Pesquisas indicam que elas são responsáveis por 90% das tarefas domésticas no Brasil

Por Rafael Prudente e Ricardo Brambilla

Segundo dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, mulheres dedicam, em média, 10 horas a mais por semana aos afazeres domésticos do que os homens – Foto: Rafael Prudente

Hoje, o Brasil tem mais de 11 milhões de mães solo, segundo o IBGE. Esse número representa cerca de 15% dos lares brasileiros em que as mulheres são chefes da família e cuidam dos filhos sozinhas. Os trabalhos de casa, como limpar, cozinhar e outras atividades domésticas, não são reconhecidos de forma remunerada e podem ser chamados de “Trabalho invisível” ou “Economia do cuidado”.

O Vozes do Nicéia entrevistou duas mulheres, uma moradora do bairro e a filha de uma doméstica, para entender a rotina da dupla jornada, entre o trabalho remunerado e o trabalho doméstico.

A rotina de cuidado possui impacto significativo no dia a dia das mães, que precisam alinhar o trabalho dentro e fora de casa, afirma a moradora da rua 4 do Jardim Nicéia, Sandra de Souza. Ela trabalhou como doméstica enquanto cuidava dos quatro filhos na juventude: “Eu começava o trabalho sempre às oito horas da manhã e saía às quatro horas da tarde. Porque aí dava para os filhos maiores irem para a escola e os menores irem para a creche. Eu os levava até o Jardim Europa andando, porque não tinha ônibus para lá na época”, relata.

A dupla jornada dessas mães também afeta a própria casa, o que exige que as crianças ajudem entre si nas tarefas domésticas: “A minha mãe trabalhava muito distante de casa, então ela saia muito cedo e voltava muito tarde. Nesse período, quando meu pai trabalhava, as atividades de rotina ficavam por conta minha e da minha irmã mais velha. Então com sete anos eu tinha que levar e buscar meus irmãos menores para a creche”, relembra Tábata Santos, empreendedora, líder do Comitê de Igualdade Racial do Grupo Mulheres do Brasil e fundadora do movimento Afrocria. Tábata lembra que, na época, a mãe cuidava de cinco filhos enquanto trabalhava como empregada doméstica.

Além da importância direta do trabalho de cuidado, também existe um fator econômico que não é reconhecido de forma financeira. O artigo da FGV IBRE (Instituto Brasileiro de Economia) aponta que o trabalho de cuidado não-remunerado acrescentaria 12% ao PIB brasileiro, caso fosse contabilizado. O número representa quase o dobro da receita gerada pelo setor da agropecuária. 

A sobrecarga dentro de casa afeta o rendimento dessas mulheres no mercado de trabalho. Ainda assim, a busca por estudos e melhor qualidade de vida continua sendo um objetivo dessas mulheres, como Sandra, que fez cursos de artesanato, modelagem em costura “mas nesse ponto meus filhos já estavam indo para escola sozinhos, indo para o projeto, eu não tinha mais que ficar levando e trazendo [eles]”, ela destaca que só conseguiu dar prosseguimento às especializações quando os filhos ficaram mais velhos e, ela, com 30 anos de idade.

A realidade da Aide Jordão, mãe de Tábata, é parecida, apenas quando os filhos estavam crescidos que ela pode seguir com os estudos: “Agora, com 62 anos, a minhã mãe está estudando. Ela tem mais tempo e continua trabalhando por meio período, mas agora ela faz um curso de costura, que é algo que ela sempre quis, mas nunca pôde fazer algo que desse prazer pra ela”, diz Tábata.

O trabalho invisível continua sendo um dos mais importantes da sociedade, reconhecer sua importância e a presença das mulheres nesse espaço ajuda a diminuir a sobrecarga e cria um ambiente familiar e de trabalho confortável para todos.

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