Dinheiro e dificuldade no acesso a alimentos de qualidade faz com que famílias enfrentem vulnerabilidades nutricionais
Isabela Pitta, Leonardo Caetano Ayres, Malu Oliveira e Sophia Picchi
Andréia de Fátima Moura de Oliveira, 44 anos, residente da rua 5, organiza uma cozinha comunitária no Jardim Nicéia desde 2019. O trabalho, que fazia parte do movimento Periferia Urbana e já era realizado por mulheres da vizinhança, atraiu a moradora. Ela conta que, desde jovem, participava de projetos alimentares no antigo Centro Comunitário do bairro.
As refeições vinham de ingredientes doados de vizinhos, produtores rurais e da equipe do vereador Markinho Souza (MDB). O preparo acontecia pelo revezamento de residências dos voluntários. Aos poucos, uma cozinha de porte industrial foi montada no terreno da casa da própria Andreia.

“Nós cozinhávamos para doar”, relata Adriana Fátima da Silva, irmã da organizadora, que descreveu a rotina do projeto. A equipe produzia refeições às sextas-feiras, e atendiam por volta de 300 famílias de dentro e fora do Nicéia.
A iniciativa das mulheres surgiu quando perceberam uma necessidade entre muitos moradores do bairro. Adriana conta que famílias enfrentam dificuldades em comprar e preparar comida, seja pela falta de recursos financeiros e tempo para cozinhar refeições completas.
Além das pessoas em situação de rua, ela diz que mães e pais solo são os principais grupos da vizinhança que passam por vulnerabilidades na alimentação diária – fenômeno conhecido por Insegurança Alimentar.
Durante a preparação do almoço de Natal em 2021, o botijão de gás vazou, causando um incêndio na cozinha. “Queimou meu forno novinho, micro-ondas, máquina de moer carne, geladeira, freezer. Eu estava na hora, saí no meio do fogo”, lembra Andreia.
Hoje, o projeto está parado devido ao andamento da reforma do local. O chão e os azulejos já foram arrumados, mas a moradora conta que a troca da rede elétrica demanda um alto orçamento, e ainda não pode ser feita. Ela tem esperanças de retornar às atividades e continua com outras iniciativas, como a distribuição de pães.

Segurança X Insegurança: entenda a vulnerabilidade alimentar
Insegurança alimentar, de acordo com a nutricionista Michelle Antunes, “é a falta de acesso regular e permanente a alimentos de qualidade, em quantidade suficiente, sem comprometer outras necessidades essenciais”, ou seja, a alimentação deve ser uma base frequente e equilibrada na vida das pessoas.
Cenários sociopolíticos nacionais, como desemprego, desigualdade social, crises econômicas e políticas públicas ineficazes são fatores que, em análises antropológicas, podem intensificar as situações desfavoráveis de sustento corporal.
No ramo da nutrição, a condição de Insegurança Alimentar (IA) pode ser manifestada em três diferentes níveis:
• Leve: preocupação ou incerteza quanto ao acesso futuro aos alimentos.
• Moderada: redução da qualidade dos alimentos e/ou da quantidade.
• Grave: falta de alimentos e fome propriamente dita.
Dados diminuem, mas insegurança ainda atinge brasileiros
Entre vulnerabilidade econômica, social e nutricional no Brasil, a IA acometeu 2,5 milhões em 2023, de acordo com Relatório das Nações Unidas sobre o Estado da Insegurança Alimentar Mundial.
Os números apresentados pela ONU, apesar de desumanos, indicam uma queda de 85% de pessoas atingidas pela condição de inacessibilidade permanente a alimentos de qualidade. Em outras palavras, 14,7 milhões de cidadãos do Brasil deixaram de passar fome.
Casas chefiadas por mulheres são as mais afetadas
O sexo da pessoa responsável pela família também é um fator que impacta o acesso a alimentação. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua de 2023 (PNAD), embora as mulheres sejam encarregadas pelo sustento de 51% dos domicílios no Brasil, elas representam 59,4% dos que enfrentam vulnerabilidade alimentar.
Os homens predominam nas famílias em Segurança Alimentar. Enquanto a IA grave ou moderada atinge 10,8% das residências geridas pelo sexo feminino no país, a parcela para os responsáveis masculinos é 7,8%. A diferença entre homens e mulheres na categoria mais aguda é de mais de 17 pontos percentuais.
Insegurança e saúde
Mesmo que menos de 1% enfrente o nível extremo da condição vulnerável, a insegurança alimentar, em todos os níveis, é responsável por gerar impactos fisiológicos e cognitivos nas pessoas afetadas.
A condição pode ser fator causador de déficits cognitivos, baixos rendimentos escolar e laboral e problemas emocionais e de saúde mental (depressão, ansiedade e estresse). Portanto, uma alimentação desequilibrada e não garantida com frequência impacta mais do que apenas a nutrição do corpo, mas também a mente e o desempenho do indivíduo.

De acordo com a faixa etária, a condição de vulnerabilidade pode atingir, de maneiras distintas, os indivíduos suscetíveis. Garantir uma alimentação saudável, regular e adequada é importante para assegurar, nas palavras da nutricionista Antunes,
• Crescimento físico e neurológico adequado, bom desempenho escolar e menor risco de doenças em crianças;
• Maior produtividade, estabilidade emocional, e saúde metabólica a adultos;
• Manutenção da autonomia, preservação da massa muscular e prevenção de doenças crônicas em idosos.
Em cenários de insegurança alimentar, os riscos à qualidade de vida e à saúde se tornam inerentes à rotina.
Suportes e finanças
Para combater a situação, muitas vezes atreladas a condições de pobreza e dificuldades financeiras, existem políticas públicas que visam contribuir para a diminuição observada no relatório da ONU.
O Bolsa Família garante R$600,00 para núcleos familiares em vulnerabilidade, além de valores adicionais para crianças de até seis anos de idade (R$150,00) e entre sete e 18 anos (R$50,00).
Outros programas de suporte alimentar são fornecidos pelo Governo Federal, como o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA).
Para estudantes dar suporte a estudantes matriculados em instituições de ensino municipal, recursos financeiros federais, por meio do PNAE, são repassados para escolas públicas para que refeições sejam garantidas aos alunos.
Por meio do PAA, o governo compra de agricultores familiares para estimular a produção de produtos orgânicos e destinar os alimentos para comunidades e pessoas em situações de insegurança alimentar.
Para além de suportes governamentais, a nutricionista Antunes ressalta outros mecanismos importantes para a garantia de uma alimentação saudável, como a regulação dos preços de alimentos, incentivo à produção local e fortalecimento da educação alimentar e nutricional.
Ao alcance da própria população, o corpo social pode organizar ações comunitárias, como hortas urbanas públicas, bancos de alimentos, cozinhas solidárias e realizar aproveitamento integral dos alimentos com escolhas saudáveis de baixo custo.

Fome e obesidade?
Apesar de soar contraditório, a obesidade e a insegurança alimentar compartilham uma relação, nas palavras de Antunes, “mais comum do que parece”.
De acordo com a especialista, a situação de desamparo nutricional, especialmente para pessoas de classes sociais mais vulneráveis, pode acarretar em condição obesa. Hábitos como exagero na ingestão de alimentos por receio da escassez futura são fatores que contribuem para o desenvolvimento da condição médica.
Para além de práticas danosas à saúde alimentar, o consumo excessivo de ultraprocessados devido ao acesso limitado a alimentos in natura, que geralmente são mais caros, e estresse alimentar crônico, que altera comportamentos e metabolismo são motivos do alastramento da obesidade em decorrência da insegurança alimentar.
O papel das igrejas e lideranças comunitárias do Nicéia
Ações locais, organizadas por moradores e instituições religiosas, desempenham papéis relevantes no combate à insegurança alimentar no Jardim Nicéia. Essas iniciativas atuam como rede de apoio a moradores que, muitas vezes, não são alcançados por programas estatais.
Jhonatan Henrique, de 27 anos, e presbítero da igreja Palavras em Chamas, explica que a instituição realiza a distribuição de cestas básicas há oito anos. Além de oferecer um almoço comunitário que acontece uma vez por mês. O primeiro passo é, de acordo com as normas deles, verificar quem precisa do auxílio, “Fazemos uma visita, ou até mesmo conversamos com parentes para saber a real situação”, relata.
A arrecadação de alimentos acontece de maneira voluntária, os visitantes podem doar sem datas específicas e em qualquer quantidade. “Pode ser até um pacote de macarrão, nós deixamos no armazém da igreja” e a partir das doações, a igreja consegue atender de três a quatro famílias por vez.
Apesar da vontade de ampliar as arrecadações, a ausência de um Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica (CNPJ) dificulta o processo de parcerias com supermercados e órgãos públicos.
A ajuda comunitária no bairro também parte de iniciativas autônomas dos próprios moradores, como o projeto Espaço Esperança, criado pela Deizinete Braz, 61 anos, moradora da rua sete do Jardim Nicéia.
Conhecemos o projeto por um evento de distribuição que foi realizado na igreja do bairro. Ao contatá-la, Deizinete explica que foi apenas uma parceria, mas que é um projeto autônomo, apesar de cristão: “A igreja atende os membros. Eu atendo quem precisa, independente de frequentar ou não a igreja”, explica.

O projeto, que antes atendia apenas crianças de maneira pontual, a partir do mês de agosto, também vai auxiliar mulheres em situação de vulnerabilidade. Eles vão oferecer rodas de conversas, doações de roupas e cestas básicas. Para realizar a distribuição, ela e o Pastor Juliano Francischini, contam com a ajuda de amigos.
Já com planos de realizar almoços em datas comemorativas como o dia das crianças, natal e páscoa, Deizinete também sonha em conquistar um espaço fixo para realizar outras ações, como: reforços escolares, atividades culturais e tratamentos dentários. “Eu sei que é bem complicado conseguir recursos para tanto, mas vou acreditar que vai ser um sucesso”.
Mesmo com recursos limitados, essas ações locais criam novos caminhos para combater a fome no bairro. Já que segundo os moradores do bairro, como a Adriana, as ações governamentais ainda são escassas. “Às vezes tem, mas eles mesmos trazem e distribuem. Param na praça ou nas esquinas. Mas assim, chegar e entregar, nós nunca tivemos”, ela comenta.
Ações do Poder Público e a alta do preço dos alimentos
De acordo com a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) da Prefeitura de Bauru de 2025, que garante a transparência do orçamento anual do poder público para todas as áreas da administração municipal, foi destinado um total de R$39.781.180,00 para o programa de merenda e transporte escolar da rede pública municipal – desde as creches até o programa EJA (Educação de Jovens e Adultos). Desse valor, 47,33% foi destinado à alimentação escolar.
A Lei Orçamentária Anual (LOA), que é formulada a partir da LDO e prevê qual será a despesa fixa que o governo municipal deverá ter com cada setor em determinado ano, estimulou que o gasto total com alimentação escolar para 2025 será de R$27.105.885,00.
O Site da prefeitura de Bauru aponta que existem 71 EMEI’s e 16 EMEF’s em Bauru. Isso significaria que, do orçamento total para a alimentação dessas escolas, seria enviado um valor de R$311.561,89 para cada escola municipal.
Considerando a variação acumulada do IPCA na variação parcial de 2025 (janeiro e fevereiro), é possível afirmar que a inflação do grupo de alimentação e bebidas é maior (1,67%) do que a do índice total (1,47%), conforme um levantamento feito pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (CEPEA) publicado em abril deste ano.
Programa Cozinha Comunitária
Visando combater a insegurança alimentar como um todo no município, a Prefeitura também realiza o Programa Cozinha Comunitária, que, através da Secretaria Municipal de Assistência Social, tem como objetivo expandir o acesso à alimentação adequada e saudável, com prioridade às famílias e pessoas em situação de vulnerabilidade social e de risco, além de promover o acesso dessa população a oportunidade de trabalho e renda, por meio de cursos de qualificação profissional envolvidos na área de empreendedorismo social. As inscrições para esses cursos podem ser feitas pelo site www.bauru.sp.gov.br.
Bom Prato
O programa também abrange o funcionamento dos restaurantes Bom Prato, que são administrados pela Organização da Sociedade Civil AELESAB e possuem 3 unidades em Bauru. A unidade fixa da cidade fica no centro, e há outras duas unidades móveis: no Núcleo Edson Francisco da Silva e outra que ficará no Octávio Rasi até dia 25/07.
Unidades Bom Prato em Bauru
Centro: R. Primeiro de Agosto, 9-47
Bom Prato Móvel I Otávio Rasi: R. Miguel Ângelo Peregini, 232
Bom Prato Móvel II Bauru 16: R. Dr. Arnaldo Miraglia, quadra 6
Todas as unidades do programa servem o café da manhã a partir das 07h a R$0,50, almoço a partir das 10h30 e jantar a partir das 17h, ambos a R$1,00. O programa prevê que crianças de até 6 anos de idade sejam isentas do pagamento.
A unidade do Centro deixou de abrir aos finais de semana por tempo indeterminado devido à necessidade de manutenção. Esta e as outras unidades do programa funcionam de segunda a sexta-feira, exceto feriados. Em Bauru, as unidades do Bom Prato servem diariamente quase 3 mil refeições.
