Plataformas ganham espaço nas redes sociais e se integram à rotina dos brasileiros
Por Beatriz Marrancone, Poliana Barros, Samara Brito e Vinícios Cotrim

O número de casas de apostas online, conhecidas como bets, mais do que dobrou no Brasil entre 2022 e 2024, saltando de 840 para mais de 2.100 plataformas registradas. Os dados são do estudo “CNPJs do Brasil”, realizado pela datatech BigDataCorp. A tendência é de expansão em 2025, com mais de 1.200 novas empresas previstas no segmento — o que representaria um crescimento de 61,52% em relação ao ano anterior.
O avanço das bets e sua presença constante nas redes sociais, especialmente por meio de influenciadores digitais, têm contribuído para a popularização do jogo online no país e, junto com isso, crescem também os relatos de pessoas afetadas por comportamentos compulsivos.
Ivan Tavares, morador da antiga rua 5,já viveu isso na prática. Ele conta que se envolveu com apostas online, mas decidiu parar depois de sucessivas perdas. “Eu já apostei, mas perdi e parei. Esse negócio vicia mesmo. Naquela ansiedade de ganhar, a pessoa perde e quer recuperar, aí acaba perdendo mais ainda”, relata.
Ivan conheceu as plataformas por meio da internet, impulsionado por influenciadores e conhecidos do bairro. “Foi uma vizinha que começou a compartilhar os links. E às vezes aparece no Facebook também, aí a pessoa acaba entrando”, diz.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o vício em jogos tem nome: ludopatia. Trata-se de uma condição que provoca um desejo incontrolável de jogar ou apostar, impulsionado pela sensação de recompensa que a prática ativa no cérebro.
O psicólogo Kennedy de Oliveira, especialista em ajudar pessoas com comportamentos compulsivos, afirma que muitas pessoas desconhecem o termo clínico para o vício em jogos. Ele alerta que, ao invés de conscientizar sobre os riscos, o discurso predominante minimiza o problema, promovendo a ideia de que apostar “não faz mal” e é apenas uma diversão.
Normalização do vício em apostas
As apostas online têm se infiltrado de forma silenciosa e estratégica nos momentos de lazer das pessoas, especialmente por meio do esporte e das redes sociais, tornando-se parte do cotidiano até mesmo de quem não aposta. Márcio Aparecido, morador do Jardim Nicéia e fã de futebol, relata que já não consegue mais assistir a uma partida com tranquilidade. Mesmo sem nunca ter apostado, afirma que conheceu esse universo por meio do esporte: “Eu não entro nisso, mas fiquei sabendo através do futebol”.
Kennedy, que atua no tratamento de vícios, chama atenção para essa presença cada vez mais normalizada das casas de apostas como parte do lazer. “Hoje não existe mais um espaço ‘seguro’. É TV, YouTube, redes sociais, plataformas de streaming e etc. Estamos sendo estimulados o tempo todo”, afirma. Segundo ele, eventos esportivos de grande alcance, como a Copa do Mundo, tendem a intensificar esse processo, reforçando uma falsa ideia de diversão enquanto se naturaliza um comportamento compulsivo.
Além disso, o especialista explica que quanto mais propaganda de apostas a população é exposta, maior é a ativação do sistema de recompensa do cérebro, o mesmo que responde a outros estímulos prazerosos. “Toda vez que somos expostos a esse conteúdo, somos condicionados a buscar aquela sensação de prazer”, alerta. Segundo ele, as apostas têm sido tratadas como uma brincadeira, quando na verdade configuram uma dependência.
Kennedy destaca ainda a desonestidade presente na forma como a mídia e os influenciadores digitais promovem esse tipo de conteúdo. “Eles sabem que estão promovendo um vício que está destruindo vidas”. Para ele, o fato de as apostas serem facilmente acessíveis pelo celular torna ainda mais difícil que as pessoas consigam se proteger ou controlar o hábito.
A força dessa presença no esporte pode ser medida em números. Uma análise da DW Brasil revelou que, no Brasileirão de 2024, seis em cada dez propagandas exibidas nos estádios eram de casas de apostas. O percentual de placas de publicidade ao redor dos campos saltou de 28% em 2019, ano da legalização das apostas online no Brasil, para impressionantes 60% no final de 2024.
Na rodada final do Campeonato Brasileiro, cerca de 70% dos anúncios exibidos nas placas eram de empresas de apostas, um número 16 pontos percentuais maior que o segundo colocado, o campeonato da Colômbia, e mais que o dobro das principais ligas europeias, como a Série A da Itália e a Premier League da Inglaterra.
O impacto nas periferias
Nas periferias, onde o desemprego, a informalidade e a falta de opções de lazer são parte do cotidiano, as apostas online ganham cada vez mais espaço. Um levantamento do Instituto de Pesquisas Favela Diz, feito em setembro de 2024 com mais de 1.300 moradores, mostrou que 70% dos entrevistados já apostaram em bets, e quase metade disse que faz isso com frequência, quase todos os dias. A maioria são homens jovens, entre 18 e 34 anos. Somando tudo, os moradores dessas regiões movimentaram mais de 37 bilhões de reais em apostas no período de um ano.
Esse dinheiro deixa de circular dentro do próprio bairro. Mais da metade dos entrevistados afirmou que passou a gastar menos no comércio local, e 61% acreditam que as Bets têm ajudado a enfraquecer negócios como bares, mercadinhos e feiras. Em vez de fazer a economia girar, o dinheiro vai para plataformas digitais, muitas delas de fora do país.
Dados do Banco Central apontam que, entre junho de 2023 e junho de 2024, famílias de baixa renda comprometeram cerca de 22% da sua massa salarial com apostas. Só em agosto de 2024, cerca de 5 milhões de beneficiários do Bolsa Família enviaram, via Pix, 3 bilhões de reais para casas de apostas.
Um estudo feito pela Futuros Possíveis, em parceria com a Opinion Box e a Afro Esporte, mostra que a maioria dos apostadores no Brasil são jovens negros das classes C, D e E. Entre os mais de 5 milhões de jovens desempregados no país, 55% são pretos e pardos. O recorte revela que o problema vai além do vício: ele se mistura com desigualdade racial, falta de oportunidades e uma promessa constante de que apostar pode ser uma forma de “virar a vida”.
Na prática, o que se vê nas bordas das cidades é um cenário em que as apostas ocupam o lugar que o Estado deixou vazio. Em bairros onde faltam políticas de lazer, emprego e inclusão, o que começa como passatempo logo se transforma em vício. As promessas de ganho fácil acabam em endividamento. O ciclo se repete, afetando famílias inteiras. No lugar de alternativas concretas, multiplicam-se armadilhas que agravam a vulnerabilidade social.
