A disputa entre produtos e serviços internos e externos ao bairro faz donos de negócio traçarem estratégias para manter o lucro
Cecília Ferreira, Isabela Nascimento, Isadora França e Maria Clara Alves

(Foto: Cecília Ferreira/Vozes do Nicéia).
Empreender significa ser a pessoa responsável por cuidar do próprio negócio e colocar a ‘mão na massa’ na hora de lidar com pessoas que variam dos fornecedores à clientela. No Jardim Nicéia, empreender é situação e escolha para se dedicar inteiramente às responsabilidades que vêm junto com cuidar de um negócio.
Ser empreendedor abre portas para aprendizados e a desconstrução de pré-conceitos para todos os envolvidos. Porém, quando se está preso à realidade concreta, o bolso fala mais alto: há aqueles que são seus próprios patrões para conseguir uma renda extra e empreendem por oportunidade; e outros que fazem do comércio o seu ganha pão, por necessidade, quando a pessoa não consegue retornar para o mercado de trabalho.
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostraram que o Brasil finalizou 2021 com cerca de 12 milhões de pessoas desempregadas. Nesse mesmo ano, um relatório publicado pelo Monitor Global do Empreendedorismo (GEM) divulgou que o ramo de pequenos empreendedores teve aumento de 48,9% no país.
Organizado pelo Centro de Liderança Pública (CLP), o Ranking de Competitividade dos Municípios mostrou Bauru na posição 95° na categoria ‘Inovação e dinamismo econômico’ em 2024, 22 posições acima em relação ao ano anterior. O comércio varejista vem crescendo no Jardim Nicéia nos últimos anos, ao mesmo tempo em que a competitividade de produtos e serviços aumenta, dentro e fora do bairro.

Com mercados a poucos minutos do Jardim Nicéia, como é o caso do Confiança Flex, os comerciantes sentem que não há possibilidade de competição direta com redes maiores. Os comércios tentam preencher os espaços que o supermercado não consegue, com a venda de produtos que acabam em horas de emergência, como bebidas, comidas e materiais escolares. Nesses momentos, a distância dos negócios dentro do Nicéia se torna importante.
Andressa Correia, dona da Mercearia A&M, na rua 5 ou rua Dolores Fernandes Balderrama, contou que abriu o comércio com o marido a fim de beneficiar a comunidade. “A gente sempre viu a dificuldade de alguns moradores acharem as coisas no Nicéia, ou o preço ser muito mais caro, então fica inviável. Mesmo com o Confiança, às vezes fica meio longe”, relata.
A empreendedora afirmou que a decisão de abrir a loja partiu da oportunidade de ter uma renda alternativa e que ela já tinha um negócio com o seu parceiro. “Aqui é a minha segunda opção, então a gente não aumenta o preço lá em cima. Temos uma margem de lucro pequena, mas para o benefício dos moradores”, conta.
Mesmo com a presença de mercados maiores, Andressa não vê uma competição direta quando diz que “a influência é a diferença de preços”. Para ela, quando os valores não são tão distantes, os moradores preferem comprar na mercearia, em que o tempo de deslocamento é menor. “Os custos dos produtos são bem atrativos, porque a gente pega um fornecedor mais barato e consegue brigar ali com o preço do Confiança”, complementa a empreendedora.

Por outro lado, para Alexandre Godoy, dono da mercearia Compre Fácil, na Rua Dolores Fernandes Balderrama, a competição com os grandes mercados é mais visível. “A desvantagem é muito grande. Eles são uma rede de mercados; eu sou pequeno, sou um grão de areia perto deles”, diz. O empreendedor ressalta que as redes de mercados têm estoques e centros de distribuição, enquanto ele trabalha com o que tem: “vendeu, acabou, eu vou e busco no mercado para trabalhar”.
Alexandre destaca, assim como Andressa, que seu mercado atende à necessidade das pessoas do bairro, ao afirmar que “o pessoal que só quer um pote de café não vai se deslocar daqui para ir em algum atacadista buscar um item só”.
Jacir Oliveira é dono do sacolão Jardim Nicéia, recém inaugurado na rua 2, ou rua Sérgio Arcângelo. Com um ar descontraído e também esperançoso com o crescimento do comércio no Jardim Nicéia, o técnico afirma que o seu serviço é um ‘socorro’ para os moradores do bairro, ao comentar que “às vezes, os moradores não têm tempo, então vêm aqui por estar mais próximo”.
Em conversa com a equipe do jornal Vozes do Nicéia, Andressa sente que o trajeto até sua mercearia, ainda que pequeno, influencia no movimento quando diz que “as pessoas que moram mais para baixo nem sabem que tem a mercearia aqui em cima”. Com a expansão do número de comércios e prestadores de serviços no bairro, ela acredita que cada morador compra no estabelecimento que estiver mais próximo.
Alexandre também destacou os clientes fiéis que frequentam seu comércio e como algumas pessoas simplesmente chegam e compram, dependendo da demanda. Ele adiciona que “as pessoas nem querem comprar aqui, mas por não ter algum item em outro local, eles acabam comprando”.
Público-alvo das lojas
Imagine estar cozinhando o almoço para a família e notar que o óleo para fritar a mistura acabou… Se um morador do Jardim Nicéia quiser ir ao mercado, por mais apressado que esteja, demorará, pelo menos, 22 minutos para chegar até o Confiança Flex, considerado o mais ‘perto’ do bairro – localizado a 1,6km de distância.

A fim de atender esse público mais afastado do centro de Bauru, os comerciantes do bairro têm como público-alvo os próprios moradores, como afirma Andressa. “Nosso público é geral; a gente trabalha até com crianças. Também tem aquele ‘socorro’ para a dona de casa, que faltou uma massa de tomate, um macarrão para fazer o almoço rápido e prático. [A mercearia] é mais para o bairro”.
Apesar disso, alguns comércios da região também realizam o serviço de delivery para o restante de Bauru, como a Padaria Pão da Vida, onde Bruna ajuda sua mãe no dia a dia do empreendimento e lá, as marmitas do almoço são os produtos mais vendidos para a grande Bauru.
Na mercearia da Andressa, já foram realizadas até mesmo entregas de café. “Já tive também entregas para fora, principalmente de café, que estava presente na promoção (da loja)”.
Em geral, os comércios do bairro são reconhecidos pela população e pelos próprios empreendedores como um ‘socorro’. Jacir também sabe bem como isso funciona: “os moradores aqui, às vezes, não tem tempo de subir lá em cima. Eles vêm aqui [e são] socorridos por nós, que estamos perto”, compartilha.
Competitividade no bairro
Como alguém que vive do varejo no Jardim Nicéia, Alexandre explica que sua principal estratégia é trabalhar com preços baixos. “Eu trabalho com giro. Se eu ganhar 10 centavos em cada mercadoria, eu vou ganhar na quantidade de venda. Não adianta eu botar um preço para ganhar um ou dois reais em cada item, porque a venda fica parada”, conta. Segundo ele, as promoções são a principal ferramenta para manter a competitividade, mas reconhece que o bairro é pequeno para tantos comércios, o que aumenta a disputa.
Para Andressa, a realidade é parecida. “A gente vende bem mais na quantidade do que no preço em si. Nossa margem de lucro mesmo é de 10%, porque tem os gastos e o reinvestimento”, explica. As vendas nas proximidades do bairro influenciam, mas, em muitos casos, a diferença de preços não compensa. “Às vezes, a diferença é de dois, três reais, então a pessoa prefere vir aqui mesmo. A gente consegue pegar fornecedores mais baratos e brigar com o preço deles”, afirma.
Comércio novo na área, como é a divulgação?
A fim de se tornar mais atrativo para os moradores, os comerciantes da região usam o “boca a boca”, ou seja, é feita uma propaganda oral, de morador para morador sobre os comércios da região, além das promoções para a venda dos produtos. “A gente trabalha bastante com promoções e procura colocar o preço mais baixo possível para a gente poder ter uma venda”, compartilha Alexandre.
Andressa e Bruna são adeptas à divulgação boca a boca, mas também sabem da diferença que promoções pontuais podem fazer no comércio. “Aqui, fazemos promoções na hora do almoço, compre uma marmita e ganhe um refrigerante, ou coisa do tipo”, comenta Bruna, que vê a estratégia como uma forma de destaque.
Incentivos para os pequenos negócios
O incentivo ao crescimento de pequenas empresas é essencial, economicamente, para o município. O auxílio destinado aos microempresários ajuda a estimular a economia local, beneficiando à própria cidade. Contudo, os pequenos comerciantes sentem falta de um suporte oferecido pela prefeitura de Bauru.
Alexandre relatou que nunca teve auxílio público para desenvolver o seu negócio e não sabia as formas que esse incentivo poderia chegar até ele. “Assim, eu não sei nem como funcionaria essa assistência, em qualquer forma que seja. Não tenho nem ideia do que eles poderiam fazer, na verdade”. Essa visão não é exclusiva dele, muitos comerciantes não sabem sobre serviços promovidos pela prefeitura, principalmente os empreendedores de bairros afastados do centro.
Jurandir Posca, secretário da Sedecon (Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico, Turismo e Renda), informa que existem projetos de apoio e incentivos financeiros na cidade. Além dos cursos de profissionalização, a prefeitura também fornece um apoio financeiro a pequenas empresas pela Casa do Empreendedor, que é vinculada ao Banco do Povo Paulista e concede linhas de créditos para que os microempreendedores melhorem seus negócios.
“A secretária realiza, com frequência, cursos de capacitação gratuitos para toda a população. Por meio da Casa do Empreendedor, são realizadas atividades para microempreendedores, como oficinas de gestão, controle de gastos e orientações para os MEIs”. Ele complementa contando sobre o Sedecon Móvel, veículo que presta serviços aos pequenos negócios e realiza ações nos bairros de Bauru.
Sobre os projetos da Sedecon exclusivos para o bairro, Posca diz que os “empreendedores têm sido beneficiados com várias ações” e complementa: “de forma indireta, beneficiam o comércio local obras de drenagem, pavimentação e recuperação de espaços públicos. Diretamente para o comércio, a Casa do Empreendedor realiza serviços gratuitos, cursos de inclusão digital e capacitação”. Ele finaliza dizendo que se o bairro tem uma demanda específica, a secretária está à disposição para oferecer atividades.
Atualmente, o serviço mais famoso que auxilia os comerciantes é o Sebrae. A instituição é uma das alternativas mais conhecidas e prestigiadas nesse ramo. Eles promovem o desenvolvimento de empreendimentos e micro empresas pelo país inteiro. Além disso, o site compartilha informações para a criação de novos negócios, cursos profissionalizantes e ajuda para crescer financeiramente.
Outro órgão que oferece amparo é o SENAI: uma entidade sem fins lucrativos, que tem o foco na formação profissional industrial, mas também oferta cursos voltados às gestões de empresas para novos empreendedores.
(Tabela: Isabela Nascimento/Vozes do Nicéia)
Dificuldades no acesso às capacitações e oficinas ao bairro
Ainda que existam auxílios públicos aos empreendedores, eles acabam escolhendo a ajuda de instituições privadas. Além dessas empresas já serem conhecidas, há uma promoção maior de serviços em lugares públicos e onlines, sem contar a facilidade de achar as informações em suas redes e em realizar as inscrições nos cursos.
Ao mesmo tempo, não há como ignorar a falta de divulgação das capacitações da prefeitura e dos apoios oferecidos gratuitamente. As assistências são realizadas apenas na sede da Sedecon, na avenida Duque de Caxias. Isso é um grande obstáculo para os moradores do bairro, que têm dificuldade em locomoção para outras partes de Bauru.
É importante lembrar que os pequenos empreendedores não têm tempo, uma vez que precisariam fechar em dias úteis para poder se locomover e se profissionalizar, prejudicando o seu lucro no final do mês.
Andressa comenta que seria bom se a prefeitura promovesse esses auxílios dentro do bairro. “Seria bem interessante, porque as pessoas não teriam que se deslocar para outro lugar”.
Quais são as diferenças entre MEI, ME e EPP?
MEI, ME e EPP são siglas para se referir às categorias de microempreendedor individual, microempresa e empresa de pequeno porte, nessa ordem.
Dados mostram que, em 2020, Bauru possuía cerca de 33 mil microempreendedores individuais formalizados e 21 mil microempresas e empresas de pequeno porte. No campo do microempreendedorismo individual, em 2024, a cidade registrou 1.746 novos estabelecimentos — o que representa uma queda de mais de 65% em comparação com o ano anterior —, como mostra o gráfico.
Conforme o www.gov.br, é considerado microempreendedor individual aquele que trabalha como pequeno empresário e, com a formalização, recebe benefícios que facilitam a prosperidade da empresa.
Já a microempresa obtém o lucro de uma receita bruta anual de até R$360.000,00, enquanto uma EPP é aquela que obtém receita bruta anual superior a R$360.000,00 e igual ou inferior a R$4.800.000,00. Para entender mais sobre o assunto, fique atento aos vídeos que serão postados nas redes sociais do jornal Vozes do Nicéia.
Desde a pandemia, o setor varejista de Bauru — que teve queda no número de pessoas empregadas de 2019 para 2020 — tem crescido. Quanto ao movimento de varejo, para Ivan Silva, proprietário do Bar do Corinthians, na rua Manoel Hermano da Silva, a pandemia teve impactos visíveis no seu comércio.
Em seu ponto de vista, desde que chegou ao Jardim Nicéia, há mais de 25 anos, cada vez mais empreendedores têm surgido no bairro, em especial após o período de isolamento social entre os anos de 2020 e 2021.
Ele completa que o movimento do bar diminuiu conforme mais estabelecimentos que vendiam produtos parecidos com os seus começaram a abrir, e o lucro caiu cerca de 25%. Apesar da competitividade, a loja permanece como seu ganha pão.
Com uma expressão séria enquanto fala de seu trabalho, Ivan acredita que vender os produtos por um valor um pouco acima do que são comprados dá certo e é o que mantém sua margem de lucro.
Economia criativa: reinventar para empreender
Além do comércio tradicional e dos serviços essenciais, o Jardim Nicéia também abriga iniciativas que nascem da criatividade de seus moradores. Para o professor doutor Francisco Rolfsen Belda, pesquisador em mídia e tecnologia da UNESP, a economia criativa é justamente isso: atividades que transformam ideias e talentos locais em valor para a comunidade.
“Penso a economia criativa como atividades produtivas que utilizam criatividade, conhecimento e capital intelectual para gerar valor econômico, social e cultural para as comunidades, desde o nível hiperlocal até global. Isso envolve a articulação de ideias e talentos orientados à inovação e à cultura, especialmente em áreas como comunicação, design, artes, audiovisual, moda, tecnologia da informação, entre outras”, declara o pesquisador.
A economia criativa, como define o professor Belda, é feita de ideias e talentos locais. Muitas vezes, esses talentos surgem antes mesmo que seus donos saibam dar nome ao que fazem. É o caso de Maria Madalena das Dores Pereira, conhecida no bairro como ‘Dalva Abençoado’ — nome que hoje estampa a placa do pequeno bazar de roupas e costura que ela começou há cerca de oito anos, na casa de número 5-50 da rua Manoel Hermano da Silva, coração do Jardim Nicéia.
O bazar surgiu da necessidade, mas também do desejo de se manter ativa. Impedida por problemas de saúde de trabalhar fora, Dona Dalva decidiu abrir o pequeno negócio para ocupar a cabeça e porque o negócio a ajuda com um dinheirinho extra. A ideia ganhou forma quando um dos filhos construiu, ao lado da casa, o cômodo de madeira onde hoje funciona a loja.
Desde então, ela toca o negócio ao lado da filha, Lúcia, com atenção aos detalhes. Tudo é organizado com cuidado: peças dobradas, separadas por categoria e dispostas de modo acessível aos moradores do bairro, que são os principais clientes. “Se tem short, eles compram; se tem calça, eles compram; se tem um sapato que eles gostam, eles compram. Temos roupas para crianças e para adultos”, compartilha a moradora, que oferece roupas a preços reduzidos.
Além da revenda, Dona Dalva também costura à mão — prática que aprendeu sozinha ainda menina — e atende pedidos de ajustes, como barras, elásticos e zíperes, com agulha, linha e a ajuda dos óculos.
“Eu também costuro. Prego zíper em short, em calças… coloco elásticos. É assim que eu faço aqui”, conta. A moradora também começou a trançar tapetes com retalhos, uma atividade que pode levar mais de dez horas, dependendo do tamanho, e é feita com a mesma paciência e dedicação que investe em tudo o que sai de suas mãos.
Apesar do empenho e da organização, o bazar depende da solidariedade de quem pode cooperar. As roupas revendidas são, em grande parte, doações feitas por pessoas que optam por entregar peças que não usam mais. “Se tiver uma pessoa que vá descartar uma roupa, que não vai querer mais aquela usá-la… se a pessoa puder trazer aqui, a gente agradece muito. Calça de homem, que procuram muito para trabalhar; blusas de frio… o que a pessoa puder doar, a gente aceita”, diz Dona Dalva. Esse apoio da comunidade contribui para manter o bazar de pé, mas não elimina os desafios enfrentados no cotidiano.
Entre uma venda e outra, Dona Dalva também cuida da casa, lava roupas, prepara o almoço e mantém a rotina doméstica funcionando — tarefas que, apesar de exigirem tempo e dedicação, seguem sendo invisíveis e não remuneradas. O bazar, nesse contexto, é para além da renda extra, uma forma de reconhecimento, ainda que informal, de uma mulher que há décadas realiza trabalho produtivo dentro de casa sem que isso lhe fosse valorizado financeiramente.
A história da moradora reflete a realidade de muitas mulheres que empreendem por necessidade, conciliando as demandas do lar com a criação de pequenos negócios — e encontrando, na economia criativa, uma possibilidade de visibilidade e resistência, mesmo diante de tantas limitações estruturais.
Mas Dona Dalva não é a única que lança mão do talento e da persistência para contornar as necessidades que a cercam. A poucos metros dali, na praça central do Jardim Nicéia, outro exemplo de criatividade e iniciativa ganha forma entre tesouras, navalhas e conversas de fim de tarde: é o caso de Diego Silva Santos Oryan, barbeiro e dono da D.S. Cortes, que construiu seu negócio com as próprias mãos e inspira outros jovens da comunidade.
Aos 15 anos, depois de cortar o cabelo do irmão e dos amigos, Diego percebeu que havia ali uma possibilidade de profissão. Incentivado pelo pai, comprou uma cadeira simples e começou a cobrar cinco reais por corte. De lá para cá, profissionalizou-se, abriu a própria barbearia e segue dedicado exclusivamente ao negócio. O desejo de independência foi o que mais o motivou a investir na carreira.
“A ideia de montar o meu próprio salão veio da vontade de crescer na profissão e de ter algo meu. Eu já trabalhava como barbeiro na minha casa e queria um espaço onde pudesse atender a à vontade e do meu jeito, com qualidade e atenção aos detalhes. Então decidi começar, mesmo sem muitos recursos”, afirma o barbeiro, para quem empreender é também afirmar sua liberdade e confiança no próprio talento.
O exemplo de Diego também tem inspirado outros jovens do Jardim Nicéia a seguirem caminhos semelhantes. Um tempo após abrir a barbearia, ele passou a contar com a ajuda de Nickolas — um parceiro que viu ali a chance de aprender e crescer profissionalmente. “Quando o Nickolas chegou, eu me dediquei a ensinar a ele tudo que eu sabia. Vi que, em um mês, ele já estava apto a trabalhar como barbeiro. Assim, o coloquei para trabalhar comigo”, conta o empreendedor, orgulhoso de poder repassar o que aprendeu.
Com espírito visionário, Diego já traça novos caminhos para o futuro. Inspirado por David — antigo barbeiro do bairro que se mudou para o Geisel e expandiu seus negócios — ele também seguiu sonhando alto. Além de ensinar o ofício a Nickolas, com quem passou a dividir a rotina no salão, Diego já abriu um novo ponto comercial: “Graças ao bom Deus, abri a segunda unidade no Jardim Carolina. A D.S. Cortes está crescendo!”, comemora o profissional, que hoje se encontra formalizado como microempreendedor individual.
A criatividade como potência coletiva
A barbearia de Diego e o ateliê de Dona Dalva são modelos que apontam como o empreendedorismo, quando nasce da experiência e do afeto com a comunidade, pode também ser uma expressão de criatividade.
Essa perspectiva é mencionada por Juliano Maurício de Carvalho, professor da Universidade Estadual Paulista (UNESP) e pesquisador das relações entre mídia, criatividade e políticas culturais. Para ele, o diálogo entre a economia criativa e formas de empreendedorismo popular — como costura, brechós e venda de alimentos caseiros — passa por reconhecer o valor econômico e simbólico dessas práticas.
De acordo com ele, é importante que os setores criativos, artísticos, populares, tenham em mente que todo modo de produção pode ser precificado e organizado com algum nível de mercantilização, e complementa: “se isso estiver acompanhado por uma governança da comunidade, se tiver acompanhado de um espírito de organização de rede social, irá fortalecer a ideia de uma economia que valoriza a criatividade”.
Ainda segundo Juliano, um dos principais problemas para o fortalecimento de iniciativas criativas em bairros periféricos é a ausência de apoio técnico e estrutural ao pequeno empreendedor. Ele aponta que, muitas vezes, quem trabalha com cultura ou ofícios criativos não tem acesso a conhecimentos básicos sobre gestão, formas de divulgação, digitalização do serviço ou plataformas de pagamento — ferramentas essenciais para expandir e consolidar um negócio.
“Tudo isso acaba influindo na maneira que você instrumentaliza o negócio local”, afirma. A falta de preparo e assessoria específica pode limitar o crescimento desses empreendimentos, mesmo quando eles têm grande potencial de impacto cultural e econômico dentro da comunidade.
Além dos desafios internos à própria comunidade, como a falta de reconhecimento do valor cultural local ou a ausência de redes de apoio, o fortalecimento da economia criativa em territórios periféricos também esbarra em obstáculos estruturais. Para Belda, a escassez de políticas públicas voltadas especificamente para esse setor é um dos principais obstáculos.
“Os principais entraves incluem a falta de acesso a crédito, dificuldades de formalização, carência de formação em gestão e comunicação, além da insuficiência ou até mesmo a ausência de políticas públicas específicas para fomentar a economia criativa em territórios periféricos”, afirma Belda.
Ele destaca ainda que o acesso limitado à tecnologia intensifica essas desigualdades, sobretudo em um cenário cada vez mais digital. Nesse contexto, iniciativas como projetos de extensão universitária, oficinas e assessorias técnicas podem cumprir um papel estratégico, mas ainda insuficiente frente à necessidade de políticas públicas estruturantes.
O apartheid do empreendedorismo periférico
Na contramão do discurso que enaltece o ‘empreendedorismo de periferia’ como sinal de resiliência e inovação, o professor Juarez Tadeu de Paula Xavier, Diretor da Faculdade de Arquitetura, Artes, Comunicação e Design (FAAC) da UNESP, pesquisador e ativista antirracista, propõe uma leitura mais atenta — e mais dura. Para ele, o que costuma ser apresentado como empreendedorismo, em muitos casos, é, na verdade, uma economia da sobrevivência.
“Nos estudos que eu faço, eu chamo isso de economia criativa subalterna. Ela está subalternizada a uma situação econômica e política social que não dá a ela alternativas e opções. Quando você pega os dados sobre esse empreendedorismo, são [dados] de sobrevivência”, diz.
A crítica ganha força quando confrontada com a realidade social. Nos discursos oficiais e na cobertura midiática, o termo ‘empreendedorismo’ aparece frequentemente como uma forma de suavizar as duras condições de vida enfrentadas por moradores de periferias urbanas. Xavier contesta essa visão, lembrando que o verdadeiro empreendedorismo só ocorre quando há liberdade de escolha e condições estruturais que sustentam a iniciativa.
Quando uma pessoa empreende porque foi excluída do mercado de trabalho formal, porque não tem acesso a financiamento ou sequer possui documentação básica, estamos diante de um outro fenômeno — um que revela a deficiência do Estado e de seus dispositivos de inclusão, e não uma história de sucesso individual.
Isso porque, mesmo quando o desejo de empreender existe, o caminho é atravessado por barreiras quase insuperáveis. Para muitas pessoas que vivem em contextos de vulnerabilidade, faltam, para além do capital financeiro e acesso a crédito, algo ainda mais básico: documentação, endereço fixo, internet estável ou conhecimento técnico e jurídico para formalizar um negócio.
A ausência de políticas públicas eficazes que garantam acesso a serviços bancários, editais de estímulo, capacitação ou infraestrutura transforma o ato de empreender em uma luta desigual. Como aponta o professor Juarez, não se trata apenas da ausência de oportunidades, mas da presença ativa de um sistema que exclui.
“Você tem uma segregação econômica relativa ao acesso das pessoas a esse processo. Toda a lógica do sistema fortalece os mecanismos do ‘apartheid’, da segregação dessa população”, frisa.
Políticas públicas e o direito de empreender
É justamente nesse ponto que se evidencia a urgência de políticas públicas voltadas à inclusão produtiva de populações periféricas. Segundo Juarez, não basta celebrar trajetórias individuais de superação sem enfrentar as estruturas que perpetuam a desigualdade.
Se o empreendedorismo exige liberdade, incentivo e condições equitativas de partida, então é dever do Estado garantir que essa liberdade seja mais que um discurso. A crítica ao uso vazio do termo ‘empreendedor’ não significa recusar a potência criativa das periferias — pelo contrário, significa exigir que essa potência seja reconhecida, protegida e impulsionada por políticas que levem em conta a realidade concreta dessas vidas.
Classificado: tenha comércios do Jardim Nicéia a um clique de distância
É dono de negócio ou presta serviços gerais no bairro para ter uma fonte de renda extra?
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