Saiba onde e como conseguir tratamento e acolhimento psicológico em Bauru
Por Cecília Ferreira, Guilherme Siqueira e Gustavo Oliveira
A saúde mental pode ser um tabu na sociedade. Temas como depressão, suicídio e ansiedade são, muitas vezes, considerados desimportantes como se fossem “frescura”.

Em 1994, após o suicídio de Mike Emme, de 17 anos, nos Estados Unidos, muitas pessoas distribuíram cartões amarelos com a mensagem: “Se você precisar, peça ajuda”. A cor dos cartões faz referência ao Mustang Amarelo, carro o qual Mike possuía, e virou a cor símbolo da campanha de Setembro. O dia 10 foi instituído como Dia Internacional de Combate ao Suicídio pela Organização Mundial da Saúde.
O Setembro Amarelo reforça a necessidade de criar e ampliar espaços de diálogo sobre a prevenção do suicídio e os cuidados com a saúde mental. Apesar de moradores do Jardim Nicéia apontarem avanços no atendimento público para essa questão, ainda existe a falta de informação e humanização.
No Núcleo de Saúde Jardim Europa, referência para o Jardim Nicéia, os atendimentos psicológicos começaram a ser oferecidos em 2024. Para ter acesso ao serviço, o morador passa primeiro por uma consulta com a equipe de saúde e, a partir dessa avaliação, seu nome é incluído em uma lista de espera para atendimento com o único psicólogo da unidade.
Apesar do serviço existir desde o ano passado, ele é pouco divulgado para os moradores, como comenta Bruna Marília da Silva, da Rua André Luís dos Santos. “Agora tem psicólogo direto lá no posto, mas eu não sei se o pessoal tem conhecimento. É um assunto que tem que ser falado”, afirma.
Bruna que já enfrentou depressão e, hoje, faz acompanhamento particular por não conseguir conciliar os horários do SUS. E seu filho, diagnosticado com TDAH e autismo, teve experiência com o atendimento público, mas não se sentiu acolhido. “Achei o atendimento frio e pouco humanizado. Nas faculdades, o trabalho é muito mais atencioso”, compara.
Para Nilma Dias, moradora da Rua Dolores Fernandes Balderramas, o posto atende bem nas áreas gerais de saúde, mas a oferta de serviços psicológicos e ações para saúde mental ainda é desconhecida.
Mesmo com dificuldades, a história de Nilma mostra que os moradores do Jardim Nicéia constroem uma rede de apoio informal – entre vizinhos, igrejas e familiares. O desafio agora é ampliar a divulgação, humanizar o atendimento público e transformar o cuidado em saúde mental em um direito visível e acessível para todos.
Clínicas universitárias como alternativa
Além do SUS, clínicas de universidades bauruenses oferecem acompanhamento psicológico gratuito. A instituição de ensino UNISAGRADO mantém clínica no Campus (Rua Irmã Arminda, 10-50), com plantão psicológico, atendimento individual, acompanhamento infantil e para casais e famílias.
O serviço funciona de segunda a sexta-feira, das 13h às 22h, e para garantir atendimento, basta comparecer na clínica da faculdade, no 2º andar do Bloco K, preencher a ficha de inscrição e realizar a triagem – que, caso necessário, encaminhará o participante para a intervenção psicoterápica.
Bruna conheceu o atendimento psicológico por acaso, ao procurar tratamento odontológico na faculdade para sua filha. “O trabalho é muito mais humanizado. Eles são super atenciosos, têm flexibilidade de horário”, conta.
A UNIP é outra instituição com trabalho semelhante. Lá, atende-se crianças, adolescentes, adultos e idosos no Jardim Marabá, de segunda a sexta-feira, das 14h às 22h, e aos sábados, das 9h às 12h, e para ser atendido é necessário agendar um horário e aguardar a chamada para atendimento. Além do Centro de Psicologia Aplicada da Unesp, no Jardim Colonial, que oferece acolhimento clínico e projetos em escolas e centros comunitários. O atendimento é gratuito e pode incluir subsídio de transporte para pessoas de baixa renda.

O tabu em torno da saúde mental
Falar sobre saúde mental na periferia ainda é um tabu. Por se tratar de uma condição “invisível”, muitas vezes é deixada de lado e seus sinais acabam sendo ignorados. No entanto, é fundamental compreender que, mesmo não sendo visível, ela é sentida e deve ser tratada como prioridade.
Segundo a psicóloga Nathalia Charlois Nogueira, profissional que atende no CRAS (Centros de Referência de Assistência Social) do Jardim Europa:
“Ainda existe quem considere a depressão uma “frescura”, mas ela precisa ser tratada como qualquer outro problema de saúde. Sempre uso o exemplo: quando alguém está gripado ou enfrenta uma doença como o câncer, todos dizem que é preciso se cuidar. A saúde mental, por não ser visível, muitas vezes não é compreendida como doença. A pessoa pode parecer bem, mas não está, e por isso também merece atenção e cuidados próximos”.
Cansaço excessivo, indisposição, perda de interesse e prazer, alterações no sono e apetite, dificuldade de concentração, sentimentos de inutilidade, desespero e até ideias de morte ou suicídio devem ser tratados com seriedade. É importante se atentar aos sinais, principalmente daqueles em nossa volta.
“Familiares e vizinhos podem ajudar ao perceber mudanças de comportamento, como quando alguém que costumava ser comunicativo passa a ficar mais quieto e isolado. O isolamento é um sinal importante, assim como a perda de interesse em atividades que antes eram prazerosas. Esses indícios podem mostrar que a pessoa não está bem e precisa de ajuda”, explica a psicóloga.
Em Bauru, existem serviços de apoio psicossocial que estão distribuídos por região: o CAPS AD (Centro de Apoio Psicossocial Álcool e Drogas), específico para questões relacionadas ao uso de álcool e drogas; os CAPS voltados à saúde mental em geral e o CAPS infantil (Centro de Apoio Psicossocial Infantil).
Para casos mais leves, as UBS (Unidades Básicas de Saúde) oferecem atendimento psicológico, onde é feita uma triagem com o médico generalista e encaminhado para especialistas, conforme a necessidade.
Quantas vezes você já ouviu ou mesmo disse: “Eu não sou louco! Não preciso de psicólogo!”. Esta é uma frase comum, muitas vezes dita sem conhecimento de que, procurar ajuda psicológica não é apenas para casos extremos, mas parte de um processo de cuidado com o corpo e da mente, conforme explica a psicóloga Nathalia Charlois Nogueira:
“Outro desafio é o preconceito de alguns usuários. Quando falamos sobre encaminhamento para CAPS, psiquiatra ou psicólogo, ainda há quem rejeite o atendimento por acreditar que “não é louco” ou que não precisa desse tipo de cuidado. Nessas situações, precisamos dialogar para desconstruir essa visão e mostrar que o acompanhamento em saúde mental é válido e necessário, sem estigmatizar a pessoa”.
Poder público
A crescente procura por atendimento psicossocial em Bauru tem colocado pressão sobre os serviços públicos e comunitários da cidade. A prefeitura reconhece que há uma demanda cada vez maior de pessoas em sofrimento psíquico, mas, apesar disso, não apresenta um plano estruturado para ampliar a rede de atendimento.
Até o momento, as ações tem sido pautada em parcerias pontuais com instituições privadas e comunitárias, como a Clínica Escola de Psicologia Aplicada (CEPAFIB), vinculada à FIB e à Secretaria Municipal de Saúde.
Entre as iniciativas destacadas pelo poder público estão as ligadas ao Setembro Amarelo, como a atividade “Acolher, escutar, cuidar”, realizada no dia 23 de Setembro, na Paróquia do Jardim Nicéia, e outra voltada a idosos, em data ainda não definida.
No entanto, as ações têm caráter temporário e localizado, sem indicar continuidade ou integração com uma política mais ampla de saúde mental voltada a jovens, famílias e escolas do município.
Questionada sobre a possibilidade de ampliar a rede de atendimento psicossocial nos próximos anos, a Prefeitura de Bauru, por meio da Assessoria de Imprensa e Comunicação, afirmou que “existe o processo de ampliação diante da crescente demanda de pessoas com sofrimento em saúde mental”.
Só que não apresentou detalhes sobre prazos ou diretrizes concretas para a contratação e expansão de psicólogos na rede de atenção primária. E se manteu, até o momento, dependente de ações pontuais para enfrentar o problema que cresce de forma contínua.
A importância de campanhas como a do Setembro Amarelo
As campanhas de conscientização sobre saúde mental, como o Setembro Amarelo, desempenham um papel essencial para ampliação do acesso à informação sobre o assunto. Segundo a psicóloga Nathalia Charlois Nogueira, que atua na assistência social em bairros periféricos de Bauru, o tema “suicídio” ainda é de difícil abordagem em qualquer contexto, e a resistência em falar sobre ele contribui para que informações não cheguem a quem mais precisa.
A profissional reforça que promover palestras e atividades dentro das comunidades cria espaços de diálogo seguros, aproximam moradores dos serviços públicos disponíveis e ajuda a reduzir preconceitos que cercam o assunto.
“Conversar com profissionais, por meio de palestras ou atividades dentro do Nicéia, por exemplo, permite que as pessoas se expressem em um ambiente seguro e fortalece a discussão sobre saúde mental, ajudando a quebrar preconceitos”, explica Nathalia.
Outro ponto central é a orientação à população sobre como agir em situações de crise. Em casos mais graves, a recomendação é acionar uma ambulância para atendimento imediato, mas também é fundamental que pessoas em sofrimento procurem ajuda nos serviços públicos de saúde, como as Unidades Básicas (UBS), os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) ou o CRAS.
“Além disso, conversar com alguém de confiança, como um familiar, fortalece a rede de apoio e facilita o acesso às soluções oferecidas pelos equipamentos públicos disponíveis no município”, finaliza a psicóloga.
A importância da preservação da saúde mental para ter uma qualidade de vida melhor é clara. Os moradores do jardim Nicéia que precisarem de ajuda podem acessar os serviços abaixo:
UBS Jardim Europa:
Rua Hermes Camargo Baptista, 1-64.
Horário de funcionamento: das 7h às 19h.
Telefone (14) 3227-7322
CRAS Jardim Europa
Rua: Carlos Del Plete, 11-16 – Jardim Europa
Horário de Atendimento: 7h30 às 12h – 13h às 16h30
Telefone: 3236-2565 / (14) 98187-2641
Centro de Atenção Psicossocial II Girassol – CAPS Girassol
Rua Gustavo Maciel, 14-50, Centro.
Horário de Funcionamento: Das 7h às 18h
Telefone: (14) 3227-7167 / (14) 3226-2488
Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas – CAPS AD II
Rua Dr. Lisboa Júnior, 2-66, Centro.
Horário de Funcionamento: Das 7h às 17h
Horário de acolhimento: de 2ª a 6ª feira das 7:30h às 9:30h.
Telefone: (14) 3227-4905 / (14) 3227-3788
Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas Infanto Juvenil III – CAPS AD III
Rua Azarias Leite, 13-28.
Horário de Funcionamento: 24 horas
Horário de acolhimento: de 2ª a 6ª feira das 8h às 10h e das 13h às 16h.
Telefone: (14) 3222-3937
Centro de Atenção Psicossocial II – CAPS II
Rua Monsenhor Claro, 6-99, Centro.
Horário de Funcionamento: Das 7h às 18h
Horário de acolhimento: de 2ª a 6ª feira das 8h às 10h.
Telefone: (14) 3227-5022 / (14) 3227-1370
Centro de Atenção Psicossocial Infantil – CAPSi
Rua Azarias Leite, 13-38, Vila Mesquita.
Horário de Funcionamento: Das 7h às 18h
Horário de triagem: 2ª a 6ª feiras das 07:30 às 09:30.
Telefone: (14) 3227-2574 / (14) 3214-3668
