Conheça a história do jornal pelos depoimentos de quem o escreveu
Por Nathan Nunes, Giovanna Novaes, Beatriz Custódio, Willian Polix e Gabriel Almeida

Dezessete anos depois de sua criação, o Vozes do Nicéia chega a sua edição número cinquenta. Uma conquista tão notável não poderia deixar de trazer recordações sobre a história do jornal, principalmente para ex-membros e coordenadores.
Quem observa o Jardim Nicéia de fora pode ter a impressão que o bairro está isolado, devido a fatores como a espera pela regularização fundiária e um histórico de baixas condições de infraestrutura que residentes como Ernesto se lembram bem. “Antes, não tinha nem caminho, água, luz. Nada. Só mato. Quando eu vim pra cá, na vila de cima, só tinha meia dúzia de casas”, relata o atual morador da rua 3, presente no bairro há mais de quarenta anos.
Em meados de 2008, o bairro fazia parte de um fenômeno conhecido como ‘deserto de notícias’, ou seja, uma região onde a informação não chega. Para reverter a situação, o professor Ângelo Aranha pensou em criar um jornal comunitário impresso a partir do contato direto com os moradores que ensinasse aos estudantes de jornalismo que “o compromisso do jornalista é com o interesse público”. Foi assim que surgiu, no mesmo ano, o jornal então conhecido apenas como Voz do Nicéia.
A escolha pela publicação impressa foi feita pois, segundo Aranha, “as informações somente chegam ao público alvo se as levarmos até a casa dos leitores. A notícia impressa é um documento durável, capaz de gerar diálogos […] e incentivá-los a encontrarem soluções para os problemas em comum”, explica o professor.
A proposta de contato com os moradores foi, ao mesmo tempo, o maior desafio e diferencial do Vozes enquanto projeto jornalístico. Era um desafio, pois, segundo Aranha, os moradores não entendiam, a princípio, o objetivo dos estudantes. “Só com o tempo eles foram se acostumando com a presença dos alunos batendo de porta em porta e pedindo que sugerissem assuntos”, relembra Aranha.
Mas também era um diferencial, pois atraía cada vez mais membros novos e engajados como Milena Brito, que ingressou no Vozes imediatamente após entrar no curso de jornalismo da Unesp, em 2019. “O primeiro dia que eu ‘desci’ ao Nicéia me deu um choque tão grande, mas um choque positivo. Parecia que eu estava no meu próprio bairro. Andava por ali e pensava ‘esse é o jornalismo que eu quero fazer’”, disse a ex-editora chefe do jornal.
No mesmo ano, Milena acompanhou os moradores em diversas reuniões com o poder público de Bauru, o que a aproximou ainda mais da realidade vivida no bairro. “Fui à Câmara Municipal junto deles para esclarecer sobre o asfaltamento da rua 6 e o que seria feito com as pessoas que moravam ali. […] Não tivemos muito retorno naquele momento, mas mostramos que a população do Nicéia estava ligada nos acontecimentos”, relata Milena.
A oportunidade de fazer um jornalismo social também trouxe ao Vozes a então estudante Beatriz Oliveira, no ano de 2020. Ela conta que as pautas do curso eram muito voltadas para São Paulo e cidades de fora, mas pouco para Bauru em si. “O Vozes vem na contramão disso. É um projeto mais ligado com a comunidade”, explica a ex-coordenadora do projeto.
Beatriz e Milena acompanharam o Vozes em um de seus momentos mais difíceis: a pandemia da Covid-19, que levou a maioria dos membros de volta para suas cidades. Beatriz foi uma das poucas que permaneceu em Bauru, juntamente com Gabriel Rezende. Os dois eram os únicos disponíveis para entrevistar os moradores de forma presencial e coletarem as notícias para “alimentar” o projeto por meio das redes sociais.
“Foi uma época confusa em que o jornal produzia muito, mas não necessariamente chegava às pessoas. […] Nós estávamos falando com os mesmos moradores. […] E, também, eram poucas pessoas dentro do projeto. Engajar nessa situação é muito difícil”, relembra Beatriz.
Na mesma época, o Vozes do Nicéia também perdeu o vínculo de extensão com a UNESP, ou seja, não havia professor para coordenar os estudantes, muito menos recursos para manter ativas as publicações impressas. Julie Anne de Sá ingressou no Vozes em 2021 e lembra bem desse triste contexto que o jornal se encontrava.
“Com essa perda [do vínculo], o projeto também perdia a credibilidade dentro do espaço acadêmico. Para um jornal que está buscando visibilizar narrativas periféricas, isso diz muito”, disse a ex-coordenadora do núcleo de audiovisual.
O que motivou a entrada de Julie Anne no Vozes foi uma sensação de pertencimento que, segundo ela, não se encontrava em outros projetos da Unesp. “Conhecer a faculdade tem muita relação com aquilo que você experiencia fora da sala de aula […] e o Vozes representa isso”.
“Foi nesse projeto que eu consegui ter uma troca com pessoas periféricas, numa perspectiva de valorização. Quando eu estava no bairro, trocando ideia com essas pessoas, elas não eram só fonte para as produções do jornal. Eu me via nelas e em muitos momentos percebi que elas se viam em mim”, relata Julie Anne.
Memórias
Em entrevista para essa reportagem, cada uma das jornalistas compartilhou momentos marcantes de suas trajetórias no Vozes. Para Milena, foram as reuniões de pauta feitas na praça.
“Tinha vezes que a gente tentava reunir as pessoas para falar sobre temas importantes e não aparecia ninguém, só alguns moradores. A gente sentava com eles no chão e conversava. Sentia que era um jornalismo utópico, uma união de pessoas por um bem maior. Fizemos até reuniões na pandemia para organizar sopa no frio, distribuir feijoada. Era como se o Nicéia fosse uma entidade viva”, disse Milena.
Para Beatriz, foi a realização de uma pesquisa de dados com os moradores. “Ficamos algumas semanas fazendo isso. A gente rodou o bairro todo. E foi muito legal,porque nessa pesquisa eles [os moradores] falavam ‘o jornal está vivo? Vocês existem?’. Sim, existimos. Conseguimos muita coisa com essa pesquisa. De dez moradores que antes tínhamos o contato do WhatsApp, agora tínhamos cem”, relembra Beatriz.
Já Julie Anne reconta com carinho um momento em que foi acolhida por uma moradora. “O nome dela é Dona Maria do Carmo. Estávamos passando por ela, cumprimentamos e começamos a conversar. Ela tinha um semblante de paz e serenidade, mesmo a vida dela sendo uma correria. Tinha passado por vários tratamentos de cânceres. […] Ela dizia que não tinha nascido ali [no bairro], mas ali era o lugar dela. Isso me tocou muito, pois acredito que o Vozes é também um lugar de pertencimento”, reconta Julie Anne.
“O potencial do projeto é esse: conseguir se comunicar com as pessoas e para as pessoas. Quando você faz isso, você não está somente produzindo para um veículo. Você está dando uma utilidade pessoal para aquilo, não no sentido de ‘mim pra mim’, mas no sentido das pessoas se verem naquela comunicação”, finaliza Julie Anne.
