Os sintomas da crise climática: como lidar com o que o dinheiro não compra?

Termômetros de todo o país registram altas históricas e população sente os efeitos no dia a dia

Por Giovanna Novaes e Maria Clara Alves

Devastação da flora afeta não só pessoas, mas também
vegetação e animais

Nos últimos anos, as temperaturas do planeta têm subido cada vez mais. De acordo com a Organização Meteorológica Mundial (OMM), a última década (2011-2020) foi a mais quente registrada desde 1980. O uso desenfreado de combustíveis fósseis, aumento de focos de incêndio por todo o mundo e grande índice de desmatamento são alguns dos principais fatores que contribuíram para o efeito acelerado das mudanças climáticas e aumento do efeito estufa.

As mudanças climáticas podem ser entendidas como alterações do clima e temperatura do planeta ao longo dos anos. É importante lembrar que essas alterações são resultado da atividade humana. Já o efeito estufa é um fenômeno natural. Ele acontece quando alguns gases na atmosfera formam uma camada que retém parte do calor gerado pelo Sol. Normalmente, a Terra absorve a luz solar e libera parte dessa energia de volta ao espaço. 

O problema surge quando as ações humanas aumentam a quantidade desses gases, intensificam o efeito estufa e elevam a temperatura do planeta, o que resulta no “aquecimento global”. Esse fenômeno é central nas discussões sobre sustentabilidade e mudanças climáticas.

Segundo o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), o principal responsável pelo aumento da temperatura do planeta é o próprio ser humano. Desde a revolução industrial, a população fez um uso intensivo de combustíveis fósseis como fonte de energia para máquinas, fábricas e transportes, marcando o início de um aumento significativo nas emissões de gases de efeito estufa. 

Além disso, a geração de eletricidade e queima de combustíveis fósseis é responsável por uma boa parcela das emissões. No mundo todo, apenas cerca de um quarto da eletricidade é gerada pelo vento, Sol e outros recursos renováveis que emitem pouco ou nenhum gás de efeito estufa.

As ondas de calor recentes ilustram essa nova realidade climática. No Brasil, várias cidades têm registrado temperaturas recordes. Regiões como Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Tocantins chegaram a ter temperaturas próximas a 44°C. As capitais Cuiabá e Campo Grande registraram 42,8°C e 38°C. em Araçuaí, Minas Gerais, a sensação térmica chegou a 45°C, exigindo medidas emergenciais, como a criação de pontos de hidratação. 

De acordo com Priscilla Teles de Oliveira, professora do departamento de Física e Meteorologia da Unesp de Bauru, o desmatamento em massa é outro problema a ser considerado. Várias áreas de florestas foram destruídas para oferecer lugar ao agronegócio. “Quando a gente pensa nessa intensificação, nessas massas de ar quente, nessas ondas de calor, é muito isso: tanto o aumento da temperatura em si quanto a utilização da cobertura superficial da terra, que está cada vez mais devastada”, explica a professora.

O aumento da seca também contribui para que os incêndios se iniciem e se espalhem com mais facilidade. “Isso é muito prejudicial. Devido a essa falta de umidade, esses incêndios foram propagados com mais facilidade”, diz a professora. “A gente vê áreas gigantescas, como Cerrado e Pantanal, que tem locais que já estão queimando mais de 50%”.

Os usos da terra e da floresta produzem a maioria dos poluentes de todo o Brasil, segundo dados do Sistema de Estimativa de Emissão de Gases (SEEG). A emissão desses gases está diretamente relacionada com a ocorrência de eventos climáticos extremos, principalmente através dos incêndios florestais. Essas queimadas, por sua vez, são responsáveis pela piora na qualidade do ar e intensificação das ondas de calor que atingem o país.

Bauru é o 579° município que mais emite gases de efeito estufa no Brasil, de acordo com ranking divulgado pela SEEG. A cidade se destaca pelas atividades nos setores de energia, com 420.802 megatoneladas emitidas anualmente; gestão de resíduos, com 184.327; agropecuária, com 104.578 e usos da terra, com 14.389.

Os fenômenos de urbanização e crescimento econômico e populacional estão diretamente ligados ao agravamento da poluição atmosférica, considerada pela Organização Mundial de Saúde como a maior ameaça à saúde deste século. Assim, as alterações no clima também se mostram nos verões cada vez mais rígidos, invernos passageiros e na diminuição da umidade.

Os eventos extremos de calor também têm consequências significativas na saúde pública, como desidratação, insolação, agravamento de doenças crônicas e complicações em doenças cardíacas. “O principal impacto, quando a gente pensa na saúde, é das pessoas que têm problema de asma ou problema cardiovascular. Os idosos têm essa propensão de ter mais idas aos hospitais por problemas cardiovasculares e as crianças, por problemas respiratórios”, explica Priscilla.

Em visita ao Jardim Nicéia, moradores reconheceram as mudanças no clima e os impactos do calor intenso sobre o bairro. “Primavera, verão, outono, inverno, mudou tudo. Não tem mais chuva nas épocas certas”, opina Alexandre Godoy, morador da Rua Dolores Fernandes Balderrama. Kelly Mendes, moradora da rua 5, reforça a necessidade de atenção com a saúde no calor extremo: “é bastante água, bastante banho, ficar bastante na sombra”, relata. 

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