Unidade oferece orientações, solicitação de benefícios e acompanhamento para famílias em situação de vulnerabilidade social
Por Rebeca Elias e Guilherme Leal

O Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) Europa oferece atendimento psicossocial semanal no Jardim Niceia. Todas as terças-feiras, a partir das nove horas, os agentes sociais da unidade vão até a Igreja São Francisco Xavier para orientar moradores em situação de vulnerabilidade sobre benefícios e auxílios governamentais.
“A ideia de ir no Jardim Nicéia toda semana é para fortalecer o vínculo com os moradores do bairro para eles terem a gente como referência e nos procurar mais”, relata Nathalia Charlois, psicóloga social do CRAS. A participação de coletivos ajuda na fomentação da conversa sobre a unidade pública estatal, para que, dessa forma, haja o engajamento popular com os serviços oferecidos pelo Centro de Referência.
Os atendimentos são realizados na Capela São Francisco Xavier, rua Valdemar Ferreira dos Santos, das nove às onze da manhã. A profissional reforça que não é o espaço ideal, mas tem expectativas de que, com a finalização do Centro Comunitário do bairro, os encontros mudarão de lugar.
A proposta de levar o acompanhamento do CRAS até o bairro veio com a mudança da unidade do Jardim Europa para o Estoril, dificultando o acesso dos moradores do Nicéia. “A gente está tentando vir toda semana para melhorar um pouco, mesmo não estando nas condições adequadas”, acrescentou Nathalia. Pensando nas pessoas que enfrentam dificuldades para se deslocar dentro da cidade, o atendimento no Nicéia surge como uma alternativa de aproximação do público-alvo com o serviço social gratuito.
Os profissionais do CRAS são formados em psicologia, serviço social, pedagogia e ou até economista doméstico. Proporcionando políticas de meio para a população do bairro, ou seja, articulando com outras secretárias maneiras diferentes de resolver as demandas que vão surgindo. Sejam elas de cunho educacional, cultural, econômico, saúde, lazer ou até mesmo na solicitação de documentos pessoais perdidos.
O CRAS oferece suporte psicossocial, como um apoio de meio: a partir da interação do indivíduo com o órgão, há o encaminhamento para outros serviços que atuam nas diferentes áreas da vida do cidadão. Quando os casos são mais graves, há o objetivo de redirecionar ao atendimento específico. “Se a gente percebe que [a pessoa] tem alguma questão de saúde, por exemplo, a gente faz os encaminhamentos para o CAPS e UBS”, explica a profissional.
Ainda conforme explica a profissional, o motivo pelo qual o Wise Madness encerrou suas atividades está relacionado à meta estipulada pela própria associação. Semanalmente, de acordo com Natália, 10 a 15 pessoas vão aos atendimentos. 532 famílias estão vinculadas ao Centro de Referência de Assistência Social.
O público que pode passar pelo atendimento semanal disponivel pelo CRAS são: famílias e indivíduos em situação grave de desproteção, pessoas com deficiência, idosos, crianças retiradas do trabalho infantil, crianças sem vaga para escola, pessoas inseridas no Cadastro Único, beneficiários do Programa Bolsa Família e do Benefício de Prestação Continuada (BPC), entre outros.

Os relatos mais comuns são sobre os poucos serviços disponíveis no Nicéia, incluindo o espaço de convivência para crianças e adolescentes (Wise), que encerrou suas atividades no dia 8 de abril. Questões de renda e alimentação também fazem parte dos principais problemas vividos pelos moradores do bairro. Além disso, por conta dos atendimentos acontecerem em uma igreja católica, muitos deixam de comparecer à visita semanal. Outro fator determinante para a baixa adesão é a falta de informação a respeito do trabalho realizado pelo centro de assistência social.
Para a assistente social, uma das metas é entrar em contato com a administração pública para a criação de espaços públicos voltados à saúde, educação e cultura, para diminuir a superlotação dos poucos serviços que os moradores têm acesso, além de proporcionar o melhor atendimento.
A assistente social Luara Sobral fundou, em 2023, um coletivo de mães solo dentro do bairro, em parceria do CRAS com os estudantes de Psicologia da Unesp para facilitar o acesso aos serviços públicos. “A gente enxerga a importância de realizar esses atendimentos em lugares mais periféricos, porque as pessoas que mais precisam não conseguem chegar quando estão longe. Então, o poder público tem que estar mais próximo da população, é muito mais fácil sair uma assistência social daqui e atender 15 pessoas, do que 15 pessoas vieram até aqui no CRAS”, conta.
“É bom que o CRAS venha aqui, porque tem muita pessoa que precisa. Tem muito idoso que não tem acompanhante e muita gente que trabalha. Esses idosos ficam em casa e não têm como ir até lá. Então, o CRAS vindo para o bairro foi uma maravilha, ajuda muita gente aqui porque não precisa se deslocar. Só que agora o CRAS não é mais aqui perto da Escola Luiz Braga, ele foi lá para perto do Pão de Açúcar, no Estoril. Então, agora ficou muito mais longe para as pessoas”, afirma Cláudia Aparecida da Silva, moradora da rua 1.
O Cras Europa atende cerca de 70 bairros e 3.700 famílias, sendo o Nicéia, hoje, o bairro com o maior volume de atendimentos, seguido pelo Parque das Nações. Devido à demanda e descentralização dos residentes do bairro, é fundamental que os agentes sociais estejam nesses locais para dar o suporte necessário. “A gente tem que estar próximo, tanto pela distância quanto pela quantidade de casos. É um território muito vulnerável. Então, os territórios que são muito vulneráveis, eu acho que tem que ter a presença do poder público. E nós somos o poder público”, ressalta Luara.
Ela ainda explica que, se existe um Crás no território, é porque ele é periférico. “Não tem o CRAS do Jardim América e o CRAS do Jardim Europa”, argumenta a funcionária ao citar bairros mais nobres de Bauru. Por meio do PAIF, que é o Programa de Atendimento Integral às Famílias, os funcionários têm o prontuário de gerações que foram atendidas pelo centro de referência. Se um lar é atendido por décadas, isso significa que os enfrentamentos pelos quais aquele local passou ainda não foram sanados completamente.
“Quem abriu o CRAS está aqui até hoje. Então, nós temos um acompanhamento integral. Não é só aquela usuária que está indo procurar, não. É dela e da família dela. Se o pai ou filho dela apresentar alguma demanda e eles morarem na mesma casa, a gente atende como família. Então, a gente tem sim esse trabalho contínuo”, revela a profissional. De acordo com a funcionária, 80% do público atendido pelo CRAS é formado por mulheres. Quando se fala do Niceia, o recorte é formado por pessoas do sexo feminino, pretas, de ensino fundamental incompleto e chefes de família.
Embora pobreza e violência sejam os principais motivos pelos quais os assistentes sociais são chamados, o local também atua como mediador das relações sociais entre aqueles que utilizam do serviço. Por isso, se membros de uma mesma família precisarem se realinhar, os funcionários também possuem o aparato para lidarem com as dinâmicas interpessoais.
O órgão atua na mediação de diversas necessidades, oferecendo desde auxílios imediatos como cestas básicas e vales alimentícios, até visitas domiciliares para acompanhamentos sociais e de caráter orientador. Para garantir a eficácia dos serviços, cada família possui um prontuário que os funcionários utilizam durante as visitas ao bairro, esse documento registra os atendimentos e as soluções adotadas para o grupo familiar.
A maioria dos serviços prestados pelo CRAS necessitam de cadastro prévio para melhor controle de acesso e liberação de benefícios. O contato pode ser feito via telefone, WhatsApp ou de forma presencial. A unidade do Jardim Europa pretende manter os atendimentos semanais no bairro mesmo após a abertura da nova sede, prevista para junho. Alguns moradores buscam formas de retribuir o trabalho do CRAS realizado no bairro do Jardim Nicéia.
“No meu ponto de vista, eu achei maravilhoso. Tanto que eu vim trazer uma lembrancinha de Páscoa para a Nathalia. A gente acaba pegando amizade com as pessoas, né? Porque isso é muito bom. Eles atendem você com o maior respeito, com a maior calma e carinho. Então, o atendimento é excelente”, completa Cláudia Aparecida da Silva.
O órgão tem como objetivo a emancipação das pessoas, o que significa diminuir as mazelas sociais na vida dos cidadãos ao longo do tempo, a ponto de os serviços públicos tornarem-se dispensáveis. Esse cenário ocorre quando os moradores estão empregados, com seus filhos matriculados na escola, onde o sistema de saúde está apto para recebê-los e os níveis de vulnerabilidade social são praticamente inexistentes.










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