Educação para todos? Entenda os desafios de cada etapa de ensino em Bauru
Da educação infantil ao EJA, moradores do Jardim Nicéia enfrentam barreiras que vão da falta de vagas à precariedade estrutural
Alice Burégio, Ana Luiza Moura, Isabela Sanches e Lívia Maria Campesato
Reprodução: Pixabay
O acesso à educação é uma pauta constante em todo o país, principalmente com relação à qualidade de ensino – e em Bauru, especialmente no Jardim Nicéia, essa realidade não é diferente.
Da educação infantil ao ensino médio, incluindo a Educação de Jovens e Adultos (EJA), todas as etapas de ensino enfrentam desafios e promessas não cumpridas, como a EMEI integral prometida em 2013 e os cursos diversos no Centro Comunitário que ainda está sendo construído.
Grande parte dos moradores do Jardim Nicéia frequentam — ou já frequentaram em algum momento da vida — as mesmas instituições de ensino. Agora, com a Creche Berçário Ernesto Quaggio ou EMEII Francisco Guedes Bombini no próprio bairro, ela tornou-se uma das opções mais acessíveis e populares na região.
O mesmo não ocorre com o Ensino Médio e Fundamental, em que os alunos dependem do ônibus da Prefeitura ou de transportes particulares para chegar às escolas. Com o passar do tempo, os antigos moradores cresceram, formaram famílias e seus filhos agora enfrentam as mesmas limitações no acesso ao ensino.
A moradora do bairro, Julia Stefani, contou sobre os anos em que estudava no período noturno na Escola Estadual Luiz Zuiani Dr., e trabalhava em um condomínio próximo ao Nicéia. “Eu ia e voltava de a pé, dava mais ou menos uma hora”, comentou sobre as dificuldades no transporte. “Chegava lá na segunda aula”, prosseguiu. Mesmo com os problemas, ela classifica a escola como um “refúgio”.
Mapa do trajeto percorrido por Julia Stefani, do seu bairro para a escola. O mínimo de tempo de deslocamento é de 47 minutos.
Hoje em dia, Julia tem um filho que estuda na creche do bairro. Ela relatou que para conseguir a vaga foi uma “luta”, precisando recorrer à Secretaria da Educação de Bauru pessoalmente. A moradora comentou que na época, ela tinha começado a trabalhar e precisava de um local para deixar seu filho.
Creche Berçário Ernesto Quaggio, ou EMEII Francisco Guedes Bombini, no Bairro Jd. Niceia (Foto: reprodução/Google Maps)
Educação Infantil
A fila de espera por vagas em creches não é um problema exclusivo da Creche Berçário Ernesto Quaggio. No segundo semestre de 2024, o Gabinete de Articulação para a Efetividade da Educação (Gaepe-Brasil) e o Ministério da Educação (MEC) divulgaram um levantamento sobre a situação da educação infantil no país. Em Bauru, eram 580 crianças de 0 a 4 anos – faixa etária que abrange as creches e os primeiros anos de pré-escola – aguardando por vagas.
De acordo com o artigo 208 da Constituição Federal, é garantido o direito à educação infantil, que abrange creches (0 a 3 anos) e pré-escola (4 a 5 anos). Cabe ao Estado garantir o o acesso à educação sem discriminação, sendo a matrícula em creche e pré-escola obrigatória.
O Departamento de Educação Infantil de Bauru, responsável pela organização e efetivação das políticas públicas educacionais, conta com 66 Escolas Municipais de Educação Infantil (EMEIs e EMEIIS), além de 27 Entidades Conveniadas e 21 particulares.
Apesar de ser um direito constitucional, o acesso ainda permanece regulado, como visto com o déficit de alunos esperando vagas. No início de 2024, a Prefeitura de Bauru registrou 223 vagas disponíveis em escolas municipais de educação infantil. Já em 2023, o total de alunos na fila de espera, entre a faixa dos quatro meses aos três anos e onze meses de idade, era de 653 crianças.
A fila de espera não é o único problema enfrentado na vida dos pais e alunos em Bauru e no Jardim Niceia. O Coletivo Educação em Luta Bauru, formado por trabalhadores da educação, relata que as escolas infantis sofrem com a escassez de materiais, ausência de infraestrutura adequada para o clima da cidade e, mais recentemente, com o processo “falho” de integralização das escolas. O grupo aponta que a problemática dessa proposta é a falta de estrutura.
Segundo o Coletivo, a proposta de educação em tempo integral carece de planejamento básico, uma vez que as escolas integrais acontecem com a mesma estrutura de antes da integralização.
“A escola permanece a mesma. Então, como oferecer essa educação integral? Não tem como. É apenas o aumento da carga horária para eu colocar a minha criança, a escola vira um depósito para o pai trabalhar e ter onde deixar a criança.” Coletivo Educação em Luta
Com relação a organização das atividades, o Coletivo comenta sobre um projeto integrador feito pela gestão municipal e pelas próprias unidades escolares, mas que ele não possui nenhuma norma ou diretriz que regulamente essa atuação.
A ideia do projeto seria, por exemplo, ter na parte da manhã um acompanhamento pedagógico e no período da tarde, atividades como cultura corporal. Essa organização varia da gestão escolar de cada unidade, de acordo com o critério de cada uma.
A presidente do Conselho Municipal de Educação de Bauru, Suzi da Silva, ressaltou que o processo de integralização deve ser feito de uma forma cuidadosa, para que as escolas sejam de fato integrais e “não apenas uma escola com horário ampliado como uma creche.”
Suzi aponta que o conselho atua para fiscalizar essa educação oferecida. “Além de ser obrigação do município, é um direito constitucional do estudante” , afirmou a professora.
Há alternativas fora das escolas para os pais que, por conta do trabalho, não tem com quem deixar seus filhos. O serviço oferecido pela Wise Madness, instituição conveniada com o CRAS (Centro de Referência de Assistente Social) pode ser uma opção.
O CRAS é uma unidade pública municipal encarregada de acolher e escutar famílias/indivíduos em situação de vulnerabilidade, em que atuam como porta de entrada do SUAS, o Sistema Único de Assistência Social.
📍O CRAS em Bauru que atende o Jardim Nicéia é o CRAS Jd. Europa (Rua Carlos Del Plete, 11-16 Jardim Europa).
De acordo com a psicóloga Natália Charlois, funcionária do CRAS, a instituição atua “na prevenção, para que não escale para uma questão mais grave na família, e também com o acesso a direitos, a garantia de benefício, transferência de renda, questões de vulnerabilidade social e econômica.”
A entidade trabalha também com o serviço de convivência e fortalecimento de vínculos. No Jardim Nicéia, esse trabalho é realizado por meio de um convênio com a Wise Madness, uma associação sociocultural que trabalha com oficinas de arte e esportes, oferecendo atendimento a crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social.
Para acessar o serviço é necessário ter o Cadastro Único, feito no próprio CRAS. Após isso, os assistentes sociais avaliam a disponibilidade da criança e a encaminham para o serviço de convivência, que atua no período de contraturno escolar. É disponibilizado também transporte para levar as crianças até o galpão da Wise Madness, com uma van que circula no bairro.
No bairro, a principal unidade de educação infantil é a Creche Berçário Ernesto Quaggio, atualmente administrada pela Fundação Astronauta Marcos Pontes, a ASTROPONTES.
A unidade atende um total de 120 crianças em tempo integral, de segunda a sexta, das 7h30 às 17h00, e abrange as etapas do Infantil II (1 ano e 11 meses a 2 anos e 10 meses), Infantil III (2 anos e 11 meses a 3 anos e 10 meses), Infantil IV (3 meses e 11 meses a 4 anos e 10 meses) e Infantil V (4 anos e 11 meses a 5 anos e 11 meses).
CRAS
Ensino Fundamental
O Ensino Fundamental brasileiro foi regulamentado por meio da Lei de Diretrizes e Base da Educação (LDB), de 1996, oriundo da junção dos antigos cursos primários e do ginásio, e passou a ter nove anos de duração obrigatória.
O Fundamental abrange desde o período de alfabetização (anos iniciais, com um só professor) até os anos finais, que contam com vários docentes. O nível intermediário da educação básica brasileira é de responsabilidade tanto do governo do estado, quanto do município e abarca a faixa etária de seis a 14 anos.
Bauru possui, de responsabilidade municipal, cinco escolas de Ensino Fundamental com anos iniciais e finais, e doze escolas somente com anos iniciais, as chamadas EMEFs (Escola Municipal de Ensino Fundamental). De responsabilidade estadual, as escolas que oferecem Ensino Médio (e que não são integrais) oferecem também os anos finais do ensino fundamental.
Dados divulgados pelo IBGE apontam que em 2024, 94,5% das crianças de seis a 14 anos estavam matriculadas no ensino fundamental. Esse número foi o menor da série iniciada em 2016 e se mantém abaixo da meta estabelecida pelo Plano Nacional de Educação (PNE), de 95%.
Além da espera por vagas, questão ainda latente nesse nível de ensino, a mudança constante na legislação e a criação de novas exigências também são pontos muito discutidos no grau de educação fundamental.
No ano de 2018, a Escola Estadual Christino Cabral tornou-se integral e exclusiva para o Ensino Médio, fato que afetou cerca de 300 estudantes, incluindo os jovens do Nicéia – em que a maioria foi transferida para a Escola Estadual Ernesto Monte.
Na época, o Vozes apurou situações de bullying que os alunos recém-chegados estavam enfrentando na Ernesto Monte, com reclamações de mães sobre a estrutura e superlotação, com relatos de ausência e demissões de funcionários.
Em 2025, a Escola Estadual Professor Ernesto Monte, que atende os anos finais do ensino fundamental, também aderiu ao Programa de Ensino Integral (PEI). Outra solicitação para que essa instituição se tornasse integral já tinha sido enviada em 2023, mas não foi atendida por não cumprir alguns requisitos, como a aprovação da proposta pelo conselho e comunidade escolar.
Na época, os estudantes da Ernesto Monte protestaram contra o pedido de integralização. Em 2024, frente a uma nova solicitação de adesão ao PEI, alunos criaram também um perfil no Instagram (@forapei2024), com a descrição “Quer trabalhar? na PEI não dá!”. Em uma das postagens, os estudantes se colocaram à disposição para ter uma conversa com a diretoria de ensino.
Postagem no perfil @forapei2024 criado por alunos da Ernesto Monte. Foto: reprodução/Instagram
A falta de comunicação durante o processo de integralização, não só da Ernesto Monte como de outras escolas estaduais, também foi mencionada pela psicóloga Natália, do CRAS Jd. Europa.
Segundo ela, muitos dos alunos dessas novas escolas integrais, saíram do serviço de convivência oferecido pela instituição. “A gente está perdendo muitas crianças e adolescentes nesse serviço de convivência e proteção que a gente tem. E não tem uma conversa com a gente, por exemplo. Então as escolas viram integrais e não perguntam, não conversam, ‘olha, vai prejudicar o serviço ou não?’ relatou a psicóloga.
Para alunos que trabalham no contraturno escolar, as escolas em tempo integral não são viáveis. Segundo o professor Vitor Machado da Faculdade de Ciências (FC) da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (Unesp), esses estudantes não entram na conta das escolas em tempo integral.
”Nós estamos em uma realidade que é precária para os jovens da periferia, que tem que trabalhar, ajudar no sustento da família e não tem essa condição. […] Então como essa escola de ensino integral vai atender esse público a qual ela se destina?” Vitor Machado.
Educação Especial
A distância e o trajeto a percorrer dificultam as possibilidades de estudo para os moradores do Jardim Nicéia. Na educação especial, a situação não é diferente.
Atualmente, o atendimento é realizado por três escolas especializadas e por outras 16 unidades de EMEFs, que possuem Salas de Recursos Multifuncionais (SRM) – espaço onde é realizado o Atendimento Educacional Especializado (AEE). Além disso, dois polos do EJA (Educação de Jovens e Adultos) operam com a educação especial, de acordo com a Secretaria Municipal de Educação de Bauru.
EJA
Apesar disso, a quantidade de escolas em que esse ensino especializado é aplicado não é suficiente, considerando que a cidade possui mais de 375 mil habitantes e mais de 28.600 residentes são portadores de alguma deficiência.
A limitação de escolas com SRM impacta diretamente no acesso à educação inclusiva, fazendo com que alunos que morem em bairros mais afastados, como o Jardim Nicéia, tenham que se deslocar por longas distâncias para ter acesso a esse tipo de ensino.
Mapeamento de quatro escolas de Bauru com educação especial e sua distância em relação ao Jardim Nicéia.
Segundo o Coletivo Educação em Luta Bauru,a demanda por vagas vem aumentando a cada ano, em especial, por conta do maior acesso a diagnósticos e laudos já na educação infantil. Antes, o reconhecimento da necessidade de atendimento especializado costumava ocorrer posteriormente, geralmente no fundamental, o que postergava os encaminhamentos dos alunos.
“A demanda aumentou, só que a contratação de profissionais não seguiu a mesma proporção. Hoje em dia a gente já não consegue a mesma qualidade por conta da alta demanda e das baixas contratações”, afirma o Coletivo.
Por conta das escolas da rede municipal terem uma estrutura relativamente melhor do que as administradas pelos estados (em relação a bom atendimento, infraestrutura e recursos), muitas famílias optam por transferir seus filhos da rede estadual para a municipal. No entanto, ainda assim, a estrutura atual dessas escolas não é suficiente para absorver toda a demanda.
A alta procura sem uma estrutura correta fornecida afeta os profissionais que atuam na área. O Coletivo evidenciou casos em que há apenas um cuidador atendendo uma escola inteira, muitas vezes recebendo menos que um salário mínimo.
Além disso, os professores identificam sinais de deficiências em crianças que ainda não possuem laudo justamente por acompanharem o dia a dia delas, o que as impede de receber o suporte necessário, como professores itinerantes ou cuidadores. Esse aluno então fica sem nenhum profissional para auxiliá-lo corretamente.
“O processo de laudar uma criança não é rápido. Dependendo da situação, ele leva meses. Enquanto não se chega à conclusão qual é a deficiência, essa criança não é atendida no fundamental, não é atendida na sala de recurso. Ela não tem o direito ao professor itinerante, até os cuidadores que são enviados, são enviados com base nos alunos laudados, não aqueles que ainda estão em processo”, relata o Coletivo.
Além dessa realidade, as últimas normativas de público alvo da educação especial no Brasil asseguram, de acordo com a Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva, os direitos a alunos com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento (TGD) e altas habilidades/ superdotação.
No entanto, condições como TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade), segundo o Coletivo, não são contempladas pela política e, portanto, não recebem suporte específicos nas escolas.
“Em uma sala de 30 alunos, chegam a ter um terço de alunos com laudos de transtornos, mas que não são atendidos”, aponta o Coletivo.
Ensino Médio
Nos últimos anos, a educação dos adolescentes durante o ensino médio dividiu opiniões no país, exemplos disso são os debates sobre o Novo Ensino Médio e a implementação das escolas cívico-militares, ambos os assuntos reverberam entre políticos, especialistas e a própria sociedade.
Sendo uma função do governo estadual, o ensino médio é a última etapa da formação básica dos cidadãos. Logo, o aluno deve sair da escola preparado e motivado para o ensino superior, mas não é isso que acontece. Segundo o IBGE, entre os jovens de 14 a 29 anos do Brasil em 2024, 8.7 milhões não completaram o ensino médio por terem abandonado essa etapa ou nem terem frequentado.
O pedagogo Vitor Machado explica que é, em específico, no 9º ano (última fase do ensino fundamental II) que os estudantes abandonam a escola. “Os jovens acabam deixando de estudar nesse período por diversos motivos, dentre eles, para ajudar, na maior parte das vezes, a família em relação ao aumento da renda”, informa.
Uma das opções para os jovens trabalhadores era o ensino noturno ofertado por todas as escolas estaduais do município. Porém, atualmente, apenas nove escolas oferecem essa opção, de acordo com a reportagem do Jornal da Cidade em entrevista com sindicatos estaduais dos professores. Sobre isso, o coletivo bauruense Educação em Luta comentou: “Com o fechamento de muitas salas do ensino noturno, o aluno vai ter que procurar uma escola muito longe da casa dele e a única saída para o estudante da periferia, é abandonar o estudo”.
Algo semelhante ocorreu com a moradora Kelly da Rua 5, mãe de dois jovens. Um deles, de 17 anos, estuda na Escola Estadual Azarias Leite, onde está finalizando o ensino médio. Mas, até o ano passado, estudava na Ernesto Monte, que tornou-se integral neste ano.
Mapa com a mudança de trajeto realizada pelo filho de Kelly entre as escolas Azarias Leite e Ernesto Monte.
Com estudos de manhã, trabalho de tarde e curso no SENAI de noite, o filho de Kelly possui uma rotina corrida e às vezes o cansaço acaba vencendo. “Ele vai de manhã, levanta 6h30, se passar das 7h não entra [na escola]. Depois, almoça correndo, que 13h tem que estar no serviço e fica lá o dia inteiro. E às 18h30 ele tem que estar lá no curso, todos os dias”, relata.
PRONATEC
Como consequência, a mãe acaba “relevando” faltas nas aulas por entender o dia a dia do filho. “Na segunda ou na sexta ele não vai. Eu nem fico pegando muito no pé, porque querendo ou não, é cansativo também”, explica. “Só que eu acho mais fácil assim, do jeito que ele tá, do que ficar aí coçando”, ela complementa.
“A BNCC se organiza a partir do desenvolvimento de habilidades e competências”, explica o professor Vitor. “Ela não está preocupada com a avaliação do processo, mas está preocupada com a avaliação do produto”, acrescenta.
Isso acabou levando a flexibilização do currículo – adicionando os itinerários – e a nova carga horária que passou de 800 horas para 1000 horas por ano. Mesmo sendo aprovada em 2017, as alterações práticas começaram apenas em 2022. “A implantação está sendo feita ainda, então, agora que começamos a sofrer as consequências disso”, explica Vitor.
Com base na Reforma do Ensino Médio, os itinerários formativos “deverão ser organizados por meio da oferta de diferentes arranjos curriculares” indo de acordo com o “contexto local e a possibilidade dos sistemas de ensino”. “O indivíduo, não vai para a escola para aprender português, matemática, física, química, biologia, história, geografia, filosofia e sociologia. Ele vai para lá para fazer projeto de vida e empreendedorismo”, disse o docente.
Não são somente os alunos que são os impactados com as mudanças citadas. “É uma forma de sobrecarregar o professor, diminuindo demais disciplinas que têm um caráter mais crítico, formativo e humanizado”, confidencia os professores do coletivo. “E inventa disciplina de socioemocional, de liderança, educação financeira, o empreendedorismo. Você vai ter que lecionar aquela disciplina sem conhecimento, não está lecionando aquilo para o que foi formado” aponta o coletivo.
Outra mudança no ensino médio é a implantação das escolas cívico-militares, que foi pensada primeiramente em âmbito federal, mas que agora tornou-se uma decisão dos governos estaduais e em São Paulo será uma realidade por decisão do governador. Duas escolas de Bauru demonstraram interesse no modelo, a Durval Guedes de Azevedo Prof. e Escola Professor Morais Pacheco, porém, somente a segunda foi aprovada.
Segundo a Resolução Conjunta SEDUC/SSP 01, de 20 de junho de 2024, define como objetivo do Programa Escola Cívico-Militar, a garantia da segurança, ordem no ambiente escolar, contribuição para capacitação cívica e entre outros. Na escola, terá policiais militares aposentados que irão lecionar política e ética. Durante a aprovação do projeto, a Assembleia Legislativa de São Paulo aprovou por 54 votos a favor e 21 contrários em uma sessão marcada por protestos de estudantes.
A respeito dessa discussão, o professor Vitor alega ser um debate “longo” e “ideológico” por ser fruto do movimento Escola Sem Partido (de acordo com os estudos da Universidade de São Paulo (USP), o movimento atua por meio de estudantes, associações informais de pais e professores que estão preocupados com a doutrinação político-ideológico).
“Onde as pessoas acreditam que pela disciplina e autoridade é possível se ter bons desempenho no estudo”, argumenta o professor. Ele também destaca que não serão quaisquer alunos que poderão frequentar a escola. “Ali é uma escola que vai ser pensada para atender aos interesses de quem a organizou”, conclui.
Para o segundo semestre deste ano, o Governo de São Paulo busca continuar implementando o processo das escolas cívico-militares das 100 instituições já aprovadas.
EJA, Cursinhos Populares e Profissionalizantes
A estrutura da educação pública brasileira é organizada por uma colaboração entre os três entes federativos, União (governo federal), estados, e Municípios (Divisão reforçada pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional- LDB). A Educação Infantil e Fundamental é responsabilidade do Município. O Ensino Médio é responsabilidade dos estados, a Educação Técnica e Profissionalizante pode ser ofertada pelos estados, pela União (por meio dos institutos federais) e privados.
Seguindo essa mesma lógica, quando se trata da EJA, o ensino fundamental é de responsabilidade municipal, enquanto o ensino médio cabe ao estado. No entanto, a inscrição para ambos os níveis é feita da mesma forma: o interessado deve procurar a sede do Centro Educacional de Jovens e Adultos (CEJA), localizada no Centro de Bauru, ou as escolas-polo próximas ao bairro, como as situadas em Mary Dota ou Nova Esperança.
O EJA foi pensado especialmente para atender pessoas de bairros periféricos, como o Jardim Niceia, que não puderam concluir os estudos na idade adequada. Com horários flexíveis, inclusive no período noturno, o programa possibilita que jovens e adultos conciliem os estudos com suas responsabilidades diárias, como o trabalho e a família.
Como destaca o pedagogo Vitor Machado, especialista em docência para a educação básica, muitos jovens e adultos dessas regiões, além de estudarem, precisam contribuir para o sustento de suas casas.
Não é possível falar sobre cursinhos populares sem antes olhar para as desigualdades estruturais da educação básica no Brasil. Pessoas que cresceram em bairros periféricos e estudaram em escolas públicas muitas vezes chegam aos cursinhos com defasagens em relação a estudantes vindos da rede privada — o que significa, na prática, largar alguns passos atrás.
Por isso, cursinhos como o Ferradura Mirim, o Primeiro de Maio e o Sapiens, em Bauru, priorizam o atendimento a alunos oriundos da escola pública e com baixa renda familiar.
CURSINHOS
No entanto, mesmo com esse recorte social, alguns exigem um processo seletivo — como vestibulinhos ou provas de entrada — que, embora justificado pela alta procura, pode acabar se tornando mais um obstáculo para jovens de regiões como o Jardim Niceia, que já enfrentam uma série de barreiras no acesso à educação ao longo da vida.
Segundo o especialista , o grande problema é a base da educação nacional, pois de acordo com ele tanto as escolas públicas quanto as privadas não conseguem cumprir uma de suas principais funções : colocar os indivíduos no ensino superior.
Ainda que nem as escolas públicas nem as privadas cumpram plenamente o papel de preparar os estudantes para o ensino superior, existe uma diferença estrutural importante entre elas: o acesso ao capital cultural.
Como explica o pedagogo Vitor Machado, o aluno da escola privada agrega repertórios que vão além do conteúdo escolar, como viagens, contato com outros idiomas, leitura desde a infância e experiências extracurriculares que a escola pública, especialmente nas periferias, não consegue oferecer.
Esse conjunto de saberes e vivências, conhecido como capital cultural, influencia diretamente no desempenho escolar e nas chances de aprovação em vestibulares.
“É por isso que o sujeito rico continua pagando a escola particular, mesmo que ela também não dê conta do vestibular. Porque ali o filho agrega o capital cultural que a escola pública não tem condição de fornecer”, destaca Vitor .
Além das iniciativas voltadas para a educação básica e o acesso ao ensino superior, os cursos técnicos e profissionalizantes também se destacam como uma alternativa real para jovens e adultos da periferia de Bauru.
Instituições como o Colégio Técnico Industrial (CTI), vinculado à Unesp, a ETEC, mantida pelo Centro Paula Souza, e o recém-instalado Instituto Federal de São Paulo (IFSP) oferecem formações gratuitas e de qualidade, que vão desde o ensino médio técnico até cursos profissionalizantes e de nível superior.
Segundo o pedagogo Vitor Machado, essas instituições representam uma vantagem e um privilégio importante para o município, mas o acesso ainda é desafiador para moradores de bairros como do Jardim Nicéia. Muitos enfrentam dificuldades de deslocamento, falta de informação e até mesmo barreiras nos processos seletivos.
Ainda assim, esses cursos se consolidam como oportunidades concretas para jovens que precisam entrar mais rapidamente no mercado de trabalho, sem abrir mão da formação educacional — especialmente quando não é possível seguir diretamente para a universidade.
Para os moradores do Jardim Nicéia interessados em cursos técnicos ou profissionalizantes, o primeiro passo é ficar atento aos processos seletivos das instituições públicas de Bauru.
No caso da ETEC, as inscrições são feitas pelo site do Vestibulinho ETEC, que ocorre duas vezes ao ano e exige uma prova objetiva. Já o Instituto Federal de São Paulo (IFSP) abre editais próprios, com seleção por boletim escolar ou prova, a depender do curso. O CTI da Unesp também realiza processo seletivo anual, com alto número de candidatos.
ESCOLA DE PROFISSÕES DE BAURU
Embora todas essas instituições sejam gratuitas, muitos jovens da periferia enfrentam dificuldades de acesso à internet, de preparação adequada e até mesmo ao transporte para fazer a prova ou frequentar as aulas. Iniciativas locais e coletivos, como o Educação e Luta, têm tentado driblar essas barreiras com a divulgação de editais, apoio com inscrições e até arrecadação de fundos para cobrir o deslocamento dos estudantes aprovados.