Jardim Nicéia resiste e transforma o bairro com fé e solidariedade

Moradores promovem ações comunitárias, enquanto políticas públicas tentam acompanhar as demandas da região 

Bruna Santini, Carolyna Bazanini, Sarah Galindo e Thalita Mutti

Andréia distribuindo pães (Foto por: Bruna Santini)

Em um cenário marcado por desigualdades sociais e ausência do Estado, a participação cidadã e as iniciativas comunitárias emergem como pilares fundamentais de resistência e transformação. No bairro Jardim Nicéia, moradores organizam cozinhas comunitárias, promovem aulas, distribuem alimentos e criam espaços de convivência — ações que vão além da assistência social e se afirmam como expressões de autonomia, pertencimento e protagonismo.

Essas experiências demonstram que cidadania não se resume ao voto ou à representação institucional. Ela se constrói no cotidiano, no engajamento direto pelas causas da dignidade e da justiça social.

Mapa com a localização das ações sociais realizadas no bairro.

A paróquia como ponto de apoio social

A Paróquia Sagrada Família, localizada no Jardim Nicéia, tem sido um importante ponto de articulação dessas ações sociais no bairro. Muito além das celebrações religiosas, a paróquia se consolidou como espaço de cuidado coletivo, onde a fé se traduz em práticas concretas de solidariedade e transformação social.

Hoje, a paróquia é muito mais do que um lugar de missa. Ela virou um ponto de apoio para quem mora no Nicéia. Um exemplo disso é a “Refeição Solidária”, que começou durante a pandemia e ajuda mais de 200 famílias até hoje, com comida feita por voluntários. A cada mês, os alimentos são doados pelos próprios paroquianos, a comida é preparada no salão da igreja e entregue com carinho para quem mais precisa. Inclusive, em 2025, a iniciativa completa quatro anos.

Outro projeto importante é a “Pastoral da Primeira Infância”, realizada por voluntários da Paróquia Santa Rita, em parceria com a Sagrado Coração. Eles acompanham mães e crianças pequenas, indo até as casas para dar orientações sobre alimentação e higiene, além de ensinar como aproveitar melhor os alimentos. É um trabalho feito com muito cuidado, que ajuda na saúde e no bem-estar das famílias.

Mensalmente, também acontece a “Celebração da Vida”. Os mesmos voluntários realizam a pesagem das crianças para acompanhar o desenvolvimento e identificar casos de desnutrição ou obesidade. Nessa ocasião, também são oferecidas palestras com profissionais da saúde e advogados, que trazem informações importantes sobre os direitos das famílias e a cidadania.

Capela São Francisco Xavier no Jardim Nicéia (Fonte: Instagram @sagradafamiliabauru)

Além dessas ações, a igreja também abre espaço para atividades que contribuem com o crescimento dos jovens da comunidade. É o caso das aulas de jiu-jitsu, que acontecem duas vezes por semana no salão da igreja. O que começou como uma turma pequena virou um projeto maior, por causa da grande procura. O esporte, além de cuidar da saúde física, ensina valores como disciplina, respeito e convivência. Para muitas crianças e adolescentes do bairro, é um momento de aprendizado, proteção e integração.

Outro destaque entre as ações é o “Bazar da Pechincha”, realizado duas vezes por ano. Roupas, calçados, utensílios e até móveis são doados por voluntários e vendidos por preços simbólicos, acessíveis para todos os moradores. Mais do que arrecadar fundos, o bazar fortalece os laços entre os moradores, e promove a partilha junto com o cuidado coletivo.

O responsável pelo território da Paróquia Sagrado Coração é o padre Anderson. Em entrevista ao Vozes do Nicéia, ele compartilhou com cuidado todas as informações sobre as ações sociais realizadas no bairro e fez questão de destacar que esse trabalho não é visto como uma obrigação. “Sempre foi um dever para nós, cristãos. A fé não é desvinculada da ação”, pontuou.

Durante a conversa, ele também falou sobre a importância da caridade e do gesto de repartir o pão, destacando o valor de estar ao lado de quem mais precisa. “Assim como Jesus pediu: amparar e acolher aqueles que passam por necessidades. Tudo isso é a vivência cristã”, afirmou.

As palavras do padre mostram que a solidariedade ali não é apenas um gesto pontual — é um modo de vida. Um compromisso com a justiça, a empatia e o cuidado com o outro. No Jardim Nicéia, a fé se transforma em presença — e a presença vira esperança.

A trajetória incansável de Andréia

Andréia de Oliveira (Foto: Bruna Santini/ Vozes do Nicéia)

Outro pilar fundamental da mobilização comunitária no Jardim Nicéia é Andréia de Oliveira, moradora do bairro desde 1995. Sua atuação em projetos sociais começou aos 15 anos, após perder a mãe e se ver responsável pelos seis irmãos mais novos. Desde então, ela esteve envolvida em ações voltadas à segurança alimentar e ao apoio a famílias vulneráveis, como creches, doações e cozinhas comunitárias.

Entre os projetos mais impactantes está a cozinha comunitária que Andréia ajudou a criar. Mesmo sem estrutura completa, as refeições começaram a ser distribuídas todas as sextas-feiras e atendia cerca de 300 famílias por semana com o apoio de pessoas como Seu Vando e o vereador Markinho Souza (PSDB). No entanto, em 2021, um incêndio destruiu o espaço. Desde então, ela luta para reconstruí-lo, mas enfrenta dificuldades financeiras. “Até hoje tem gente batendo na minha porta perguntando quando vou voltar”, conta.

Andréia também esteve envolvida na doação de legumes, hoje suspensa, e critica a pouca atuação do poder público. “Tem muita igreja aqui, mas poucas se envolvem. E da prefeitura, praticamente nada.”

Atualmente, ela participa do projeto Fração de Pães, que há oito anos distribui 300 pães por semana com doações da Paróquia São Cristóvão, no Jardim Europa. “Cada família recebe cinco pães. As pessoas já ficam esperando o dia da entrega”, relata.

Ela conta que o projeto começou ligado à creche do bairro: “Os pães eram entregues pelas professoras, que colocavam nas sacolinhas dos alunos. Mas começou a ficar difícil, muitas mães não mandavam a sacolinha e as professoras ficavam sem saber o que fazer”, explica. Foi nesse cenário que Andréia surgiu como solução.

Conhecida no bairro por participar de outros projetos, a creche decidiu chamar Andréia para ajudar com a partilha dos pães. Ela era responsável pela distribuição de metade, porém, após 3 anos, a creche parou com a entrega. Motivada a não deixar o projeto acabar, Andréia conversou com a organização e até hoje entrega todos os pães.

O impacto do projeto é visível não apenas para quem recebe, mas também na motivação de quem faz. “Eu gosto muito de ajudar. Tem muita gente que não consegue comprar pão todo dia, porque está caro. As famílias têm muitas crianças, então faz diferença. Eu fico bastante alegre em poder contribuir”, diz Andréia.  

Os moradores, por sua vez, expressam satisfação e gratidão pelas ações que ela realiza, destacando como suas iniciativas fazem a diferença e ajudam verdadeiramente a comunidade.

Mesmo diante da sobrecarga e da falta de reconhecimento, ela segue firme. “Eu gosto do que faço. É cansativo, mas é necessário. E enquanto eu puder, vou continuar ajudando.”

Andréia durante a entrega de pães (Foto por: Bruna Santini)

O papel do poder público: CRAS e Conselho Tutelar

Se por um lado a força comunitária sustenta o cotidiano no Nicéia, por outro, a atuação do poder público ainda é fundamental para garantir direitos básicos e fortalecer essas redes de cuidado.

Em meio à vulnerabilidade econômica e à localização desfavorável pela distância, é necessário manter o apoio por parte do poder público, com a realização de atividades que atendam às queixas e contribuam para tornar o bairro Jardim Nicéia cada vez mais digno de se habitar. Em entrevista com o ex-presidente do Conselho Tutelar 1 de Bauru, Casemiro Neto, e com Natália Charnoz, psicóloga e funcionária do CRAS Jardim Europa, foi discutido como a atuação do poder público e das instituições favorece melhorias na vida dos moradores e também fortalece o sentimento de pertencimento ao bairro.

Em conversa com Natália, ela destacou as principais atividades do CRAS na vida dos cidadãos e explicou que a unidade é a porta de entrada do SUAS (Sistema Único de Assistência Social), atuando na prevenção de vulnerabilidades e no acesso a direitos sociais. O serviço realiza orientações, acompanhamentos e atendimentos tanto no local quanto de forma descentralizada. Ela citou também o Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos, que atende crianças e adolescentes de 6 a 15 anos no contraturno escolar, oferecendo alimentação e atividades. Além disso, a parceria com o Wise Madness inclui transporte, a partir do parque localizado na Rua Quatro, para facilitar o acesso dos atendidos.

Localização da Sede do CRAS Europa  Fonte: Secretaria Municipal do Bem Estar Social – SEBES / Sear, 2020.

Além dos atendimentos individuais, o CRAS promove grupos coletivos temáticos, como com mães solo ou idosos em situação de vulnerabilidade. Esses encontros estão sendo retomados após um período de interrupção causado por falta de equipe e espaço físico. No Nicéia, os atendimentos ocorriam na Capela São Francisco Xavier.

“A gente pensou, nesse ano, em retomar esses programas descentralizados ali no Nicéia. Eu tô indo lá quinzenalmente pra conhecer as pessoas e fortalecer o vínculo, porque a ideia é voltar com os coletivos, principalmente com as mães, que são muitas lá.”, afirma a psicóloga.

Ao ser questionada sobre os principais desafios enfrentados no Centro de Referência da Assistência Social, Natália menciona a escassez de funcionários, a limitação do espaço físico, a dependência do motorista da prefeitura e a necessidade de usar locais improvisados, como a capela do bairro, para os atendimentos. Apesar das dificuldades, a equipe busca garantir presença constante no território.

Em relação à educação, Natália afirma que o CRAS não mantém ações contínuas com as escolas. A dinâmica ocorre em casos pontuais, como denúncias de violência ou quando há encaminhamentos do Conselho Tutelar. A ausência de articulação direta com as escolas tem causado prejuízos, como a perda de crianças para o serviço de convivência devido à ampliação da jornada escolar.

Por outro lado, Casemiro afirma que, atualmente, a falta de vagas em escolas para crianças do Ensino Fundamental não tem sido uma pauta recorrente, pois não têm surgido queixas. Ele relata que, em anos anteriores, havia reclamações sobre a oferta de vagas em creches, mas que a situação foi resolvida. O maior gargalo hoje está na transição para o Ensino Médio, momento em que muitos jovens ingressam no mercado de trabalho como aprendizes e enfrentam dificuldades relacionadas ao deslocamento e à estrutura.

O ex-presidente do Conselho Tutelar esclarece que o órgão atua como garantidor de direitos, e não como executor direto de serviços. Sua função é intermediar soluções junto a outros órgãos, mas essa atuação esbarra em limitações, como a alta demanda e o número insuficiente de conselhos na cidade. Segundo ele, Bauru, com sua população atual, deveria ter ao menos quatro conselhos tutelares, mas atualmente conta com apenas dois, e há um processo em andamento para a criação do terceiro.

Casemiro também destaca os avanços do bairro em infraestrutura, como pavimentação, regularização fundiária e maior acesso à educação infantil. No entanto, ainda existem desafios como o acesso limitado a serviços sociais e de saúde, ausência de um CRAS no próprio bairro e a distância até escolas de Ensino Fundamental II.

“O desafio, para mim, seria esse: um CRAS mais próximo, uma escola mais próxima, […] porque apesar do bairro ter melhorado, ainda precisa de acessos melhores.”, afirma Casemiro.

Na entrevista, Casemiro enfatiza que o Jardim Nicéia já teve uma liderança comunitária mais atuante, mas atualmente há um vácuo nessa representação. Para ele, o fortalecimento das iniciativas comunitárias está diretamente ligado à presença de lideranças locais que possam fazer a ponte com o poder público. Ele, que atuou no bairro por cerca de dez anos, afirma conhecer cada espaço da região e reconhece uma melhora significativa no local ao longo do tempo.

Um movimento que persiste apesar dos desafios

Apesar dos avanços e da força comunitária, os desafios persistem. A falta de apoio governamental, o descaso com espaços públicos e a presença de problemas sociais ainda dificultam a expansão dessas ações. “A prefeitura precisa olhar com mais atenção para a infância, principalmente na periferia”, alerta Juliano Francisquini, morador do bairro.

Ainda assim, a esperança se renova a cada domingo, a cada prato de comida servido, a cada pão entregue. O que move esses voluntários não é apenas a fé religiosa, mas a fé na humanidade. “Não tem a ver com religião, tem a ver com humanidade”, resume Juliano. “Se até os animais têm protegido uns aos outros, por que nós, humanos, não conseguimos fazer o mesmo?”

A união, a empatia e a persistência demonstradas no Jardim Nicéia são prova viva de que é possível criar espaços seguros onde a mobilização social floresça e os laços comunitários se fortaleçam. No fim das contas, construir redes de cuidado e apoio mútuo é o que mantém viva a esperança de uma sociedade mais justa e humanitária.

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