A fabricação de conteúdos influencia no exercício da cidadania ao prejudicar a credibilidade das instituições de comunicação
Por Maria Clara Alves, Mariana Bezerra e Vivian Ferreira

Viver o cotidiano requer que as pessoas lidem com um fluxo intenso de informações e decidam rapidamente sobre os conteúdos que preferem consumir. Com a ampliação do uso de aparelhos como a televisão e o celular, cada vez mais indivíduos, antes consumidores, assumem o papel ativo na emissão e compartilhamento de mensagens.
Com a expansão para o digital e novas formas de se comunicar, os espaços de discussão são tomados por conhecimentos que, dado o caráter viral das redes, se destacam entre o público. Mas é aí que está: entre um fato e outro, está a informação manipulada, reciclada ou inverídica, elaborada com a intenção de enganar, também chamada de desinformação ou fake news.
Ainda que fake news seja o termo mais usado para se referir a notícias falsas, Angela Maria Grossi, professora do curso de jornalismo da Universidade Estadual Paulista (Unesp), explica o porquê de ele ser contraditório ao afirmar que “quando você tem algo que é falso, significa dizer que ele não foi checado, verificado, nem contextualizado. Ele está sendo colocado ali para gerar insegurança no público”, diz. A palavra mais apropriada, então, seria ‘desinformação’.
O jornalismo na atualidade torna-se o elo que liga o acontecimento ao público ao fornecer um olhar crítico sobre o fato, que pode ser um ponto de partida para que muitas pessoas se situem sobre um determinado assunto. Porém, não são somente os jornalistas que atuam no combate à desinformação: os profissionais fact checkers, ou verificadores de fatos, são responsáveis por apurar e conferir conteúdos em um contexto de distorção informacional.
Entre outubro e novembro de 2024, o Jornal Vozes do Nicéia conversou com 50 moradores do bairro sobre o consumo de notícias e quais plataformas eram mais utilizadas. Dos 50 participantes, 37 acompanham diversos veículos de notícias em seu dia a dia, como a TV Tem, com 34 pessoas, e o Jornal da Cidade/JCNET, com 25. Os temas mais consumidos são política, educação, segurança e esportes.
Pode-se observar a confiança que as pessoas têm nesses portais, pois quando perguntado a Rosemeire, moradora da rua 4, ela cita que “a maioria (das informações) quando eu vejo que passa em todas as redes, eu confio”.
Apesar do rádio e a televisão serem predominantes, o consumo de informações através das redes sociais, como Facebook, Whatsapp e Instagram, também se destacam no bairro. Porém ao receber e repassar informações nas plataformas digitais não há a checagem prévia dos fatos. O que leva as pessoas a compartilharem um post ou um texto é apenas sua percepção de que aquele conteúdo é ou não falso.
“Eu procuro compartilhar o que eu acredito que é verdade. Às vezes, alguém pede ajuda, de alguma doença que precise fazer uma cirurgia. É mais nessas partes que eu gosto de estar me informando”, afirma Ivan, morador da rua Dolores Fernandes Balderrama.
Fake News são criadas para desinformar o público, influenciá-lo no período eleitoral e até mesmo disseminar posicionamentos radicais. Como exemplo, pode-se citar a campanha para as eleições presidenciais de 2018, onde chegaram a ser fabricadas cerca de seis fake News diariamente, totalizando 346 veiculadas em todo o período eleitoral, segundo a Câmara Municipal de Curitiba.
Consequências da desinformação na sociedade
O compartilhamento de notícias falsas é nocivo para a sociedade por ser capaz de manipular e influenciá-la de acordo com os interesses de quem a dissemina.
Angela ainda explica que as fake news “confirmam valores, crenças, percepções que eu tenho sobre o mundo. Esse viés de confirmação é trabalhado por grupos que ganham muito dinheiro com a desinformação justamente para criar esse pânico social, esse desconforto, essa divisão, essa fragmentação da sociedade”.
Nesse sentido, há a necessidade de a população saber identificar o que é ou não verdadeiro para evitar o compartilhamento de conteúdo falsos. Para isso, alguns portais de comunicação, como o G1 e a BBC Brasil, produzem matérias com o objetivo de orientar a população na hora de checar os fatos.
Como identificar conteúdos falsos?
Títulos sensacionalistas: Quando uma reportagem possui um título exagerado, é necessário ler todo o texto para conferir se o conteúdo está de acordo. Uma das principais características das notícias falsas são as chamadas apelativas, que visam mexer com a emoção do público que acaba por compartilhar o conteúdo sem consumi-lo por completo.
Verificar a fonte/autoria do texto: O primeiro passo é observar se o conteúdo recebido possui um autor. Quando este for identificado, é preciso buscar informações sobre essa pessoa, como em qual veículo de comunicação ela trabalha e se é uma fonte oficial que possui credibilidade. Depois, é preciso conferir se outros sites estão falando sobre o assunto. Se a fonte não for identificada no texto, é preciso desconfiar.
Em que data a notícia foi publicada: Uma notícia compartilhada fora de contexto (mesmo sendo verdadeira) é uma tática para gerar desinformação. Assim, é preciso conferir a data em que o material foi divulgado, além de buscar em outros veículos para se certificar de que o evento aconteceu.
Erros de ortografia e gramática: Antes de um conteúdo jornalístico ser publicado, ele passa pela correção e revisão de um editor qualificado. Portanto, é preciso desconfiar de uma reportagem que possui muitos erros de escrita.
Fotos, vídeos e áudios: Com a evolução da IA (Inteligência Artificial), conteúdos visuais e sonoros estão sendo manipulados ou são criados do zero. É possível identificá-los na percepção de erros como cortes sem sentido e áudios que não estão sincronizados com os lábios da pessoa, além de buscar pelo conteúdo original.
O que é e como funciona a checagem de fatos?
Na imprensa, sempre foi comum a atuação de jornalistas no processo de checagem de fatos, que corresponde à verificação da factualidade de uma informação. Era função de jornalistas especializados identificar inconsistências ou falsidades em uma notícia.
Dessa forma, fez-se necessária também a ampliação dos mecanismos de verificação de conteúdos na internet. É sempre válido buscar informações em mais de uma fonte; no entanto, existem portais específicos onde é possível conferir se uma determinada notícia é verdadeira ou falsa, transparente ou não. Entre eles estão o G1: Fato ou Fake, o UOL Confere, e o Estadão Verifica e a Agência Lupa.
As agências de checagem de fatos, de maneira geral, desempenham um papel essencial na sociedade por auxiliar na garantia da segurança informacional. Elas atuam ativamente para que as pessoas saibam o que está acontecendo e tenham fontes para recorrer em caso de dúvidas e suspeitas.
O “G1: Fato ou Fake”, por exemplo, possui uma equipe de checagem que apura notícias suspeitas, em evidência, com o auxílio de ferramentas que monitoram a repercussão de temáticas nas redes sociais de forma estratégica. Esses jornalistas classificam como ‘fato’ ou ‘fake’ as informações e, então, a equipe de redação publica uma matéria no site esclarecendo o assunto. Além disso, o público geral pode enviar sugestões e alertas para a equipe através do whatsapp pelo número (21) 97305-9827. O UOL Confere funciona de forma parecida e também possui um canal de contato com a população através do e-mail.
Da mesma forma se dá a atividade da Agência Lupa, que possui um diferencial: é especializada em ‘fact checking’ que é independente, ou seja, que não depende de financiamento externo. Essa plataforma promove, também, projetos educacionais, como oficinas, treinamentos e contribuições para repositórios de pesquisa voltados para o letramento midiático no que se refere a produção de conteúdos transparentes, apartidários e no combate à desinformação.
Como visto, o meio digital funciona é um espaço em que todos os usuários possuem o poder de expressarem suas opiniões e de participarem de discussões. Dessa forma, assim como acontece no mundo ‘real’, é importante, também, que os indivíduos se comuniquem no meio digital de forma ética e responsável.
Sobre esse conceito, a professora Angela Maria afirma que ser cidadão digital é agir com responsabilidade online. O excesso de desinformação pode distorcer a percepção da realidade, gerando desconfiança nas instituições públicas e nas próprias relações sociais e vivências pessoais. Assim, as pessoas acabam se afastando do mundo real e se prendendo a uma realidade virtual irreal criada pelos conteúdos informativos.
Na época da pandemia de Covid-19, o jornalismo ganhou muito destaque por trabalhar para fornecer, com transparência, informações que eram de difícil acesso ao público geral, como os números de mortos e contaminados pelo coronavírus. Aliados às agências de checagem, os veículos jornalísticos ajudaram a neutralizar informações falsas e conteúdos sensacionalistas, que se aproveitam da vulnerabilidade das pessoas e do momento de insegurança.
Além disso, durante os períodos eleitorais, essas plataformas possibilitam aos eleitores terem maior confiança na hora de escolher seus candidatos, pois, muitas vezes, é possível recorrer a esses mecanismos que possuem credibilidade para checar uma informação e, assim, formar uma opinião crítica baseada no que é, de fato, real.“Então, ter a confiança de que o jornalismo é capaz de fazer com que as pessoas tenham acesso a informações de qualidade é muito importante, inclusive, para que as pessoas tenham garantia das suas ações no cotidiano, porque, senão, a gente vai viver um mundo irreal”, completa a professora.
