Entenda quais são os desafios para se localizar no bairro
Por Guilherme Dias, Letícia Aguilar, Helena Singillo, Maria Luisa Hardt Ishii e Flávia Gracinda

Receber compras online, pedir um carro por aplicativo ou até mesmo pedir comida. No nosso tempo a geolocalização é um recurso indispensável para todos mas, para muitos moradores do Jardim Nicéia, utilizar o próprio endereço para acessar esses serviços tem sido um desafio.
Com as identificações das ruas alteradas de números para nomes e com a ausência de uma sequência clara para os números das casas, muitos moradores têm se queixado na hora de receber encomendas, por exemplo.
A falta de organização afeta desde os comércios e empreendimentos, que não têm localização exata em serviços de mapas online, até as residências que não conseguem receber contas de luz, água e correspondências importantes.
Mas outras implicações desse problema podem ser ainda mais graves: como a dificuldade durante uma emergência hospitalar, já que as ambulâncias podem ter problemas para encontrar uma casa específica.
A necessidade de nomear ruas, praças e avenidas começou por volta do ano 4 mil antes de Cristo. Na época, e até hoje, essa é uma das formas de saber onde estamos e qual caminho seguir para chegar em outros locais.
A escolha do nome é feita na Câmara Municipal e ele pode ser sugerido por cidadãos, loteadores ou vereadores. Na Câmara, é feito um Projeto de Lei que precisa ser votado, aceito pelos vereadores e então aprovado pelo prefeito. Ainda que pareça simples, pode ser um processo burocrático que precisa respeitar algumas normas federais e até estaduais que contém algumas proibições, como o uso do nome de pessoas vivas; nomes de pessoas ligadas ao uso e defesa de mão de obra escrava, nome de pessoas ligadas a atividades criminosas e políticos condenados.
Em Bauru, é possível encontrar nomes de rua temáticos, por exemplo, no bairro Gasparini, os nomes das ruas são de profissões, no Jardim Terra Branca, as Américas são representadas. Os critérios para escolha geralmente incluem nomes de pessoas importantes para a cidade, datas ou fatos históricos. Para evitar que nomes de ruas e avenidas se repitam, há um cadastro com todos os logradouros já existentes.
No Jardim Nicéia, entretanto, a falta de sinalização nas ruas é um problema antigo. Após o asfaltamento do bairro, moradores alertaram que a circulação de pedestres estava perigosa pela ausência de sinais de trânsito. Os carros andavam em alta velocidade e as ruas não tinham sentido definido.
Eles inclusive relataram acidentes, com atropelamentos de animais e batidas de carro. Após questionamento, a prefeitura de Bauru incluiu em algumas ruas – como na André Luís dos Santos – pinturas de “PARE”, que ajudaram a amenizar esses problemas, mas outras ruas do bairro continuaram sem sinalização de trânsito ou placas que indicassem seus nomes.
Essa melhoria, porém, só foi feita após grande apelo ao Poder Público. As ações de infraestrutura urbana no Jardim Nicéia são raras e não acompanham o ritmo do bairro. Atualmente, uma confusão presente é quanto ao nome antigo das ruas. Não há registro oficial do novo nome e, enquanto alguns moradores usam os antigos – como “antiga rua dois” – outros preferem os novos: Rua Sérgio Arcângelo. Quando questionados sobre a mudança de nome, moradores afirmam não saber quando ela foi feita, mas ressaltam que é uma alteração antiga, embora nem todos tenham adotado até hoje.
A ausência de sinalização atrapalha também os empreendedores do bairro. Gleice Nonato, dona do Bazar Bela Moça, fala que eles frequentemente têm que divulgar o endereço por meio de pontos de referência, sem uma rua e um número definitivo. E isso afasta possíveis clientes de fora do Jd. Nicéia, que não conseguem achar as lojas que procuram.
“O pessoal acha assim, pelos comércios, pelos bares, pela praça, são os pontos de referência. Eu coloco a antiga Rua 6, próximo à empresa de ônibus, que daí as pessoas sabem achar, então a gente dá sempre um ponto de referência. O bazar Bela Moça, tem a plaquinha, porque o pessoal fica bem perdido”, nos conta Gleice.
Os problemas relacionados à geolocalização parecem ser mais frequentes nas ruas limítrofes do bairro. Os moradores que relataram problemas moram, respectivamente, na rua Manoel Hermano da Silva – antiga Rua 6 – e na rua Valdemar Ferreira dos Santos – antiga rua 1 -.
Por outro lado, moradores das ruas centrais e que rodeiam a praça do bairro afirmaram que não têm grandes preocupações quanto a isso. Ana Paula da Silva, moradora da Rua Sérgio Arcângelo (antiga rua 2) relatou que apesar do nome antigo da rua causar certa confusão, ela consegue receber suas encomendas e carros de aplicativo na sua porta.
“É, muitos conhecem como Sérgio Arcângelo, mas assim quando fala Sérgio Arcângelo, vai lá na empresa de ônibus (Grande Bauru). Aí dá um pouquinho de confusão, mas falando a antiga Rua 2, chega, certinho”, diz Ana Paula.
Outra confusão recorrente é na numeração das casas do bairro: elas não seguem um padrão. Quando o processo de regularização fundiária começou, moradores procuraram seguir o estilo de numeração de Bauru, mas encontraram dificuldades já que cada morador enumerava a própria casa sem necessariamente seguir o estilo pré estabelecido ou levar em conta o número das outras casas. Na Rua Dolores Fernandes Balderrama, particularmente, esse problema é muito visível, com três casas com o mesmo número.
“Têm pessoas que entregam e sofrem um pouco por causa dos números serem bagunçados. Reclamam, não acham facilmente. Aqui nessa rua tem três número 1-48”, comenta Ivan Tavares, morador da Rua Dolores Fernandes Balderrama.
Embora as ruas tenham sido nomeadas, elas ainda são reconhecidas pela numeração sequencial (Rua 1, Rua 2…, Rua 7). A identificação do bairro nos aplicativos mantém-se desorganizada, ocasionando em imprecisões nas entregas, nos aplicativos de transporte e serviços de localização via satélite.
