Para renovar o espaço tomado por lixo em frente à sua casa, Maria Aparecida, Rua 7, encontrou a solução no plantio.
Por Bruna Santini, Denalyn Oliveira, Gabriel Accorsi e Sarah Galindo
Dona Aparecida, 61, decidiu transformar o espaço em frente à sua casa. O local, usado por vizinhos como depósito de lixo, se tornava uma ameaça constante à saúde e à segurança. A presença de entulho e sacolas rasgadas podia atrair animais peçonhentos, como escorpiões e cobras — uma preocupação ignorada pelos órgãos públicos, apesar das queixas. Cansada de esperar por soluções que nunca vinham, ela resolveu agir com as próprias mãos: plantou.
Ela chegou ao Jardim Nicéia há mais de 38 anos, depois de seu marido ajudar na construção de uma das igrejas do bairro. As coisas mudaram desde então, mas, o lixo é um problema recorrente. “É colchão, é armário, pedaço de tudo que você imagina eles jogam ali”, denuncia Aparecida.
O descarte incorreto de lixo traz consequências para a população local, como poluição do solo e da paisagem e a presença de animais peçonhentos. Há relatos de escorpiões, casos de dengue, cobras e outros riscos à saúde. A moradora se preocupa com o terreno em frente a sua casa porque as crianças costumam brincar lá.
Depois de pedir para que os outros moradores parassem de jogar lixo no terreno e a falta de ações reais, a solução que dona Maria encontrou foi a construção da horta. “Quando eu vi que não dava só para falar com o pessoal para não jogar, eu falei: então vamos plantar alguma coisa, daí eles param [de jogar lixo]”, lembrou a senhora.
A partir de então, dona Cida construiu a horta com ajuda de amigos e familiares. “A gente começou o ano passado. Nós viemos limpando a nossa frente [da casa]”. As leguminosas e frutas começaram a fazer parte do terreno “hoje já tem boldo, abóbora, melão. Plantamos mandioca, batata doce e outras coisas também”, diz.
À medida que a horta cresce, Aparecida relata, com orgulho, que seu objetivo foi atingido: “Agora eles [moradores do bairro] não jogam mais lixo aqui não”.
Mesmo assim, ainda há certa decepção para dona Maria: “a gente se sente feliz em plantar, mas nós fazemos isso para não jogarem lixo!”, declarou.
A conscientização é um passo importante para a manutenção da saúde pública. As coletas de materiais orgânicos são realizadas a partir das 6 horas, às terças, quintas-feiras e sábados. Já as de recicláveis acontecem às quartas-feiras, a partir das 8 horas da manhã, de acordo com a EMDURB (Empresa Municipal de Desenvolvimento Orgânico e Rural de Bauru).
Os impactos gerados pelo acúmulo de lixo vão desde a poluição do solo, até a propagação de doenças infecciosas, cardiovasculares, respiratórias e endócrinas, o que ameaça a segurança dos moradores. “Aqui não é um lugar bom pras crianças brincarem. Não dá pra manter sozinhas, não dá. Porque estão brincando e pode aparecer um bicho”, observa a moradora.
Maria Aparecida acompanhou a evolução do bairro do Nicéia, e afirma que gostaria de uma atenção maior da prefeitura com o bairro. Em áreas periféricas o descaso com o descarte de resíduos é agravado.
Segundo dados das características de domicílios do censo de 2022 do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), cerca de 18,4 milhões de brasileiros recorrem a soluções locais ou individuais para o descarte de lixo.
Essa iniciativa de autogestão demonstra mais do que a boa vontade da moradora, reflete o cansaço da comunidade de esperar por mudanças que são de responsabilidade pública. Dona Aparecida segue regando sua horta e, enquanto mantém a frente de casa limpa, conscientiza a vizinhança sobre o cuidado com o bairro.
