Por Carolina Vignali e Mariana Nicastro

“A gente acorda todo dia cinco e meia da manhã. A gente vê as mercadorias que já saíram e precisam ser repostas e a gente acaba saindo na rua para comprar. Aqui, a gente repõe todo dia”
“A gente quem?”
“A gente sou eu mesmo”
“A gente” é Alexandre Godoi de Sousa, morador do Jardim Nicéia e dono da mercearia Compro Fácil. O dia começa cedo e é longo no endereço de número 162 da rua Dolores F. Balderrama, antiga Rua 5 do bairro Jardim Nicéia. Há três anos, Alexandre abriu seu próprio negócio após uma década de experiência como vendedor ambulante. “Eu deveria ter aberto o mercadinho antes. Tive melhoria porque eu vendo bem e não preciso sair tanto daqui”, reflete o comerciante.
A Compro Fácil oferece variadas mercadorias, como pães, salgados, frios, linguiças, sorvetes, doces, bolachas e salgadinhos. Também são vendidos enlatados, óleo, sal, macarrão, leite e café. Entre as bebidas estão os refrigerantes, energéticos e sucos. Para os maiores de 18, tem cervejas, vodkas, whisky e vinhos. Além das comidas, vende-se produtos de limpeza, higiene pessoal, cabelo e corpo para adultos e crianças. Na mercearia também tem chinelos e peças para reparos domésticos gerais. Além das recargas para celular e para Google Play.
O mercadinho fica na frente da casa de Alexandre, onde ele vive com a esposa Adriana e com dois de seus cinco filhos: Adriano Tiburcio de Sousa, Verônica Keise, Michael Douglas, Kevin Martin e Alexandre Junior. “Aqui era a minha sala. A gente fechou a entrada, eu abri a frente e a gente tá tocando”, conta o empreendedor de 46 anos.
Embora Alexandre use o plural ao falar do serviço no comércio, ele é o único funcionário de seu negócio. Segundo ele, “a rotina de todo dia é comprar, vender, repor e limpar”. Parte das mercadorias vêm dos fornecedores, como a Ambev e a Coca-Cola, e parte são compradas pelo próprio dono em supermercados da região. De manhã, ele checa os produtos que saíram, os que precisam ser recolocados e os que serão entregues naquele dia.
“Se você chegar e estiver fechado, é porque eu saí para fazer compras ou resolver algum problema. Aí volto, abro de novo e vamos pra cima, é assim que a gente faz”, alerta o comerciante aos clientes. Quanto aos desafios do próprio negócio, o empreendedor confessa que “o comércio é sacrificante, a gente vive para isso, acaba não tendo mais vida social nem horário pra nada”.
Uma das preocupações de Alexandre é a busca pela qualidade dos produtos que coloca à venda. “Às vezes pago um pouquinho a mais, mas por uma mercadoria de mais qualidade. A pessoa não está só atrás de preço, ela quer uma coisa boa pra comprar”, explica. Com alívio, o empreendedor do Jardim Nicéia confessa: “tudo que põe aqui, vende”.
Quanto aos clientes, a Compro Fácil atende ao bairro. Embora tenha distribuído panfletos mais de uma vez pelas ruas, Alexandre desacredita que não são todos os moradores que conhecem seu negócio. “Eu estou há quase três anos aqui e tem gente sem saber que eu tenho o mercadinho. Fico de boca aberta, o bairro é pequeno”.

Um acidente levou Alexandre a deixar o emprego como pintor e entrar para as vendas. A partir de então, ele começou a trabalhar como vendedor ambulante de legumes, verduras, frutas, doces e queijos. Ele escoava os alimentos pelos bairros de Bauru em busca de voltar com o carro vazio, porque “se você não vende mercadoria já perecível, ela estraga, não tem como você tá revendendo no outro dia”. Segundo ele, era nas regiões periféricas que a venda tinha sucesso. ”Onde tem uma classe mais média, o pessoal nem te atende. Você leva mercadoria boa e de qualidade, mas eles não dão atenção, não adianta. O pessoal humilde que compra”, explica.
O empreendedor chegou ao bairro onde construiria a clientela do seu mercadinho há mais de vinte anos. “A gente se sente bem aqui, o único problema é que a gente tá esquecido, não tem infraestrutura, não tem assistência, não tem reparo de rua, não tem nada”. Assim como outros moradores, Alexandre Godoi reclama dos problemas que afetam tanto a qualidade de vida quanto o seu negócio. Ele destaca a má circulação nas ruas devido aos buracos, os problemas de esgoto, o descarte irregular de lixo nas ruas e o aparecimento de roedores.
Dentro do comércio, a falta de espaço tanto para armazenar os produtos quanto para receber os clientes é um problema para Alexandre. Uma vez que não há estoque de mercadorias, elas são repostas diariamente. “Aqui não dá mais para avançar, não tem como por uma verdura ou um legume, não tem espaço pra isso. E a gente quer melhorar”, diz.
Não só quer, Alexandre contou ao Voz do Nicéia que a Compro Fácil vai aumentar e ganhar um novo endereço no Jardim Nicéia. “Eu vou com calma e futuramente, a gente vai fazer o mercadinho ali na frente da praça para ampliar o espaço, vender mais e dar um atendimento melhor pro povo”, conta Alexandre com orgulho. Até o final do ano de 2022, o empreendedor tem planos de aumentar a quantidade de produtos e voltar a vender hortaliças e frutas.
Quando questionado sobre como ajudar o negócio, Alexandre é direto: “comprar e divulgar”. O horário de funcionamento da mercearia Compro Fácil é das sete da manhã até às nove da noite, em todos os dias da semana.
