Carnaval reacende expectativas sobre representatividade e geração de emprego

Por trás do desfile bauruense, há a valorização da economia, da cultura popular e das comunidades

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Por Bianca Penteado e Sabrina Graziela Ferreira

Foto: Macarini website

Dentro da concentração, as batidas do agogô, da caixa e do surdo ecoam pelo ambiente, logo antes do Abre-alas entrar na avenida do desfile. O ritmo sincronizado é resultado de um ano de ensaio e preparação para o evento, partindo da definição do tema até a criação do samba enredo, que ditará o rumo das fantasias e das alegorias que a escola de samba criará. Por conta da visibilidade que o Carnaval oferece àqueles que são considerados anônimos nos demais dias do ano, a não realização dos desfiles é sentida pelos bauruenses que tornaram a folia parte essencial de suas vidas.

 “Eu trabalho o ano inteiro na minha profissão e o momento de expor a minha arte é o Carnaval. Quando vejo minhas esculturas desfilando, tenho que segurar para não me emocionar”, explica José Carlos dos Santos, que é compositor, escultor e diretor do barracão da Escola Mocidade Unida da Vila Falcão.

Considerado por seus entusiastas o maior Carnaval do interior do estado de São Paulo, a folia em Bauru assume um papel não só de difusor cultural, como também se apresenta indispensável para a economia local. De acordo com a Secretaria Municipal de Cultura, a projeção estabelecida no último evento carnavalesco realizado, exibia uma movimentação de R$2,5 milhões e a possibilidade de mais de 800 trabalhos temporários diretos e indiretos gerados.

Sobre isso, Francisco Carlos Saes, presidente da comissão de eventos da Escola Tradicional da Zona Leste, explica que só para cada agremiação desenvolver o seu desfile, é necessário o envolvimento de diversos setores de serviços da comunidade. “Entramos em contato com as costureiras para as fantasias, com os serralheiros que vão fazer os carros, com o pessoal do madeiramento, entre outros”, conta.

Apesar da suspensão em razão do distanciamento social imposto pela pandemia do Covid-19, a paralisação do Carnaval não é novidade na cidade. No início dos anos 2000, o evento foi cortado do orçamento municipal e interrompido por uma década diante dos interesses do grupo político que governava na época.

Hoje, a principal dificuldade relatada para a realização dos desfiles permanece sendo a redução do investimento disponibilizado pelo Poder Público, que passou a arcar somente com a infraestrutura da festividade, sem fazer a contratação dos blocos e escolas de samba para o espetáculo. 

O cenário reflete a decisão da Prefeitura de Bauru em reduzir cerca de 50% do montante utilizado para a difusão cultural do município, encarregada de apoiar, dar logística e contratar artistas de diversas áreas para eventos públicos na cidade. Para isso, a Secretaria conta atualmente com apenas R$1,1 milhão, determinado na Lei Orçamentária Anual (LOA).

Segundo Alisson Talon Carlos, presidente da Liga das Escolas de Samba e Blocos de Bauru (Liesb), ao reduzir a verba destinada à difusão cultural, o Executivo do município não somente deixa de remunerar o trabalho empenhado pelas agremiações para a realização do desfile, como também tira da população mais vulnerável a oportunidade de ter acesso à cultura. 

O Carnaval e a comunidade

Desfiles à parte, a manutenção do Carnaval por aqueles que amam e vivem para fazer a folia acontecer, fortalece a identidade das comunidades e enfatiza a presença da expressão popular brasileira. 

O Carnaval é paixão. Quem gosta, faz de tudo para ajudar a sua agremiação a desfilar bem. As pessoas deixam de fazer muita coisa para participar e colaborar nos barracões, em função de uma cultura popular que fortalece as periferias […] Essas pessoas conseguem ser o centro das atenções uma vez no ano, através da arte”, afirma Alisson. .

Entre os entrevistados para a matéria, a saudade do Carnaval bauruense é algo comum, encarada como um vazio no peito daqueles que esperam pela festividade para comemorar a vida, relembrar a história e homenagear as personalidades que marcaram a população. Paulo Keller, tido por muitos como o maior carnavalesco da cidade, já foi uma das pessoas celebradas pelos sambas de enredo que percorreram o Sambódromo. 

Com a flexibilização das regras de proteção contra o Covid-19, as expectativas para 2022 são grandes. “Quanta gente não está com um estresse terrível, com morte familiar, coronavírus, e várias outras situações? A volta do Carnaval vai fazer muito bem”, reconhece Francisco.

Moradores do Jardim Nicéia já desfilaram no Carnaval de Bauru

Julia Stefany desfilou pelo bairro no Carnaval de Bauru em 2017 (Foto: jornal Voz do Nicéia)

Em 2017, a presença do Jardim Nicéia marcou o Carnaval bauruense. O bloco da ONG Bonde do Consulado, entidade que é responsável por levar a cada ano uma comunidade diferente para a folia, escolheu os moradores do bairro para se apresentarem no Sambódromo.

O engajamento dos participantes, entretanto, não se limitou ao desfile, contando com a colaboração de todos na preparação dos ensaios e da bateria. No entanto, devido ao descumprimento de uma regra, o Jardim Nicéia foi desclassificado, não conseguindo ser premiado na época.

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