Descarte irregular no Jardim Nicéia atrai animais, gera mau cheiro e motiva queimadas. Secretaria do Meio Ambiente diz limpar quando há acúmulo
Por Carolina Vignali, Gabriel Rezende e Vitor Tenca

Moradores do Jardim Nicéia reclamam do descarte irregular de lixo no bairro. Pontos foram registrados nas ruas Um, Sete, André Luiz dos Santos e Dolores F. Balderrama. Tratam-se de descartes domiciliares, desde lixo orgânico a lixo reciclável e restos de móveis. Essa reclamação é histórica na comunidade.
A rua Sete não é asfaltada e os descartes acumulados atrapalham as pessoas que moram próximo. Maria Aparecida, 58, conta que os próprios moradores jogam lixo nos terrenos do lado direito da rua. A casa de Cida, moradora do bairro há mais de trinta anos, fica na esquina da rua Quatro com a rua Sete. O acúmulo leva mau cheiro e insetos para perto de sua casa, onde já foram vistos escorpiões.
Maria José da Silva, 68, e sua filha Josefa da Silva, 27, também são moradoras da rua Quatro e veem o lixo na rua Sete como um problema. Preocupam-se com as crianças que brincam ali. Elas já notaram a presença de ratos e baratas, assim como outros moradores do bairro entrevistados. “Sempre jogaram lixo aqui”, testemunha Maria José, que está há 13 anos no Nicéia.
Sidnei Rodrigues, diretor da Divisão de Praças e Áreas Públicas da Secretaria do Meio Ambiente (Semma), observa que ainda há falta de sensibilização frente às questões ambientais e, por isso, as pessoas continuam descartando seu lixo de forma irregular. “Em comparação com outros bairros da cidade, o Jardim Nicéia ainda é bem limpo. Quando existe uma grande quantidade de descarte em algum ponto do bairro, a Prefeitura realiza a limpeza”, diz o diretor.

Na prática, os moradores entrevistados relatam ausência de ação do poder público na questão do lixo espalhado. Apesar do que diz Sidnei, o único alívio dos moradores em relação ao acúmulo de descartes, nos últimos meses, ocorreu nos pontos em que a queima foi realizada há pouco tempo. Na rua Três, Sete e Dolores F. Balderrama, são os vizinhos que atuam na manutenção dos descartes irregulares.
O jornal Voz do Nicéia encontrou Valdelice Ribeiro, 36, recolhendo o lixo jogado nas calçadas da rua Três, entre a praça e a quadra. É onde fica a Barraca do Nego, seu próprio negócio que tem as vendas prejudicadas pelo lixo ao redor. A moradora da rua Um diz que alguns jogam lixo no entorno da praça, e outros moradores fazem a limpeza de tempos em tempos.
Mas, mais pessoas reclamam do problema que é o lixo em frente a seus locais de trabalho. Juliana Aparecida Izidoro, 33, mora e revende Avon na rua Manoel Hermano da Silva. Ela recolhe os materiais que jogam próximo à sua casa com um rastelo, assim como Maria Aparecida, da rua Quatro. Na tentativa de afastar os ratos, Juliana adotou uma gata. Para preservar seus negócios, ou suas casas, os entrevistados acabam, eles mesmos, limpando o lixo alheio descartado pelo bairro.
Cesar Augusto Ramos da Silva, 29, é morador da rua Dois, onde também há descarte irregular de lixo, o que afeta o visual próximo a sua casa. Pai de duas crianças, Cesar lamenta o acúmulo de lixo nos terrenos próximos à Creche Berçário Ernesto Quaggio. A escolinha fica na rua Valdemar Ferreira dos Santos, entre as ruas Seis e André Luiz dos Santos, e atende crianças de 4 meses até 5 anos de idade.
Uma das consequências é o acúmulo de água em recipientes descartados, que pode gerar procriação do mosquito da dengue, o Aedes aegypti, pontua Aloísio Costa Sampaio, agrônomo e professor do curso de Ciências Biológicas da Unesp, onde ministra a disciplina de Gestão Ambiental em Resíduos Sólidos Urbanos. Além disso, madeira amontoada atrai ratos, baratas e escorpiões. O agrônomo lembra, ainda, que o descarte irregular e o acúmulo de lixo são questões não só ambientais, como também de saúde pública.
Na frente da creche, um terreno privado virou ponto de descarte irregular de lixo. No entanto, o “tormento” apontado pela coordenadora de ensino é o terreno atrás da escola. Natalia Zuchi Martins, 37, conta que a queima do lixo nessa área deixa a creche “forrada de fuligem pela manhã”. Essa área fica de frente para o campo de futebol e há concentrações de descarte irregular.

Queimar os descartes é uma prática comum no Jardim Nicéia. Cinzas e restos de materiais queimados são vistos pelas ruas do bairro. É o caso das ruas Um, Sete, André Luiz dos Santos e Francisco Polido, todas sem asfalto. Josefa, que mora próximo à rua Sete, reclama quando o fogo é aceso perto de sua casa. Ela tem uma criança.
A vizinha Maria Aparecida diz que a fumaça e a fuligem são prejudiciais para o marido acamado. “Um dia eu perguntei: ‘O que tem aí?’. A mulher respondeu: ‘É roupa, eu vou jogar lá na frente e daqui a pouco eu ponho fogo’. Eu falei: ‘É meio dia e você vai por fogo aí?’. Eu tava com roupa no varal”, lembra a moradora da rua Quatro. “Aqui é assim mesmo”, lamenta.
“As consequências mais prejudiciais seriam se o vento trouxesse a fumaça para o bairro, por causa de problemas respiratórios, principalmente nas crianças”, alerta o professor Aloísio. Segundo ele, a liberação de gases de efeito estufa e a composição química desconhecida da fumaça são uma preocupação, em especial no período de seca. “O fogo fora do controle pode atingir a vegetação nativa. Em julho, agosto e setembro, a tendência é ficar cada vez mais árido, e o risco vai aumentando”, explica.

Os moradores entrevistados nesta reportagem confirmaram a regularidade da coleta orgânica pela Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural de Bauru (EMDURB) às terças, quintas e sábados. No entanto, a coleta só vai até a rua Dolores F. Balderrama e não atende as últimas ruas do bairro, que estão mais próximas à mata. Nessas ruas estão alguns dos focos de acúmulo de lixo e entulho. Elas não são asfaltadas e apresentam más condições de circulação, o que impede a passagem do caminhão de lixo.
Maria Castorina de Paula, 76, mora na rua André Luiz dos Santos e também foi vista pelo Voz do Nicéia fazendo a limpeza de descartes irregulares em um terreno. Ela comenta que os moradores das ruas mais afastadas da entrada do Jardim Nicéia preferem queimar o lixo a descartá-lo por outras partes do bairro, já que o caminhão não chega até essas ruas. Em abril último, o Jornal da Cidade de Bauru noticiava que a rua Cláudio Baptista Zotto, próxima à Rodovia Marechal Rondon, “transformou-se em verdadeiro lixão, com todo tipo de descarte irregular”.
De acordo com o cronograma da EMDURB, o caminhão da coleta seletiva – que recolhe materiais recicláveis como papelão, papel, plástico, metal e vidro – deve passar no Jardim Nicéia nas terças-feiras a partir das seis horas da manhã. Entretanto, as coletas orgânica e seletiva realizadas pela empresa não atendem à demanda do bairro, não devido a quantidade, mas por conta dos descartes não estarem embalados em sacos plásticos. O lixo está espalhado de maneira dispersa pelas ruas e terrenos, por isso, não é levado pelos coletores.
Além disso, os caminhões não recolhem entulho, pneus, móveis e eletrodomésticos. O descarte adequado dos materiais citados é feito nos Ecopontos. São oito em Bauru, mas o mais próximo ao Jardim Nicéia – o Ecoponto Jardim Redentor/Geisel, localizado na rua Noé Onofre Teixeira – fica a mais de quatro quilômetros de distância. Ou seja, 50 minutos a pé e oito minutos de carro. Segundo Sidnei Rodrigues, a intenção da Secretaria de Meio Ambiente é que os Ecopontos passem a atender todos os bairros da cidade.

“O morador precisa embalar, é inviável transportar o material sem saco plástico ou uma caixa de papelão. Agora levar no Ecoponto a uma distância dessa é impossível, não vai acontecer”, afirma o agrônomo. Em Bauru, a Prefeitura não oferece nenhum tipo de auxílio em relação a sacos plásticos para a população.
O poder público também não possui caminhões de coleta com sistema hidráulico, que são uma opção em bairros atendidos por empresas privadas. Neste caso, existem contentores ou caçambas plásticas para descarte de lixo. Na coleta, o contentor se encaixa no caminhão e o lixo é despejado direto na carreta, sem necessidade do devido ensaque.
Cesar Augusto comenta que o incentivo aos moradores e a definição de lugares específicos para separar o lixo poderiam ajudar. Valdelice Ribeiro e Juliana Aparecida Izidoro concordam que um Ecoponto traria benefícios ao bairro. Os moradores citam a praça, que por ficar no centro do bairro, poderia atender os vizinhos de todas as ruas.
Em 2017, o Voz do Nicéia cobriu a retirada da Lixeira Comunitária, que ficava na rua Quatro. Moradores apontaram que nem sempre a EMDURB recolhia o lixo das lixeiras, já que, algumas vezes, eles não eram ensacados e, em outras, os animais rasgavam os sacos. Na época, Maria Aparecida era uma das responsáveis pela limpeza. A aglomeração, o mau cheiro e o aparecimento de insetos causou incômodo aos moradores. “A lixeira comunitária não funcionava”, resume Maria José, da mesma rua.
Outros moradores comentam que uma lixeira comunitária na rua Seis passou pela mesma situação e também foi removida. “A lixeira comunitária é adequada apenas para prédios e estradas rurais. A opção adequada para o bairro é que cada morador coloque o seu lixo embalado na calçada no horário próximo da coleta”, indica Sidnei Rodrigues.
“Lixo em terrenos abertos e queima de resíduos, ambientalmente falando, fazem um cenário muito complicado. Mas não se poderia fazer um planejamento educativo sem ter a logística e o operacional em conjunto”, coloca o professor de Gestão Ambiental em Resíduos Sólidos Urbanos. Fora a coleta da EMDURB, não existem ações coordenadas de limpeza, placas informativas ou estímulo ao destino correto do lixo. Ainda assim, Sidnei Rodrigues diz que a Semma trabalha com conscientização ambiental no Jardim Nicéia.

A reciclagem no bairro é resumida na figura dos catadores. A maioria dos entrevistados, como Cesar Augusto, Juliana, Maria José, Josefa e Valdelice, confessa não separar o lixo orgânico do lixo reciclável, mas entrega alguns materiais para os catadores da região. “Eu separo reciclável e dou para o catador da rua de cima”, diz Maria Aparecida. Cesar, por sua vez, junta latinhas de alumínio para vender.
O professor Aloísio sugere a criação de um ponto de entrega voluntária no centro do Jardim Nicéia, recolhido e fiscalizado pela EMDURB com parceria de empresas privadas de coleta de resíduos, como a Cooperativa Ecologicamente Correta de Materiais Recicláveis de Bauru (Coopeco). “Uma cobertura com um espaço para jogar o reciclável seco e, ao lado, o resíduo úmido. Existe uma possibilidade grande de dar certo”, propõe.
Embora o caminhão não alcance o bairro inteiro, o diretor Sidnei frisa a existência do Programa Cata Treco, que recolhe móveis, colchões, eletrodomésticos, restos de madeiras e materiais recicláveis. O serviço da Secretaria do Meio Ambiente é gratuito e deve ser agendado pelo telefone 3239-2766.
O novo aplicativo “Câmara Bauru” pretende ouvir as demandas dos bauruenses e pode ajudar os moradores do Jardim Nicéia. A proposta da Câmara Municipal é que as pessoas baixem o aplicativo, tirem foto do problema e enviem um pedido de ação para um dos vereadores. Segundo a Assessoria de Imprensa da Prefeitura, é possível acompanhar a situação do pedido, saber se a questão foi resolvida ou não e avaliar o serviço.
No dia 28 de junho, o projeto Cidade Limpa 2022 da Prefeitura de Bauru – que coleta os mesmos materiais que o Cata Treco – passou pelo Jardim Nicéia. Devido a dispersão do lixo, a visita não trouxe alívio aos moradores e os pontos de acúmulo registrados continuam a incomodar. Segundo a Prefeitura de Bauru, a Secretaria das Administrações Regionais atua diretamente com a Associação de Moradores do bairro sobre a questão do lixo.
Até a publicação desta reportagem, o Voz do Nicéia não teve retorno da EMDURB.
