Natalina. O troco veio de uma situação que marcou minha infância. O livro é uma forma de agradecer meus pais por tudo o que fizeram por mim, tudo o que marcou minha infância e me fez ser quem eu sou. O tema reflete a  importância que eles têm na minha vida.”

“O livro é uma forma de agradecer meus pais por tudo o que fizeram por mim, tudo o que marcou minha infância e me fez ser quem eu sou”  (Foto: Andréia Gusmão/Ilustração: Tuca Iralah)

Quais autores você considera essenciais para uma biblioteca de escola infantil?

Andréia: É muito importante conhecer novos autores, que estão publicando seus livros. Um autor que eu gosto muito é o Ilan Brenman. Ele pega coisas que acontecem em sua família e transforma em livros. Ele tem um cuidado muito grande pelas pessoas que fazem parte das suas obras também, como os ilustradores por exemplo, o que sabemos que é bem importante para histórias infantis.” 

Como escrever histórias para crianças? O que é importante conhecer e de onde você tira suas ideias?

Andréia: “Eu tenho o privilégio de trabalhar com crianças, então, para mim, entrar nesse universo infantil é incrível. Precisamos entender ele muito bem, ter contato com esse universo, para escrever para a criança, a questão da imaginação, a ilustração dos livros… Muita coisa às vezes está na nossa cabeça, como adultos, mas a interpretação da criança para aquilo é diferente. Escrever história para criança é entender que às vezes o seu universo é pequeno pro mundo dela. Ela vai trazer novas respostas, novas visões para as coisas, que até nos surpreendem. O universo infantil é riquíssimo. Já minhas ideias, eu tiro muito da minha infância e do reflexo que ela tem na minha vida. Uma infância que aproveitei muito! Tiro também das outras pessoas com quem eu convivi e convivo, de falas, daquilo que mexe com a gente e faz a gente questionar e refletir sobre as coisas.”

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