O time amador do bairro Jardim Nicéia retorna suas atividades em 2026, e com uma nova diretoria, busca sua volta para elite

Por Isabela Cristina e Rebeca Elias

Jogadores do Nicéia E.C junto de sua torcida em dia de jogo/ Foto: Douglas Henrique

O futebol amador, também conhecido como várzea, é uma modalidade do esporte ligada às comunidades brasileiras. Para além da prática esportiva, tem seu papel social e o lado sentimental, sendo uma oportunidade de gerar pertencimento dos moradores. Dentro do Jardim Nicéia, o clube que tem como missão representar o bairro é o Nicéia Esporte Clube, fundado em 2017.

Fundar um clube amador e sustentá-lo por anos não é uma missão fácil, Douglas Henrique Ramos da Silva, morador da rua 3, um dos fundadores do Nicéia E.C e auxiliar técnico da equipe, explica que a ideia de montar um time para representar sua comunidade surgiu em uma conversa entre amigos e se concretizou em 2017.

 “A gente se reuniu aqui no banco da praça mesmo, três loucos e falamos, vamos montar um time e vamos ver o que dá. Começamos fazendo amistosos e aos pouquinhos vimos que dava para entrar no campeonato amador”.

Porém em 2019, o time parou suas atividades por conflitos internos, e em 2026, está retornando com uma nova diretoria e altas expectativas. Mesmo com o acesso da primeira divisão, já que antes do encerramento eles pertenciam à elite, a diretoria entrou em um consenso de começar do zero e conquistar o seu acesso de novo.

O retorno do Nicéia causou grandes emoções dentro do bairro, segundo Felipe Augusto de Oliveira, morador da rua 6 e torcedor do Nicéia E.C. desde 2017:  “A sensação foi de muita expectativa, a gente esperava muito por esse momento que era o que faltava para movimentar a vila. Porque aqui é um bairro que não tem muita coisa, então tendo um esporte, é a melhor coisa”.

Hoje o Nicéia E.C compete a segunda divisão da Liga Bauruense Amador e recentemente disputou a Copa Hermes Construtor, no qual conquistaram o quarto lugar. 

Diferente do futebol profissional, dentro do futebol amador nem todos os times mantêm uma rotina de treinos, por questões estruturais, ou até mesmo de tempo. Dentro do Nicéia E.C, o time não treina coletivamente antes dos jogos, os jogadores mantém suas rotinas individuais de preparação “mas treinar mesmo o time em si é só lá dentro do campo mesmo, na hora que a bola rola”, explica o auxiliar técnico.

Na questão financeira, o time conta somente com apoio dos patrocinadores e outras movimentações como rifas, por exemplo. Douglas explica que nos campeonatos “não tem premiação nenhuma, é só o troféu que eles dão e medalha, aí a gente tem que arrecadar dinheiro para manter o time”.  

Por mais que não tenha retorno financeiro, existem os gastos com taxa de inscrição, manutenção da Liga de Futebol Amador, pagamento para alguns jogadores e outros diversos custos dentro do clube, estes bancados pelo patrocínio que “não tem retorno nenhum é por amor ao time”, complementa Douglas.

Morro do macaco

Sendo o 12° jogador, o Nicéia E.C conta com a força de sua torcida, conhecida como “Morro do Macaco”. O nome vem de uma referência à parte de cima do bairro, que é comumente conhecida como morro, e anos atrás, antes do desmatamento, era uma região com muitos macacos e saguis. 

Douglas relembra que “tinha um ônibus que parava embaixo e então vinha aquela torcida, um monte de gente descendo pela viela. E assim, se tornou a torcida do Morro do Macaco, porque lá em cima tinha bastante macaquinho, saguizinho”.

O auxiliar técnico também explicou a importância da torcida para o Clube:

“Sem os torcedores, o time não é nada, porque não adianta você colocar um time lá e na hora que você olhar para cima não tem ninguém apoiando, não tem ninguém incentivando os jogadores, não tem aquela motivação maior, só motivação dentro do campo, então acho que sem uma torcida não existe time”.

E a importância da torcida não é reconhecida somente dentro das quatro linhas, para Felipe “no futebol de várzea a torcida tem importância muito grande porque tira um pouco as crianças da rua”. Ou seja, além de o time ter um papel importante na vida dos torcedores, o time também cumpre uma função social dentro do bairro, onde crianças são alcançadas e passam a ver o futebol como uma opção longe da marginalidade e violência.

Sede do Nicéia E.C com pintura representando a torcida/ Foto: João Pedro Passaroni

O sentimento de ser Nicéia E.C

Para além de um time de futebol, o Nicéia E.C é a realização de um sonho e a materialização de gratidão por todos anos vividos na sua comunidade. 

“Ah, para mim o Nicéia é tudo, porque eu nasci aqui, moro aqui já faz 38 anos, eu vi isso daqui no começo, e representar o nome do Nicéia em Bauru inteira, para mim é um orgulho tremendo”, relata Douglas. 

O peso de vestir a camisa também reflete nos jogadores. De acordo com o centroavante Matheus de Moura, conhecido como “Zetão”, morador da rua 5, jogar no Nicéia E.C significa resgatar seu primeiro contato como jogador de futebol: “Conheci o futebol de várzea através do Nicéia. Foi o primeiro time que joguei lá em 2017, quando fundaram, e ali foi meu primeiro contato. Eu nasci e cresci no Nicéia, então assim que falaram que iam fundar o time, eu já me dispus a jogar; mesmo nunca tendo jogado, me coloquei à disposição para fazer parte do time”. 

 Mais do que um orgulho, o futebol amador permite a conexão e a paixão pelo seu lar, despertando o sentimento de pertencimento:

“Eu dou a vida por isso aqui,  não tem nada melhor do que você estar defendendo as cores do seu bairro, junto com a torcida, junto com os familiares, junto com os amigos que eu vi crescer, então o Nicéia para mim é tudo”, complementa Douglas.  E o torcedor Felipe compartilha dos mesmos sentimentos nas arquibancadas:  

“É um orgulho que vai além do esporte, porque é o nome de onde eu nasci, onde eu cresci e eu me orgulho de levar o nome da minha vila”. 

Já para Matheus, a volta do Nicéia para além de uma importância pessoal, existe um peso profissional: 

“Rodei bastante por outros times do amador, já fui artilheiro duas vezes, já fui campeão, e hoje volto para o Nicéia com nome e responsabilidade a mais, pois querendo ou não volto como uma referência. Vestir a camisa do Nicéia é um peso muito grande” afirma o centroavante Matheus de Moura.

Douglas Henrique ao lado da sede do clube/ Foto: João Pedro Passaroni

O  Nicéia E.C continua sua batalha pelo acesso da primeira divisão, e você pode acompanhar o calendário de jogos pelo instagram do clube @niceiaec.

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