Aumento do uso de telas na primeira infância escancara desigualdades no acesso à informação e à rede de apoio
Por Letícia Cerqueira, Maria Luisa Hardt, Mariana Bezerra e Talita Mutti

A primeira infância, período que se estende do nascimento aos seis anos, é a fase de maior neuroplasticidade cerebral, sendo um momento de ritmo acelerado de desenvolvimento cognitivo, motor, linguístico e socioemocional. Tainá Guedes, estudante e pesquisadora em Psicologia do Desenvolvimento pela UNESP de Bauru, enfatiza que essa é uma fase em que o vínculo afetivo e o apego seguro com os cuidadores são fundamentais para que a criança se sinta protegida e livre para se desenvolver.
Para ela, os pais precisam ter um cuidado responsivo – o que significa estar atento e responder prontamente ao que a criança está pedindo, sem fazer por ela, mas estando presente e oferecendo suporte de forma adequada no seu processo de desenvolvimento.
O uso de telas está se tornando cada vez mais comum entre as crianças: jogos, desenhos e vídeos fazem parte do cotidiano dos pequenos. Entretanto, as telas podem influenciar negativamente o desenvolvimento infantil – se não forem administradas de maneira adequada.
Por quanto tempo é ideal que as crianças usem telas?
Para a Sociedade Brasileira de Pediatria, as crianças menores de dois anos não devem utilizar telas. Já as menores de dez anos podem usar por, no máximo, duas horas diárias.
Quais são os riscos da exposição precoce às telas para o desenvolvimento infantil?
O aumento do uso de telas se tornou um ponto de atenção, especialmente após a pandemia. A pesquisadora cita um estudo de 2025 do Centro de Estudos sobre as Tecnologias da Informação e da Comunicação (CETIC) que aponta um aumento de 35% no uso de internet em crianças de 0 a 2 anos e de 45% na faixa etária de 3 a 5 anos – números considerados críticos, dada a recomendação de acesso zero para bebês.
Carolina Félix, fonoaudióloga e pesquisadora pela USP, explica que as telas propiciam atividades que, na primeira infância, não fornecem os recursos necessários para o desenvolvimento da linguagem. “A criança, para adquirir a linguagem, tem um aprendizado por fontes mais diretas. A gente aprende pelo outro, com a interação”, explica. Assim, a exposição prolongada ao uso de tela pode prejudicar o desenvolvimento cognitivo.
Tainá Guedes também destaca que a exposição precoce é um problema que precisa ser analisado sob o recorte de classe social. Muitas vezes, o celular é a primeira recorrência e a única solução imediata para pais de baixa renda que não têm condições de ter um cuidador e precisam conciliar obrigações.
A pesquisadora aponta a falta de acesso à informação sobre os prejuízos do uso de telas como um fator determinante: “Eu acredito que o acesso à informação dos prejuízos não chega. Não chega para comunidade de uma forma simples, onde as pessoas entendam e reconheçam, e também não chega de uma forma em que as pessoas consigam achar outras alternativas.”

Sem rede de apoio, como oferecer as telas de maneira cautelosa?
Infelizmente, muitas famílias não conseguem seguir as recomendações, e precisam recorrer às telas para acalmar e distrair as crianças diante da rotina. A fonoaudióloga relata formas em que os pais podem lidar com o uso de meios digitais: “Ficar uma hora seguida é um tempo longo, então vamos tentar fragmentar: ficar 15 minutos, depois 20 minutos”. Ela informa também que é interessante intercalar o tempo de telas com atividades como leituras e brincadeiras fora do ambiente digital.
Alternativas de Estímulo
O excesso de telas tem levado a uma mudança substancial no comportamento infantil: as crianças não brincam mais. Segundo Guedes, o conteúdo digital é muito hiper estimulante (desenhos vibrantes, muitas cores, música sonora), o que torna as brincadeiras tradicionais menos atrativas.
Para contrapor o uso de telas, Tainá sugere que as alternativas para os pais, especialmente aqueles sem rede de apoio, devem buscar o resgate do brincar simples e da imaginação:
- Estimular o faz de conta: incentivar a criança a usar objetos simples do dia a dia, como transformar uma garrafinha em um cavalinho, estimulando a criatividade.
- Explorar texturas e o simples: para bebês, ela sugere brincadeiras com água dentro de um saquinho plástico com tampinhas ou materiais com texturas diferentes.
- Estimular a imaginação sem brinquedos caros: “Não precisa ter boneco, não precisa ter brinquedo. Às vezes, no simples, a gente consegue muito mais estimular essa imaginação, essa criatividade, esse desenvolvimento cognitivo da criança do que entregar um brinquedo pronto.”, afirma.
O foco deve ser engajar a criança em uma brincadeira onde ela consiga se entreter dentro do mundo dela, resgatando atividades que são muito mais estimulantes para o desenvolvimento do que a exposição passiva às telas.
