Empreendedores do bairro: Bazar & Costura da Dalva Abençoado

Clientes e doações são bem-vindos no bazar de Dona Dalva, localizado no bairro Jardim Nicéia

áudio da matéria: https://drive.google.com/file/d/17ujNhwfJW-oZxYY4nSqLQPRpoBgd6PJY/view?usp=drivesdk

Por Carolina Vignali, Julie Anne e Mariana Nicastro

Maria Madalena das Neves na certidão de nascimento. Maria Madalena das Dores Pereira ao casar. Mãe para quatro, avó para dez e bisavó para dois. Dalva Abençoado na placa pregada em frente à casa de número 5-50 da rua Manoel Hermano da Silva, no Jardim Nicéia. “Dalva é o apelido que minha mãe colocou e ficou. Tem gente na vila que não me conhece por Maria, é Dalva”. Nascida no primeiro dia do ano de 1943, Dona Dalva não aprendeu a escrever ‘empreendedorismo’, mas começou o próprio negócio no bairro há cerca de cinco anos.

Uma lista de problemas de saúde a impediram de trabalhar fora e duas necessidades levaram à abertura de seu bazar: ocupar a cabeça e fazer um dinheirinho a mais. Dalva diz que juntar as letras é difícil, mas juntou seu estoque de roupas por meio de pedidos de doações nos grupos da igreja e do Facebook. A ideia tomou forma quando um dos filhos atendeu ao pedido e construiu o cômodo para as vendas ao lado da casa da mãe.

Há cerca de 50 anos, Maria Madalena chegou ao Jardim Nicéia com o marido e os filhos pequenos. A área verde e de risco onde mora não permite obras de alvenaria em sua casa e no seu bazar, ambos feitos de madeira. “Se eles chegarem aqui e falarem ‘hoje a senhora tem que sair’, eu vou perder tudo. Não dá pra arrancar o tijolo. Agora a madeira dá pra arrancar”. O frio e a chuva atormentam não só o armazenamento das peças do bazar, mas todos os moradores da casa no quinto quarteirão.

Dona Dalva confessa que perdeu a conta do número de peças do bazar
Créditos: Julie Anne Alves dos Santos/Voz do Nicéia

Coisas bagunçadas nunca dão certo

Aos 79 anos e seis meses, Maria cuida da casa, cozinha e lava as roupas. Em seu negócio, porém, tem ajuda da única filha mulher que teve. Lucia Alves Pereira nasceu e mora no Jardim Nicéia, trabalha com a mãe no final da tarde depois do expediente como catadora de material reciclável. As vendedoras prezam pela organização do bazar e, por isso, as peças dobradas e separadas por categoria são uma preocupação. “Jesus não gosta de coisa bagunçada, tem que fazer com ordem e decência. Se nós vamos trabalhar em uma firma, vamos de qualquer jeito? É a mesma coisa com o trabalho nosso”, defende Dona Dalva.

Religiosa e frequentadora fiel da igreja evangélica de sua rua, Dalva agradece: “eu estou contente com meu Deus e com o meu trabalho, se não for ele ajudar nós, quem vem ajudar?”. A filha complementa: “Eu sou feliz porque eu faço minha mãe feliz também, ela ganha um dinheirinho e pode comprar alguma coisa que ela queira”. Sem o bazar, Maria comenta que sente falta das pessoas que chegam para comprar e conversar. 

Até o momento, as peças da loja atendem aos moradores do bairro. “De pouquinho vai saindo, antes vender barato do que vender caro e depois o cliente não vem mais”, relata a empreendedora. A inflação chegou ao estabelecimento, mas os preços do bazar ainda chamam a atenção. Com 5 reais, é possível comprar uma camiseta, uma blusinha, uma camisa polo e até calças masculinas e femininas. Os vestidos, bermudas, shorts, blusas de frio e sapatos podem chegar a 15 reais. “Se for de marca é mais caro”, lembra Dona Dalva.

Filha, mãe e neto ao lado da placa que trouxe mais clientes ao bazar.
Créditos: Julie Anne Alves dos Santos/Voz do Nicéia

A senhora tem a cabeça boa

Foi no corona que pusemos a placa. Eu falei que estava pensando em colocar ali, mas eu não sabia fazer. Meu marido achou uma tábua e meu menino puxou no Google como que escrevia”. Como sinaliza o letreiro: ela também costura. Maria Madalena não tem máquina, costura à mão desde menina, quando descobriu sozinha as linhas e agulhas. Hoje, conta com a ajuda dos óculos para atender aos pedidos de barras de calça, zíperes, elásticos, botões e ajustes em geral. Os consertos custam em média 5 reais e as reformas mais trabalhosas têm preço maior.

Quando eu vejo que minha vista tá cansada, descanso e depois volto. Quando não tem culto, fico até às 17h e depois vou mexer com as panelas”, conta a empreendedora e dona de casa sobre a rotina. A respeito das costuras à mão, orgulha-se das histórias de clientes satisfeitos: “Uma menina me falou ‘está parecendo que foi costurado na máquina’. Eu falei ‘amém’. Ela perguntou quanto era e eu falei ‘cinco reais’, barato”.

Uma terceira ideia para a venda são os tapetes trançados de retalhos de tecido. A decoração colorida confeccionada com as mãos e uma agulha de crochê pode levar mais de 10 horas para ficar pronta, dependendo do tamanho. Poucas unidades foram vendidas até hoje, mas mãe e filha continuam com os nós e com a divulgação da peça artesanal.

Lucia aprendeu a trançar tapetes e levou a ideia para o bazar da mãe
Créditos: Julie Anne Alves dos Santos/Voz do Nicéia

Se vier doação, amém

Aos interessados em conhecer o bazar, Dalva frisa: “pode vir sem compromisso, o portão fica fechado, mas se chegar gente eu falo: pode abrir”. Segundo ela, a placa, a exposição das roupas no quintal e a costura do lado de fora são formas de construir sua clientela porque “eles me veem costurando aqui em casa e ficam sabendo”. 

O horário de funcionamento do bazar da Dona Dalva Abençoado é das 7h às 19h, todos os dias da semana. De quarta e sexta-feira, “dias que não tem culto”, está aberto também durante a noite. Nesse tempo, Dalva fica na companhia de suas três maritacas, três calopsitas e um periquito. “Eu gosto dos meus passarinhos, eu converso com eles enquanto eu costuro. Tem um que dá até beijo, tem um que canta”, garante ao apontar para o passarinho.

Para contribuir com o negócio de Dona Dalva também são aceitas doações de qualquer tipo de peça de vestuário, além de roupas de cama, de banho e toalhas de mesa. O estoque mais baixo no momento é o masculino, podem ser doadas calças jeans, bermudas, moletons, blusas de frio e sapatos. Na dúvida se uma peça poderia ir para o bazar, a empreendedora do Jardim Nicéia defende: “Se colocar pra vender aqui, vende”.

Bazar e Costura Dalva Abençoado

Endereço: Rua Manoel Hermano da Silva, número 5-50, Jardim Nicéia. Bauru, SP

Horário de funcionamento: todos os dias das 7h até as 19h

Telefone: 14 99860-2406

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