Perfil: César Silva

Por Eduarda Cardoso e Leticia Stradiotto

César Silva participou da primeira edição do Nicéia Futsal Cup, campeonato de futebol organizado pelos moradores em maio de 2022 (Eduarda Cardoso/Voz do Nicéia)

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César Silva, de 29 anos, é nascido e criado no Jardim Nicéia, como o mesmo diz. Ele nos recebe em sua casa, localizada na rua Dois, e podemos notar o quanto ele é comunicativo. Cercado pela esposa, Vanessa, e pelos seus dois filhos, Luan, de 8 anos, e Bryan, de 4 anos, sentamos no quintal de sua casa para conversar. 

Durante o papo, Bryan sempre fica próximo ao pai, mostrando a confidencialidade entre os dois. César comenta que todas as práticas que fez e faz pelo bairro, é pensando no melhor para os filhos, assim como a família dele fazia. A família do César sempre participou das ações do bairro, incentivados principalmente pela avó. A avó foi uma das pioneiras do Jardim Nicéia e todos a respeitavam. Em eventos festivos, era obrigação visitar a casa da mesma. “Passamos muitos natais juntos. Todo mundo do bairro ia na casa dela, tinha que passar lá no natal. Pelo menos para dar um ‘oi’, para curtir e dançar um pouquinho. Era bem legal. Todo mundo gostava da dona Raimunda”, relata. 

A avó ajudava diversas pessoas do bairro, principalmente crianças. César comenta que nem ia ao médico. Era apenas ir na casa dela e sair diagnosticado. A sua infância foi repleta de brincadeiras em família, com pés de manga na casa da avó, brincadeiras na rua com vizinhos e primos, pique-esconde, bolinha de gude e empinar pipa. Ele também lembra de momentos com a mãe: “Quando eu tinha uns 5 ou 6 anos, minha mãe trabalhava como doméstica. Essa era a época do orelhão e telefone fixo. E se meu irmão puxava minha orelha, eu não queria ir para escola, ficava com dor de barriga, ou qualquer coisa, eu ligava para ela do orelhão, para atormentar. E toda vez, toda vez ela ficava brava:  ‘Menino, então você não vai para a escola hoje!’. Eu dava qualquer desculpa para não ir e ficar jogando bola na rua. É uma coisa que me marcou bastante.”   

Apesar de ter tido uma boa infância, ele relembra que não era fácil. Um dos fatos que ficou marcado na juventude dele foi o acidente que ocorreu na Marechal Rondon, antes da existência da passarela. Na época, não havia creche no bairro e as crianças precisavam atravessar a rodovia para irem à escola. Em 2006, quando uma mãe levava o seu filho para a creche, os dois foram atropelados. Infelizmente, a criança veio a óbito.  

O Jardim Nicéia fez uma manifestação reivindicando a segurança dos moradores, fechando a rodovia. Houve confronto com a polícia e muitos saíram feridos, mas conseguiram a obtenção da passarela. “Nós sofremos para hoje ter um asfalto na porta de casa, um ônibus vir buscar, teve muitas melhorias nesses últimos anos. E aí a gente está começando a ter frutos que a gente plantou lá trás”, comentou o morador da rua Dois.

Quando tinha uns 12 anos, os pais de César se divorciaram. Ele comenta que, sem a visão paterna, obteve mais liberdade. Nesse período, largou os estudos para  trabalhar e, assim, poder ajudar com a renda da casa. Logo no primeiro emprego, César se acidentou. Trabalhou como auxiliar de elétrica e, querendo mostrar experiência no serviço, se arriscou na tentativa de consertar um quadro de energia. O quadro explodiu em cima dele, fazendo-o ficar internado durante dias. “E aí serviu de aprendizado, nunca mais mexo com elétrica!” comenta com um tom risonho. Um tempo depois, conheceu a esposa e estão juntos desde então. 

Hoje, César tem a rotina de um pai de família. Ele trabalha, ajuda com os afazeres domésticos, leva os filhos à creche e tem um lazer no final de semana. E mesmo o lazer se mistura com trabalho. Isso porque o ex-auxiliar de elétrica está vendendo espetinho de carne no bairro aos fins de semana. César deseja que os filhos tenham uma infância melhor. “As brincadeiras de criança, na rua, hoje em dia estão escassas, devido aos celulares e ao perigo também. Ultimamente, está bem perigoso ficar na rua. Então, os pais evitam deixar as crianças na rua. Deixam elas no celular, na televisão e acaba indo”, observa o pai de Luan e Bryan

César recorda que, quando era criança, a região onde foi construída a praça era apenas um buraco. Segundo ele, é necessário promover a troca e restauração dos brinquedos. “Tem que estar trocando os brinquedos. Porque senão, eles vão se desgastar, vão quebrar mesmo, mas é falta uma manutenção, falta uma vista maior. Dessa parte, eu acho que seria interessante melhorar”. Ele considera que há poucas opções de lazer para as crianças, não apenas voltado para brinquedos. Para este pai de família, falta um projeto de lazer voltado à educação. 

Embora muitos projetos de infraestrutura voltados para o Nicéia não saiam do papel, César reafirma a necessidade de manter a esperança em relação ao futuro dos filhos. “O legado que a gente vem fazendo, de reivindicar coisas para a melhoria do bairro, vai beneficiá-los cada vez mais, cada vez mais irá ficar melhor para eles”. Ele menciona o projeto de construção do centro comunitário, uma demanda histórica do bairro, e acredita que quando as crianças tiverem a idade dele, já poderão estar usufruindo desse espaço. O orgulho do que já foi feito e a esperança do que virá são o que montam o perfil de César.

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